Segundo o autor, a esperada terceira Revolução Industrial e Tecnológica, apesar dos inegáveis avanços, não vem sendo capaz de acrescentar blocos de investimentos e produção nova e adicional à estrutura produtiva existente e conformada desde o final do século 19.
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Brasil Debate

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Marcio Pochmann

É professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas

 
Marcio Pochmann

Futuro do capitalismo

A inovação tecnológica não tem sido suficiente para aumentar a capacidade de o capitalismo do século 21 produzir mais riqueza. O que se tem percebido é o estancamento geral do padrão de vida nos países ricos, quando não a regressão socioeconômica

27/02/2015

O sistema capitalista se mostrou, em geral, uma máquina fantástica de crescimento, geralmente associado ao impulso proporcionado por ondas de inovação tecnológica.

Originalmente, a primeira Revolução Industrial e Tecnológica surgida na segunda metade do século 18 permitiu que um país com menos de 20 milhões de habitantes, como a Inglaterra na época, se tornasse a oficina do mundo, desbancado regiões que eram até então o centro produtivo do planeta, como China e Índia, com quase 600 milhões de habitantes.

Basta dizer que até 1820, a maior parte da produção do mundo resultava da somatória das atividades econômicas desenvolvidas na China e Índia. O deslocamento do velho centro produtivo da economia mundial para a Europa possibilitou a Inglaterra exercer, como nunca, a função hegemônica por cerca de cem anos.

Na sequência, a segunda Revolução Industrial e Tecnológica no último quartel do século 19 permitiu emergir novas potências quase prontas para superar a Inglaterra, como os Estados Unidos e a Alemanha.

Somente duas guerras de dimensão mundial na primeira metade do século 20 resolveram e evidenciaram pela violência e barbárie a supremacia dos Estados Unidos como o condutor do novo centro do mundo capitalista.

Dentro desta mesma perspectiva analítica, ganhou importante expressão a identificação de que o capitalismo viveria uma terceira Revolução Industrial e Tecnológica desde os anos de 1960, sobretudo nas tecnologias de comunicação e informação.

É claro que se observam inegáveis avanços representados pelos novos materiais, como ligas metálicas, eletrônica, biotecnologia, engenharia genética, conquista espacial, entre outras áreas, porém insuficientes – até o momento – para acrescentar blocos de investimentos e produção nova e adicional à estrutura produtiva existente e conformada desde o final do século 19.

Tanto assim, que os países que mais contribuíram para propulsionar a marcha das inovações tecnológicas recentes, como Japão e Estados Unidos, não expressam ritmo de elevação da produção superior às demais nações.

Pelo contrário, especialmente desde a crise de 2008, estes mesmos dois países, adicionados pelas economias da União Europeia, convivem com baixo dinamismo da produção e o emprego de sua força de trabalho.

Acontece que as mudanças tecnológicas e informacionais, que modificam rápida e decididamente a linha da produção e o quotidiano das condições de vida em sociedade, acrescem ou complementam-se aos complexos produtivos constituídos tanto pela primeira como pela segunda revolução Industrial e tecnológica.

Ao mesmo tempo, os esforços de investimentos, determinantes para o salto tecnológico, parecem ter baixo poder de arrasto para o conjunto das economias.

Diante disso é que termina sobressaindo o questionamento acerca da capacidade de o capitalismo do início do século 21 produzir riqueza mais acentuada em função dos ganhos da inovação tecnológica.

O que se tem percebido, de maneira geral, tem sido o estancamento geral do padrão de vida nos países ricos durante os últimos trinta anos, quando não a regressão socioeconômica observada nos Estados Unidos e na União Europeia.

Ademais, cabe duvidar se o crescimento econômico poderá vir novamente dos países que constituem atualmente o centro do capitalismo mundial. Se a inovação tecnológica poderia estar pouco apoiando a sustentação de uma nova economia, o que se poderia dizer do acúmulo de velhos problemas, como os representados pela economia de alto carbono e seus efeitos ambientais, dos próprios custos da globalização neoliberal.

Atualmente eles se apresentam como verdadeiros obstáculos ao crescimento econômico e pelos quais as políticas neoliberais em predomínio no mundo praticamente não têm o que dizer.

Salvo a constatação de que a população não cabe na sua totalidade no modelo econômico projetado pelas políticas governamentais de corte neoliberal.

Mesmo que pouco se saiba a respeito do futuro do capitalismo, não se pode deixar de ressaltar que o seu êxito já esteja escrito. Pelo contrário, o que se nota, são sinais inegáveis de uma pane tecnológica envolvida aos velhos e novos problemas de produção e reprodução do capitalismo.

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7 respostas to “Futuro do capitalismo”

  1. Ferrnando Galvão disse:

    Vejo uma ótima análise no sistema, mas a curto prazo. Como escreveu Joaquim Aragão: uma nova virada interna ao capitalismo terá de vir à luz do dia. E terá de ser logo. Especialistas futurólogo, considerando a evolução de computadores inteligentes e a burótica, estimam que em 2030 teremos mais 30 % de desempregados alem dos já existentes e um numero ainda mais espetacular em 2050 : 80 %. Não tenho como imaginar um capitalismo nos moldes atual sobreviver num mundo sem empregados e obviamente sem consumidores.

  2. Anderson de Mattos Gomes disse:

    Boa tarde leitores. Acredito que o capitalismo é um sistema inevitável de existência a curto e longo prazo. Mas acontece que a sua qualidade em comum a todos está fragilizado. Penso em profundas mudanças na base do capitalismo; como para ele existir devemos ter mão de obra e investidor, resultando em bens de consumo e um mercado consumidor, neste último termina o ciclo e inicia outro de forma sucessiva e continua. Agora a situação trabalhista e salarial dos brasileiros está ligado diretamente ao fato de existir um emprego, mas acontece justamente aí que estar a trava do país. Como crescer sem riscos para o pequeno e o grande investidor? A lei protege o trabalhador, mas não garante nenhuma proteção ao investidor e agora? o investidor gosta de desafios e conquistas, mas ele gosta de confiança e paz; como ter um comercio com as leis trabalhistas e desafios inesperados e descontrolados neste sistema atual. Será que o livre relação de empregados e empregadores, sem a interferência do estado, mas protegido o acordo firmado entre ambos, seria um respiro para o crescimento do capitalismo brasileiro. Empresas grandes como Petrobrás, podem honrar os seus compromissos trabalhistas, mas e os pequenos investidores e a mão de obra parada, muitas com qualidade e sem qualidade, o que fazer? E o grande acúmulo de capital com poucos?

  3. William disse:

    Ressalto, caro Marcio, que um dos efeitos ultimamente observado no capitalismo diz respeito a alta concentração de riqueza nas mãos de poucos. Menos de uma centena.

  4. […] outras. Qualquer situação diferente disso, no nosso sistema capitalista atual (que eu considero ultrapassado e injusto, mas é o que temos por enquanto), seria um […]

  5. […] outras. Qualquer situação diferente disso, no nosso sistema capitalista atual (que eu considero ultrapassado e injusto, mas é o que temos por enquanto), seria um […]

  6. Joaquim Aragão disse:

    Estamos em uma situação clássica onde o nível de desenvolvimento das forças produtivas se rebelam com as relações de produção (o fantasma do Karl Marx não deixa de atormentar). Não acredito de que os sinos dobraram para o capitalismo (embora não seja amante desse sistema), e que, sim, uma nova virada interna ao capitalismo terá de vir à luz do dia.

    Da mesma forma que a crise de trinta gerou historicamente o Estado do Bem-Estar e, no aspecto teórico, a Macroeconomia, nos encontramos em um momento onde os paradigmas políticos e teóricos dos Séculos XIX e XX esgotaram sua capacidade prática. A informática e o concatenamento globalizado e territorializado da produção, além de diversas inovações organizacionais da produção em APLs, cadeias de valor e redes de atores, reclamam por uma inovação institucional e teórica.

    E da mesma forma que as soluções práticas e teóricas já estavam à disposição, mesmo que de forma embrionária, uma olhada na realidade atual nos permite apontar para a solução da atual crise política e teórica. Na verdade, a saída para a atual crise do capitalismo requer uma reorganização completa do capital, superando fragmentações promovidas pelo neoliberalismo, que veio substituir por algum tempo a camisa de força sistêmica que o Estado de Bem-Estar tinha gerado ao longo de suas décadas de sucesso (grandes conglomerados em uma única empresa; a intervenção ubíqua do Estado na economia); essa superação do Estado de Bem-Estar promoveu então, novos espaços de liberdade que gerou um dinamismo frenético por quase três décadas, por meio de políticas de desestatização e desregulamentação. Mas que, no final das contas, encontra-se hoje esgotado.

    O que a realidade mostra é a importância da construção de sistemas produtivos integrados (mas em redes de empresas ao invés de em uma única empresa só), organizando territórios produtivos, mas relacionados com as cadeias globais.

    Nesse contexto, teríamos também uma nova abordagem do Estado, superando o Estado máximo-provedor e o Estado mínimo-regulador. No seu lugar teríamos o Estado orquestrador-facilitador, que incentivaria pelos diversos meios (correntes e por criar) da política econômica e de regulação a cooperação interempresarial territorializada, concatenada nas cadeias globais de valor.

    No plano teórico, temos de dar a luz ao bebê já crescido no ventre dos acontecimentos e do desenvolvimento teórico, que é a MESOECONOMIA. Esse termo já é utilizado mesmo que ainda de forma embrionária, e essa nova disciplina teria por escopo entender as leis que regem o comportamento dos sistemas produtivos integrados e de seus mercados globais e regionais, sistemas esses que concatenam cadeias inteiras de atividades econômicas.

    Os conceitos de cadeia de valor, análise insumo-produto, economia institucional, custos de transação, Teoria dos Jogos, entre outros, que estão perdidos nos espaços entre o micro e o macro, já servem de germes de um novo bloco teórico a se consolidar e que deverá dar novas orientações para a política econômica.

    Enquanto isso, sobretudo em nossos desertos intelectuais, continuamos a assistir a luta de gladiadores entre keynesianistas e monetaristas, entre socialistas e liberais, programa esse já tão cansativo e insosso quanto as inúmeras repetições do BBB…

  7. José Salles disse:

    Oportuna e correta análise.Parabéns.Queria comentar, em paralelo, não cabendo no texto, que a terceira revolução industrial, surpreendeu e ultrapassou, em muito, o “socialismo real” que vinha bem no pós guerra, inclusive tecnologicamente, colocando o primeiro satélite artificial e o tripulado.

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