Os autores analisam dados sobre a indústria brasileira nos últimos anos, e concluem que houve evolução positiva do emprego no setor, apesar do forte impacto da crise financeira internacional.
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Brasil Debate

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Fernando Sarti

É professor e diretor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (NEIT) da mesma instituição

Célio Hiratuka

É professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (NEIT) da mesma instituição

 
Fernando Sarti e Célio Hiratuka

Indústria, emprego e desenvolvimento regional

A indústria brasileira gerou 5,1 milhões de novos postos de trabalho entre 2003-2014. Muitos deles nas Regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, onde estão associados ao ciclo virtuoso dos efeitos multiplicadores da renda e emprego, aos efeitos aceleradores dos investimentos regionais, sobretudo em infraestrutura básica e física, e aqueles relacionados ao Pré-sal

O Brasil avançou muito no desenvolvimento social e regional na última década, mas há muito por avançar se quisermos reduzir a enorme e vergonhosa dívida social e extrema disparidade regional.

Para esses objetivos, a indústria cumpre um papel chave. A rigor, não haverá desenvolvimento social e regional sustentado e inclusivo sem uma indústria brasileira forte e dinâmica.

A indústria brasileira gerou de 5,1 milhões de novos postos de trabalho no Brasil no período 2003-2014, quando se considera as contribuições conjuntas das atividades de manufatura, extrativa, serviços industriais de utilidade pública e construção civil. A indústria de transformação gerou 2,7 milhões de novos empregos formais.

É importante destacar que esse dinamismo do emprego industrial se deu no bojo de um importante processo de desconcentração regional da indústria.

Os indicadores de emprego industrial, número de empresas e valor da transformação industrial (VTI) da pesquisa industrial anual (PIA) do IBGE para o período 1996-2012 apontam para uma crescente participação das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste no total da indústria (Tabela 1).

tabela 1 sarti hiratuka

É bem verdade que há ainda um elevado grau de concentração industrial nas regiões Sul e Sudeste do País. Juntas, essas regiões eram responsáveis por quase 80% de todo o produto industrial em 2012 (último ano disponível na PIA-IBGE).

São Paulo sozinho respondia por pouco mais de um terço do valor agregado industrial brasileiro (34,8%). A queda de participação da região Sudeste nas duas últimas décadas ficou concentrada no Estado de São Paulo e na indústria manufatureira. A rigor, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo aumentaram sua participação na indústria brasileira.

Cabe destacar que esse aumento de participação das regiões menos industrializadas e desenvolvidas ocorreu em termos relativos, mas não significou redução absoluta na indústria paulista. Os números absolutos de emprego e de empresas industriais em São Paulo foram crescentes no período de 2002 a 2012, depois de uma retração observada entre 1996 e 2002.

tabelas 2 e 3 sarti hiratuka

Guerra fiscal

A guerra fiscal e a busca de redução de custos, sobretudo salariais, explicam uma parcela importante do processo de desconcentração regional “espúrio” observado desde os anos 1990.

No entanto, no período mais recente, as taxas superiores de crescimento econômico das Regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste estão associadas ao ciclo virtuoso promovido pelos efeitos multiplicadores da renda e emprego, bem como os efeitos aceleradores dos investimentos regionais, sobretudo em infraestrutura básica e física e aqueles associados ao Pré-sal.

A título de conclusão, os indicadores mostram a evolução bastante positiva do emprego em geral e industrial, em particular, no Brasil nos últimos dez anos, em que pese o forte impacto da crise financeira internacional.

Essa evolução foi decisiva para a melhoria observada na distribuição de renda no País. A indústria teve e continuará tendo uma importância decisiva na geração de bons e novos empregos.

Os indicadores apontam também para uma importante e desejada desconcentração industrial no Brasil. A expansão industrial nas regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste é fundamental para reduzir as extremas disparidades regionais.

No período 1996-2012, apenas São Paulo apresentou um quadro de perda de participação no produto e emprego industriais. Ainda assim, o aumento absoluto no número de empresas e do emprego industriais no período considerado impede uma conclusão apressada de desindustrialização em São Paulo.

A intensificação desse processo de desconcentração industrial e seus resultados em termos de geração de empregos, distribuição de renda e benefícios sociais dependerão muito da intensidade e do padrão do investimento.

A expansão dos investimentos em infraestrutura social (saneamento básico) e física (logística e transporte, telecomunicações e energia), além de ampliarem os mercados regionais e sua integração aos centros mais desenvolvidos no Sul e Sudeste, promoverá uma maior e mais competitiva oferta desses serviços, bem como gerará uma forte demanda por emprego e bens industriais domésticos, nacionais e regionais.

Crédito da foto da página inicial: Mark F. Levisay/ Creative Commons

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