O ‘deep state’ norte-americano tem novos planos para o Brasil, dentro da estratégia de se contrapor à ascensão chinesa.
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Brasil Debate

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Marco Aurélio Cabral Pinto

É professor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense, mestre em administração de empresas pelo COPPEAD/UFRJ, doutor em economia pelo IE/UFRJ. Engenheiro no BNDES e Conselheiro na central sindical CNTU. É colunista do Brasil Debate

 
Marco Aurélio Cabral Pinto

Em ano de eleição nos EUA, ‘colônia brasileira’ colhe instabilidade política, sem retomar economia

Há interesse norte-americano em alavancar empresas e empregos em infraestrutura e indústria no Brasil, de forma a deslocar para territórios seguros cadeias de fornecedores hoje localizados na China. Porém, disputas políticas criam obstáculos

07/05/2020

Passados cinco anos após a interrupção do projeto brasileiro de desenvolvimento, torna-se mais ou menos evidente o “novo projeto” esperado pelo deep state[1] norte-americano para o Brasil.

Trata-se de atrair investimentos privados estrangeiros para alavancar empresas/empregos em infraestrutura e indústria, nesta sequência. Ou seja, desde que o Governo organize projetos de logística e energia para barateamento de produtos nos portos de origem para o estrangeiro, desde que os salários sejam menos custosos que os encontrados na China, a indústria florescerá. Ao menos aquela baseada na agropecuária, com impulsos na mineração e na indústria de transformação por via de substituição de importações. É possível mesmo se decifrar um “convite” dos EUA para que o Brasil substitua, em futuro próximo, fornecedores norte-americanos na China.

No presente trabalho, parte-se da premissa de que este “convite” corresponde à necessidade percebida pelos EUA de deslocar para territórios seguros longos segmentos das cadeias de fornecedores industriais hoje localizadas na China. Esta necessidade se impõe com urgência face ao impulso acelerado da China em direção ao topo da hierarquia do sistema internacional.

Esta ascensão acelerada deixa aos EUA poucas opções estratégicas que iniciar ataques pontuais com emprego de novas armas (propaganda, bioarmas, cyberataques etc.), ainda que com desfecho imprevisível. As ações pontuais militares têm se somado ao enfrentamento de mais longo prazo, industrial, tecnológico e financeiro, constituindo-se a conjuntura como ambiente de pré-guerra.

De acordo com esta premissa, a descoberta do óleo no Brasil parece ter sido a chave para a especificação, pelo establishment norte-americano, do papel da grande colônia em uma nova dinâmica induzida pelos EUA – a dinâmica da guerra.

Não obstante, a tão esperada chegada do abundante capital estrangeiro para infraestrutura não se concretizou até o presente momento. O fracasso relativo dos leilões de petróleo e a devolução das concessões já licitadas têm mostrado que aumentos na incerteza têm afugentado os investidores financeiros de “primeira onda”.

Ou seja, em nada compensará o sacrifício incorrido pelos brasileiros se os projetos de infraestrutura não forem realizados em fluxo crescente. Sem isso, nos termos propostos, a atividade econômica será estagflacionária. Ou seja, considerando-se que a missão de ampliar a malha de infraestrutura no Brasil é do Exército, eventual fracasso do “novo projeto” recairá inevitavelmente sobre os ombros desta instituição.

Tratando-se de projetos de longo prazo e com elevada imobilização de capital, a infraestrutura necessita, mais que outros investimentos, de confiança sobre os riscos de construção, comerciais, financeiros e, políticos, de que as regras regulatórias, os fluxos financeiros e os contratos sejam mantidos.

Ocorre que, se a estratégia de investimentos em infraestrutura depende fortemente da estabilidade, por que os Governos Trump e Bolzonaro insistem em criar, muitas vezes “desnecessariamente”, lá e aqui, ambiente de permanente incerteza política?

A hipótese que se pretende discutir é que a elevada polarização política nos EUA desde 2015 decorre de disputa entre as elites dos complexos financeiro-midiático-jurídico (democratas) e industrial-militar-tecnológico (republicanos) quanto aos rumos do enfrentamento pelos EUA do expansionismo chinês no período 2021-2024.

De acordo com a mesma hipótese, este embate contaminará a vida política e econômica na neocolônia brasileira no ano de 2020, ano de eleição nos EUA. Este embate se manifestará como investida do complexo financeiro-midiático-jurídico sobre os representantes do complexo industrial-militar-tecnológico dos EUA no Brasil.

Conclui-se que o embate político ao longo de 2020 adiará até o próximo ano as possibilidades brasileiras de atrair capital estrangeiro para infraestrutura, o que contribuirá para se aumentar o conflito federativo e, principalmente, elevar a desigualdade a níveis comparáveis com países subsaarianos.

Este parece ser o preço a pagar, pelo Brasil neocolonial, para seguir nas mesmas fileiras de um núcleo muito pequeno de nações a ostentar a flâmula da decadência ocidental.

1. A natureza da instabilidade política nos EUA entre 2009 e 2020

O reality show do 11 de setembro de 2001 desencadeou uma onda histórica que se propaga até a atualidade, na qual os EUA tornaram-se indiscutivelmente hegemônicos militar e tecnologicamente perante as demais potências. Alcançou-se em menos de duas décadas supremacia em espionagem (digitech e telecom) e ataques silenciosos e anônimos (biotech, cybersecurity), inaugurando-se uma nova fase do enfrentamento entre potências.

Nesta, não haveria Estados Nacionais inimigos, os inimigos seriam sempre grupos que controlam esses Estados Nacionais. E os EUA, defendendo-se os valores judaico-cristãos, livrariam as sociedades territoriais “rebeldes” de seus tiranos.

Ocorre que o impulso industrializante chinês, apesar de atrasado cerca de século e meio, conta com mercado bilionário de consumidores potenciais. Reserva estratégica suficiente para se garantir o escoamento da produção em setores industriais-chave para o desenvolvimento tecnológico durante décadas de crescimento acelerado.

Em acordo com projeto nacional expansionista implementado desde 2003, a China não dividiu seu mercado com o Ocidente sem contrapartidas de plena transferência tecnológica. Tampouco permitiu a dolarização dos ativos chineses. Com isso, desde 2009/10, quando a China saiu fortalecida da crise financeira, se estabeleceram dentro do deep state norte-americano divergências crescentes quanto aos rumos do enfrentamento.

A estratégia de “invasão via mercados” se provou bem-sucedida ao deter as ameaças expansionistas da URSS (1989) e do Japão (1990). No entanto, entre 2009 e 2016 (Obama), tornou-se progressivamente mais claro que esta estratégia não seria vitoriosa contra o impulso industrial-tecnológico-financeiro chinês. Seria necessário se reverem as relações em direção ao enfrentamento militar.

Portador da “estratégia dos mercados”, o complexo financeiro-midiático-jurídico foi derrotado nas urnas em 2016 pelo representante do complexo industrial-militar-tecnológico – D. Trump I. O primeiro mandato de D. Trump vai ser lembrado como período de preparação para inevitável enfrentamento militar com a, cada vez mais evidente, coalizão sino-russa.

Neste contexto se encaixa a ocorrência da pandemia de Covid-19 – como episódio em 2020, ano eleitoral norte-americano. Ano em que novamente o complexo financeiro-midiático-jurídico será portador de forças pacifistas diante de teses de enfrentamento “duro” pelo complexo industrial-tecnológico-militar. Ano em que se engavetou processo de impedimento, patrocinado pelo complexo financeiro-midiático-jurídico contra o presidente eleito. Ano em que a pandemia parece ter iniciado, em termos práticos e antecipadamente, respostas em linha com esforço de guerra em todo o mundo.

2.A disputa entre as facções do Golpe que destruiu o Brasil

Passados cinco anos, a “Operação Lava-Jato” começa a encontrar seu lugar na história. Do ponto de vista externo, são notórias as ligações entre a Procuradoria e a Polícia Federal em Curitiba com órgãos de Estado dos EUA. Não apenas treinamento, mas orientação e licenciamento de uso de programas de computador capazes de invadir a privacidade na margem do que é permitido legalmente no Brasil e nos EUA. A participação direta do Departamento de Justiça dos EUA se deu em mais de uma ocasião e a coordenação com a mídia conservadora gerou elementos de pressão sobre as altas cortes brasileiras.

Nos anos de 2014/15, sob a gestão B. Obama, os instrumentos utilizados para destruir o projeto brasileiro de desenvolvimento em curso foram aqueles ao alcance dos interesses financeiros-midiáticos-jurídicos. Nem a mídia corporativa, nem o conservador sistema jurídico escaparam de explicitar a razão de existência tão robusta e próspera em país de miseráveis – a de servir permanentemente ao interesse dos dominadores.

Ocorre que em 2016, contrariando-se os esforços da mídia corporativa globalizada, foi eleito representante das indústrias do petróleo e das armas. Foi eleito com discurso protecionista, armamentista, preconceituoso e reativo ao meio ambiente. Todas teses caras à liberal democracia dos “mercados”.

D. Trump não recebeu M. Temer em momento algum no exercício da Presidência no biênio 2017 e 2018, o que demonstra o afastamento entre o dispositivo que prevaleceu na primeira fase da intervenção norte-americana no Brasil e o novo Governo nos EUA.

A eleição de J. Bolzonaro levou ao poder no Brasil configuração bastante semelhante de forças que, nos EUA, deram apoio a D. Trump. Pequenos negociantes, evangélicos e militares. O enfrentamento com os remanescentes da “esquerda desenvolvimentista” brasileira mudou de patamar, passando-se à intimidação direta. O Governo Trump atua no Brasil de maneira que nunca mais seja possível, aos brasileiros, ousar implementar novamente um projeto autônomo de desenvolvimento (Ciência e Tecnologia, BNDES, Universidades, Itamarati, etc).

Ao tentar compor com o ex-juiz Moro, Bolzonaro escolheu o caminho mais fácil de preservar a “estabilidade” política para que os investimentos privados (infraestrutura e privatização) avançassem.

Com base neste histórico, não é difícil se compreender porque em 2020 os dois dispositivos políticos adotados pelos EUA, em momentos diferentes, entram agora em conflito no Brasil. Em ano de polarização eleitoral nos EUA, os interesses financeiros-midiáticos e jurídicos passaram a empregar, contra o preposto de D. Trump no Brasil, as mesmas armas que utilizaram com razoável sucesso contra os brasileiros em 2015 – a narrativa de combate à corrupção com ameaças de impedimento.

Por outro lado, a falta de estabilidade política em 2020 será agravante para o definhamento da atividade econômica brasileira, podendo-se gerar pressões por mudanças na condução da política econômica, incluindo-se aumento na importância de planejamento e gastos públicos nos Estados e Municípios.

Ocorre que, assim como D. Trump evitou investidas políticas comparáveis nos EUA, o Governo Bolzonaro irá formar fileiras com as oligarquias brasileiras na defesa de seu mandato. E muito provavelmente sairá vencedor, assim com D. Trump na contenda eleitoral nos EUA este ano. Desfecho necessário para que avance o confronto mundial.

Crédito da foto da página inicial: Carlos Barria/Reuters/Agência Brasil


[1] Domínio de consensos entre as elites dos complexos industrial-militar-tecnológico e financeiro-midiático-jurídico.

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