As bioarmas ganham destaque em relação à alternativa nuclear no século 21. Por que, então, o desenvolvimento de armas nucleares do Irã assusta tanto o Ocidente? (Na foto, ataque do Irã a bases militares dos EUA no Iraque)
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Marco Aurélio Cabral Pinto

É professor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense, mestre em administração de empresas pelo COPPEAD/UFRJ, doutor em economia pelo IE/UFRJ. Engenheiro no BNDES e Conselheiro na central sindical CNTU. É colunista do Brasil Debate

 
Marco Aurélio Cabral Pinto

Guerra entre potências: ogivas nucleares ou biologia?

No seu avanço em direção à Eurásia, o império norte-americano combina emprego de inteligência e potencial uso de armas biológicas. O temor de um Irã nuclear relaciona-se mais à hegemonia de Israel no Oriente Médio do que a ameaças ao Ocidente

16/01/2020

1.Armas nucleares e conflito entre potências: por que o Irã é tão perigoso para o mundo?

A geopolítica do século 20 foi protagonizada pelos Estados-Nações que dispuseram de arsenal nuclear. Os Estados Unidos deixaram claro, ao final da Segunda Guerra Mundial, que se trataria de arma capaz de garantir a projeção dos interesses norte-americanos sobre o mundo. Aquelas culturas com meios para resistir dedicaram então esforços substanciais em inteligência e desenvolvimento tecnológico autônomo para alcançar o mesmo objetivo.

Não obstante Inglaterra e França disporem do ciclo nuclear, a OTAN foi criada com objetivo de permitir que os EUA passassem a dar garantias de segurança nuclear à Europa. O que significa isso? Significa que nem Inglaterra nem França tinham condições de prover a quantidade necessária de material enriquecido ou comissionar instalação da rede de mísseis balísticos no continente. Ou seja, se trata de dispor de material enriquecido, mas também de tecnologias de propulsão e navegação de projéteis lançados na estratosfera, aviões e submarinos. Ainda assim, mesmo que se disponha do pacote nuclear completo, são ainda necessários capacidade produtiva e vultosos recursos a serem imobilizados.

Nestes quesitos, apenas China e Rússia foram capazes de rivalizar com os EUA em escala global na segunda metade do século 20.

No entanto, conforme se pode perceber na Figura 1, os arsenais nucleares das duas principais potências têm sido majoritariamente descomissionados desde os anos 1990. Isso mostra o quanto a alternativa nuclear parece superada, no século 21, como resposta pronta e em larga escala em cenários de conflitos entre potências nucleares.

Na Figura 2 apresenta-se estimativa de arsenal nuclear mundial em janeiro de 2018. Apesar dos recentes investimentos da China, os arsenais norte-americano e russo contabilizam cerca de 92% do total mundial.

Dito isso, por que o programa de desenvolvimento de armas nucleares do Irã assusta tanto o mundo ocidental? Em princípio, apesar de continuada transferência de tecnologia da Rússia, o Irã não dispõe de meios econômicos para erguer arsenal que possa ser considerado ameaça global. No máximo, algumas poucas ogivas nucleares.

Ademais, dado que a Rússia é explicitamente aliada do regime persa, pouca diferença deveria fazer para o ocidente se as ogivas forem desenvolvidas localmente ou trazidas prontas da Rússia.

A resposta mais plausível é que, de fato, não importa muito para o balanço nuclear mundial se o Irã for mais um país com um par de ogivas para se defender. No entanto, muita diferença faz para o Estado de Israel, que não será mais capaz de impor unilateralmente seus interesses sobre os povos árabes. A manutenção da hegemonia nuclear de Israel no Oriente Médio parece justificar a urgência do deep state norte-americano em interromper o programa nuclear iraniano.

2.Armas biológicas e cibernéticas e a guerra entre potências nucleares

A partir dos anos 90 do século 20 duas tecnologias passaram a constituir o núcleo do desenvolvimento tecnológico com finalidade militar nos EUA. A primeira cibernética, a segunda biológica.

2.1.Armas cibernéticas

Ao final da Segunda Guerra, o instituto RAND defendia que, juntamente com arsenal nuclear, os EUA deveriam erguer uma rede de satélites global. Esta rede teria como objetivo monitorar lideranças e grupos e preparar, com inteligência, o enfraquecimento de ameaças futuras. Ou seja, para o RAND, os adversários não eram os países, mas grupos políticos não alinhados com a liderança norte-americana.

O sucesso do programa Arpanet e o consequente desenvolvimento de tecnologias de rede desde os anos 90 (www) permitiram aos EUA, juntamente com lançamentos de satélites, elevar a inteligência militar a patamares não imaginados no século 20. Da mesma maneira, a difusão de sistemas automatizados, principalmente na gestão da infraestrutura, potencializou a intervenção militar remota e de difícil detecção em instalações (ataques cibernéticos).

Na Figura 3 é possível se perceber que os EUA dispõem na atualidade da mais ampla rede de satélites artificiais em órbita na Terra. Nem China, nem Rússia, parecem rivalizar com os EUA.

Diante do argumento de que a China vem aumentando exponencialmente no século 21 gastos com defesa, na Figura 4 mostra-se a distância nos fluxos de recursos entre a China e os EUA neste quesito.

Ou seja, na melhor das hipóteses, os gastos militares chineses se equipararão aos praticados pelos EUA daqui a aproximadamente duas décadas, mantidos os ritmos atuais.

Em síntese, os EUA parecem dispor de meios tecnológicos para atingir a economia e a forma de vida de adversários de maneira invisível e anônima, de maneira progressivamente mais relevante para as economias nacionais. As tecnologias do ciberespaço possuem como virtude não destruir aquilo que se deseja conquistar. Adicionalmente, possuem grande capacidade de anonimato, não detecção, de tal maneira que o alvo não tenha meios de constatar a origem da ameaça para fins de retaliação.

No entanto, as armas cibernéticas não são desenhadas como finalísticas, ou seja, não possuem capacidade de tornar mínimo o cálculo de perdas humanas na invasão para ocupação do território adversário.

Neste quesito, indiscutivelmente, as armas biológicas ocupam a posição de topo.

2.2.Armas biológicas

O potencial destrutivo do arsenal norte-americano de armas no ciberespaço não se rivaliza com aquele que doenças podem causar sobre adversários.

A partir do início do século 21, a evolução de tecnologias de manipulação genética tem permitido a indústria farmacêutica ampliar espaço junto ao orçamento de defesa norte-americano. No novo século, as características de organismos patogênicos têm sido geneticamente modificadas de maneira a permitir seu emprego como arma. Armas seletivas, que podem ir desde a desmobilização até a morte de contingentes populacionais com bilhões de almas.

Muitos países concordam com a proibição de desenvolvimento de armas químicas ou biológicas. Não obstante, o governo dos EUA implantou rede de 25 laboratórios privados localizados na África e Eurásia (Figura 5), mantidos com a finalidade de pesquisa em segurança biológica, incluindo-se desenvolvimento de armas e de contra-medidas.

Como exemplo, nos laboratórios privados norte-americanos na Georgia mosquitos aedes aegypti vêm sendo modificados para “controle” da febre amarela (conforme previsto no US Entomological Warfare Program). Os mesmos mosquitos passaram recentemente a causar enfermidades na vizinha Rússia, onde nunca haviam sido avistados. Foi realizado levantamento e constatou-se que a Europa está imune, enquanto que a Rússia e a Turquia estão hoje expostas ao mosquito.

Da mesma maneira, nos anos recentes há registros de epidemias nas proximidades de laboratórios norte-americanos na Eurásia.

(i) 237 casos da Febre Hemorrágica Congo-Crimeia foram reportados nas imediações dos laboratórios dos EUA no Afeganistão em dezembro de 2017, 41 fatais;

(ii) em Kharkiv, Ucrânia, em janeiro de 2016 pelo menos 20 soldados ucranianos morreram do vírus da gripe em 48 horas, com mais 200 sendo hospitalizados nos dias subsequentes;

De maneira suspeita, Infecção por hepatite A se espalhou em poucos meses no sudeste da Ucrânia, onde está localizada a maioria dos biolabs do Pentágono:

(iii) Na região de Odessa, 19 crianças de um orfanato foram hospitalizadas por hepatite A em junho de 2017;

(iv) Cinco meses depois, 29 casos de hepatite A foram relatados em Carcóvia.

Em rápida busca na internet é possível se encontrar muitos outros casos na África e Eurásia, coincidentemente nas proximidades de algum dos laboratórios da rede coordenada pelo Pentágono.

Repare-se que, em termos relativos, o impacto em perdas populacionais decorrente de emprego de bioarmas excede em magnitude aquele provocado por ataque nuclear em larga escala. Outros dois argumentos favoráveis para apostas civilizatórias em armas biológicas são: (i) preserva-se o território que se deseja conquistar; (ii) não é nem rápida nem inteiramente conclusiva a identificação do agressor, o que dificulta ou atrasa contra-medidas militares; e (iii) mesmo no início da contaminação, induz-se desorganização social após crise nos sistemas de saúde.

Ou seja, a infraestrutura biomilitar norte-americana na Eurásia parece materializar as fronteiras a oeste do império norte-americano no início do século 21. A Eurásia, dotada de muitas ogivas nucleares, encontra-se vulnerável ao emprego de armas biológicas, ainda que a atenção se volte para as velhas e expansivas armas nucleares.

Em síntese, o império norte-americano no início do século 21 mostra vitalidade econômica para avançar em direção à Eurásia. Sobre as fronteiras externas, combinam-se emprego de inteligência e potencial uso de armas biológicas. No Oriente Médio, percebido como interno às fronteiras do império, prevalecerá o Estado policial coercitivo. Para isso, se expandirá, nos domínios já consolidados e nos próximos anos, monitoramento sobre indivíduos e grupos percebidos como ameaça potencial em todos os cantos do mundo “livre”.

Crédito da foto da página inicial: ANSA

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