Os resultados das duas últimas pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais, do Datafolha e do Ibope, evidenciam que há uma onda Lula, uma Lul´onda em movimento.
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Brasil Debate

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Marcus Ianoni

É cientista político, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), realizou estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford e estuda as relações entre Política e Economia

 
Marcus Ianoni

Lul´onda

Há duas grandes hipóteses para se entender a onda Lula: uma é política, a questão da democracia, e a outra é a economia. Falhou a tentativa de banir o PT da competição política. O tiro saiu pela culatra

30/08/2018

Os resultados das duas últimas pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais, realizadas em junho e agosto tanto pelo Datafolha quanto pelo Ibope, evidenciam que há uma onda Lula, uma Lul´onda em movimento. Alguns analistas observaram recentemente que, prosseguindo essa tendência, pode-se configurar um virtual quadro de vitória, no primeiro turno, da coligação O Povo Feliz de Novo (PT-PCdoB, PROS), apoiada também pelo PCO. A Lul´onda é a resposta da esquerda competitiva eleitoralmente e socialmente enraizada à onda conservadora que emergiu, sobretudo, na campanha eleitoral de 2014, contra a reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Está em curso o primeiro processo eleitoral para a escolha dos representantes ao Executivo e ao Legislativo federais após a controversa deposição da presidente Dilma, fato que, juntamente com grande parte da intelectualidade progressista, avalio ter sido um golpe de Estado arrematado formalmente pelo Congresso Nacional, mas coproduzido por uma coalizão entre atores político-institucionais (incluindo a burocracia pública das agências de repressão e controle) e da sociedade civil organizada (nova direita das ruas, grande mídia e, ao fim e ao cabo, as várias frações de classe do empresariado).

As duas fontes de dados mostram três pontos relevantes. Em primeiro lugar, a intenção de voto em Lula, de junho a agosto, subiu acima da margem de erro (2% para menos ou para mais). Em segundo lugar, as intenções de voto nos outros quatro principais concorrentes mantiveram-se dentro da margem de erro, não sendo estatisticamente relevantes.

Por fim, os dados evidenciam que houve uma queda, descontada a margem de erro, nas intenções dos eleitores em votar branco ou nulo. Uma conclusão plausível é que a intenção de voto em Lula cresceu entre os que iriam alienar seu voto optando pelo voto em branco ou pelo voto nulo. A outra possibilidade de alienação eleitoral é a ausência nas urnas, embora o voto seja obrigatório. Note-se que ainda há espaço para a redução da intenção de votar em branco ou de anular o voto. Mas há outro ponto relevante não mostrado na tabela acima: a capacidade de transferência de voto de Lula para Haddad, para ficar só no Datafolha, indica que, caso o primeiro não possa efetivamente concorrer, o segundo pode alcançar, pelas projeções atuais, 24% das intenções de voto (dois terços de 39%), o que lhe garantiria um lugar no segundo turno.

Há dois elementos a se considerar ao se pensar nas causas dessa onda Lula, ao menos observável de junho para cá. Um é o PT e o outro é o impacto dos resultados dos governos Lula no eleitorado. Um e outro juntam a fome à vontade de comer. Em relação ao PT, assim como ao PCdoB, ambos são agremiações partidárias orgânicas, enraizadas nas principais organizações sindicais e movimentos sociais do país, nos meios urbanos e rurais (CUT, MST, CONTAG, CTB, UNE, CMP, movimentos de mulheres, de negros etc.).

Obviamente, o golpe de 2016 não foi engolido por essas organizações. Em certo sentido, elas incorporam com força redobrada no contexto atual uma causa cara à história contemporânea, que pode ser sintetizada em uma versão da esquerda socialista do lema do Terceiro Estado na Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade. Em outros termos, lutam por justiça social e pelos direitos em geral, inclusive os civis e políticos, comprometidos pelo ativismo judicial em ação no Brasil, que embute mecanismos de criminalização da política, atingindo, sobretudo, o Partido dos Trabalhadores.

Atento ao que se passa no país, o Comitê de Direitos Humanos da ONU pediu recentemente ao Estado brasileiro que Lula, mesmo preso, tenha garantido seus direitos políticos e possa concorrer às eleições de outubro. Enfim, a esquerda organizada em torno do PT e do PCdoB tem representatividade, questiona a legitimidade do atual regime pós-golpe de 2016, está aguerrida e em ação – a começar pelo inconformismo militante de seu grande líder, Lula – e quer construir, por meio do processo eleitoral, uma virada na conjuntura de desdemocratização e de ascensão do autoritarismo, sobretudo nas instituições judiciais e policiais. Há vários indícios de que a campanha da chapa Lula-Haddad está contagiando e entusiasmando a militância. Um exemplo apenas são as atividades públicas em mercados e shopping centers de várias cidades: grupos massivos de apoiadores caminham animados ao som de um trompetista tocando uma melodia símbolo do petismo: olê, olê, olê, olá, Lula, Lula.

Em relação aos governos Lula, a chamada saudade do presidente Lula motiva o eleitorado. A comparação entre o Brasil do governo Temer e o Brasil dos governos Lula comprova com efetividade que a situação nacional regrediu. Os indicadores de emprego, renda e mobilidade social, por exemplo, eram incontestavelmente melhores nos governos Lula. No Relatório Mundial de Felicidade, feito anualmente pela ONU, o Brasil ocupava em 2015, a 16ª posição. De lá para cá, caiu sem parar, ocupando em 2018 o 28º lugar entre 156 países. Em 2017, a posição do Brasil foi a 22ª. As políticas ultraliberais do governo Temer têm produzido, em curto espaço de tempo, resultados negativos impactantes, que vão na contramão das demandas básicas da população. O país vivencia o caos, como se verificou, por exemplo, na violenta e anárquica expulsão dos venezuelanos em Pacaraima.

Conforme avaliou recentemente o jornalista Reinaldo Azevedo, “Lula já venceu a eleição”, seja lá o que ocorra nas urnas, apesar dos prognósticos favoráveis para a esquerda competitiva. As políticas neoliberais não conseguem recuperar os investimentos e o crescimento. A taxa de desemprego supera os 12%. As finanças públicas regrediram, a dívida pública cresceu e o déficit primário virou regra, ao passo que, de 2003 a 2014, ele foi exceção, tendo ocorrido apenas no último ano do primeiro mandato de Dilma.

Enfim, há duas grandes hipóteses para se entender a onda Lula: uma é política, a questão da democracia. A outra é a economia, companheiros e adversários (bem melhor que banalizar a palavra “estúpido”)! O tiro saiu pela culatra. Falhou a tentativa de banir o PT da competição política. Falhou também o bombardeio midiático contra Lula. Ele e Haddad estão no debate eleitoral, sim, apesar do veto das TVs e dos tribunais superiores. O golpe gorou.

Crédito da foto da página inicial: Ricardo Stuckert

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