Os países que se desenvolveram buscaram assimilar a tecnologia dos mais avançados. O Brasil tinha começado a investir nesse processo e foi interrompido.
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Brasil Debate

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Rafael da Silva Barbosa

Economista, doutor (UNICAMP), pós- doutorando em Política Social (UFES), pesquisador visitante na Universidade de Coventry (Reino Unido, Inglaterra) e colunista do Brasil Debate.

 
Rafael da Silva Barbosa

Internacionalização do ensino superior e retrocesso à vista

O Brasil parecia ter acordado com o bem-sucedido Programa Ciência Sem Fronteiras e outras medidas adicionais que deram gás à estratégia de internacionalizar o ensino superior. O golpe deu um basta a esse avanço

30/10/2019

Todas as nações que se desenvolveram, em seus períodos iniciais de trajetória buscaram assimilar a tecnologia do país mais avançado como condição necessária para o grande salto do progresso. Além das conhecidas estratégias empresariais de produção interna das mercadorias de maior valor agregado e das famosas técnicas de engenharia reversa, a qualificação dos estudantes, cientistas e pesquisadores é uma etapa central nesse processo.

O envio em massa dos operadores do conhecimento é uma das formas mais efetivas de garantir a internalização dos produtos e processos mais avançados. Por isso, países desenvolvidos tendem a receber mais estudantes do que enviar, como nos casos dos EUA, Reino Unido e Austrália, sendo a Alemanha um caso à parte.

O primeiro passo é garantir uma fonte de financiamento estável para que estudantes, cientistas e pesquisadores possam viver tão somente para o saber, acima das vicissitudes do custo de vida dos países de destino; eliminando assim qualquer tipo de trabalho que não seja o da fronteira do conhecimento e objetivo do seu país de origem. De tal forma que garanta a estabilidade financeira e emocional para uma produção final de um produto ou aprendizado de alta qualidade. Nessa linha, o segundo passo versa sobre o retorno desses pesquisadores, cientistas e estudantes para serem os grandes multiplicadores do conhecimento adquirido segundo os interesses nacionais.

Em 18 anos [2000-2017], o Brasil conseguiu enviar ao exterior mais de meio milhão (586 mil) de estudantes, pesquisadores e cientistas, sendo o país da América Latina de maior número, seguido pelo México, Colombia e Peru. Embora o quantitativo possa parecer elevado, se comparado aos países dos BRICS, por exemplo, fica muito abaixo de todos, exclusive África do Sul. Para se ter uma ideia, a Índia e China enviaram no mesmo período 3 e 9 milhões, respectivamente. Óbvio que os níveis populacionais são diferentes, mas a velocidade do crescimento dos países supracitados também é maior. Ademais, se compararmos com a Coreia do Sul, país que na década de 1980 tinha mesmo nível educacional que do Brasil, o primeiro enviou 1.8 milhão de estudantes, pesquisadores e cientistas para o exterior.

Apesar disso, o Brasil parecia ter acordado, o bem-sucedido Programa Ciência Sem Fronteiras e outras medidas adicionais na área colocaram um gás na estratégia de internacionalização do ensino superior. O país ganhou ritmo, o que levou 8 anos [2001 a 2008] para aumentar em 10 mil o número de saídas (outbond) para o exterior alcançou-se em apenas dois anos entre 2013 a 2015, como se vê no gráfico 1.

Entretanto, a “tragédia” da história brasileira parece se repetir mais uma vez. Toda vez que o país sugere um despontamento para o progresso, forças do atraso nacional – mega empresários do setor industrial, financeiro, comunicação, alto comando do exército, judiciário e legislativo – em conluio com interesses estrangeiros (norte-americanos) arquitetam um golpe de Estado para conter a superação das questões pendentes do Brasil.

Os dados mostram que, já no final de 2015, do primeiro ano do segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff, é possível verificar o breque da trajetória, muito em função da sabotagem do próprio candidato derrotado democraticamente, Aécio Neves, no pleito de 2014. A irresponsabilidade foi tão grande que praticamente destruiu todo o aparato de avanço da internacionalização do ensino superior, restando apenas a inércia dos bolsistas já cadastrados e daqueles que não retornarão para o país. Até o final do ano de 2019 se buscará o fim definitivo do programa. Ano em que, aliás, mais uma vez, sabotaram a democracia brasileira e alçaram ao poder uma figura que mantém todo o desmonte do desenvolvimento nacional. Quando disponíveis, os dados de 2018 e 2019 confirmarão tal perspectiva.

Nesse muro das lamentações, resta apenas uma insurreição social para reestabelecer a ordem para progresso nacional.

Só as ruas salvam o Brasil da sua própria “tragédia”!

Crédito da foto da página inicial: Reprodução Ciência sem Fronteiras

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