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Editorial do site.

 

Eduardo Giannetti e a intolerância de um liberal

A caricatura geralmente feita dos economistas da Unicamp, como as afirmações do porta-voz econômico da candidatura do PSB, Eduardo Giannetti, revela uma vontade de reinar sozinho em um debate em que só há uma alternativa: a do liberalismo econômico

Em evento organizado na última segunda-feira pela consultoria Empiricus (que vem se notabilizando pelo pessimismo militante e previsões sobre o “fim do Brasil”), o porta-voz econômico da candidatura do PSB afirmou: “A Unicamp é um produto típico do regime militar”. O professor Eduardo Giannetti é um intelectual sofisticado, filósofo e economista, assumidamente um liberal – que a princípio defende e respeita a pluralidade de pontos de vista. Nesse episódio, esteve mais próximo de gente bem menos refinada, como o blogueiro Rodrigo Constantino.

De acordo com o relato da Rede Brasil Atual, quando questionado sobre a formação dos economistas do governo, suas palavras foram: “O regime militar é culpado disso (…) um grupo que se fecha religiosamente em torno de um pensamento desconectado do mundo”.

Indo além, sacou da cartola um suposto seminário “em 1978” em que Celso Furtado teria sido desqualificado em Campinas, com suas ideias consideradas “de interesse da ‘burguesia’, enquanto a preocupação dos presentes ao encontro seria‘a luta de classes, o imperialismo’”. Como cereja do bolo, teria afirmado que “o bolchevismo não aparece em países democráticos”.

Salvo algum engano do repórter, lamentamos o tom e os termos. Mas antes de tudo não conseguimos compreender o raciocínio do especialista em ideias econômicas. A desqualificação que procura obstruir o debate vem baseada em desconhecimento da instituição que critica de forma rasteira.

Celso Furtado foi o ponto de partida das reflexões originais dos fundadores do instituto, é Doutor Honoris Causa por esta instituição e parece pouco provável que suas ideias tenham algum dia sido contestadas aqui com este nível de argumento. Nem por este lado. A propósito, falar em “bolchevismo” e recorrer a este suposto episódio levanta a dúvida sobre quem está de fato com a cabeça em décadas passadas.

A Unicamp foi um dos centros que aglutinou o pensamento crítico brasileiro durante o período militar. Assim como outros economistas hoje no campo liberal – como Edmar Bacha e Pedro Malan, por exemplo – seus professores discutiram rigorosamente o significado das opções econômicas da ditadura e denunciaram seu caráter excludente. Ao contrário de “fechamento”, o que marcou a instituição naquele período de pouca abertura para a contestação foi sempre a busca do debate público, a explicação da realidade brasileira e de seus problemas reais. E assim se manteve ao longo das décadas seguintes, em vários outros temas.

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Se o conteúdo destas explicações hoje desagrada a quem não participou daquele debate, é outro problema. Discordamos de Giannetti e do discurso do “Estado que não cabe no PIB”, da privatização dos bancos públicos e da redução dos gastos sociais. Mas jamais vincularíamos suas ideias à falta de inteligência ou a motivações religiosas. Muito pelo contrário, são claros os interesses econômicos e financeiros a sustentar tais posicionamentos.

Além disso, a pluralidade política dos economistas da Unicamp desautoriza qualquer generalização ou associação direta. No instituto estudou a presidenta da República, mas também quadros que serviram a outros governos antes de 2003. São professores da casa o atual presidente do BNDES e o ministro da Casa Civil, mas também tiveram grande importância em sua história José Serra e Paulo Renato Costa Souza.

Do ponto de vista teórico, o curso de Economia, conhecido por apresentar Marx e Keynes a seus alunos, também estuda obviamente Hayek, Friedman e seus discípulos mais recentes. A existência de um eixo teórico que organiza o curso não significa bloqueio ou desconhecimento de outras abordagens.

Quem faz isso, aliás, é a maioria das escolas convencionais de economia, em atitude muito questionada nos últimos tempos. Se estar “conectado” significa este tipo de postura, agradecemos mas rejeitamos o conselho.

No final das contas, a caricatura geralmente feita dos economistas da Unicamp revela uma vontade de reinar sozinho em um debate onde só há uma alternativa, a do liberalismo econômico. E que todos que pensem diferentes sejam desqualificados. A “nova política”, no caso específico da política econômica, tem como ingrediente principal um velho conhecido: o Estado Mínimo.

Luiz Gonzaga Belluzzo
Ricardo de Medeiros Carneiro
André Biancarelli
Pedro Rossi

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22 respostas to “Eduardo Giannetti e a intolerância de um liberal”

  1. Fernando Cavalcanti disse:

    Quando alguém assassina a gramática para puxar o saco da presidente chamando-a de “presidenta”, eu interrompo a leitura imediatamente. Porque subitamente sou tomado pela constatação de que não estou diante de alguém sério, mas de um sujeito, ou sujeitos, que vendeu a alma ao PT e a seu projeto retrógrado e empobrecedor, feito de corrupção e muita demagogia. Se esses economistas continuam puxando o saco da “presidanta” mesmo em face dos reiterados fracassos de suas políticas, que levaram o país à pior crise de sua história, como crer que tenham alguma gota de honestidade intelectual para criticar quem quer que seja?

  2. Francisco A.Pagotto disse:

    O que seria desta geração se não tivesse havido o golpe militar, pois tudo é culpa deles, tenhamos ombridade e assumam nossas deficiencias e culpa….

  3. Maria fátima disse:

    Mesmo não entendendo sobre o núcleo da economia, vejo absurdos sendo vinculados pelo meios de comunicação, principalmente pelos os chamados comentaristas econômicos, portanto essa discussão esses artigo muito me interessou. Parabéns a todos inclusive aos comentários me antecede. Esse debate me parece primordial nesta atual conjuntura.

  4. David Nascimento disse:

    Que texto lindo! <3

  5. Eron Sanches Ruivo disse:

    Temo apenas a Deus, não ao liberalismo econômico. Eu, destituído que dou
    dessa enjoativa sapiência dogmática, desse economes vaidoso e cansativo,
    não temo ser comparado, classificado e, por fim, premiado ou prejudicado pela
    competência – ou por seu antônimo. Não vejo problema algum na interferência
    mínima do estado, ou na não interferência. Se carrego na pele o histórico perverso da escravatura, se nasci em berço desfavorável, se tendo a reproduzir
    o mesmo filminho de horror da pobreza e das mazelas de meus pais e avós, o que me custaria arregaçar as mangas e ir a luta? Invejo com todos os parâmetros aqueles países que, exatamente por terem abraçado o liberalismo econômico, tornaram-se potências em campos dos mais insuspeitos. Meu complexo de vira-lata não e sem razão.

  6. […] de Medeiros Carneiro, André Biancarelli e Pedro Rossi) escreveram um texto no site Brasil Debate, respondendo ao economista e filósofo, Eduardo Gianetti, atual assessor econômico da candidata à […]

  7. Cristina Reis disse:

    Excelente resposta. a intolerância de um liberal precisa ser criticada, bem como a sua suposta e falsa neutralidade.

  8. […] economistas Luiz Gonzaga Belluzzo, Ricardo de Medeiros Carneiro, André Biancarelli e Pedro Rossi escreveram um artigo no site Brasil Debate em que lamentam “os termos e o tom” empregados por Giannetti. “(…) antes de tudo não […]

  9. […] Luiz Gonzaga Belluzzo , Ricardo de Medeiros Carneiro, André Biancarelli e Pedro Rossi, em Brasil Debate Em evento organizado na última segunda-feira pela consultoria Empiricus (que vem se notabilizando […]

  10. Joelson Gonçalves de Carvalho disse:

    Transformar a economia na ciência do pensamento único (parafraseando Arantes, Vainer e Maricato) tem sido a pauta constante de um grupo no qual estão se aglutinando liberais-conservadores e conservadores-liberais. Por sorte, nosso mainstream econômico é mais moda do que domínio e o ataque sistemático à Unicamp tem demostrando quem, na verdade, está em posição de recuo.

  11. jane dutra sayd disse:

    excelente resposta a da unicamp. Agora, se é para lembrar da ditadura, me lembro: Beluzzo era uma das poucas vozes no Brasil que, a partir do DIEESE, fazia critica à imunda, vampira e assassina politica economica da ditadura que sangrava e vampirizava nossa população.

  12. Jorge Coloneze disse:

    Em um país ainda com grandes desigualdades, o Estado precisa ser forte e interventor, com o objetivo de minimizar o absurdo da lógica capitalista, já que não temos como nos livrar dela. Para um Estado forte, a carga tributária será, consequentemente, alta. O que precisamos é melhorar bastante a qualidade dos serviços públicos, que virá com a qualidade da gestão pública. O papel de cidadão é fundamental nesse processo, participando dos foros de debate já existentes no interior do Estado e dos movimentos de pressão social.

  13. Rogério Maestri disse:

    Desculpem-me, caros colegas acadêmicos, mas o discurso de vocês que deveria acompanhar tendências da academia no mundo todo fica restrito aos economistas de São Paulo e principalmente a Unicamp.
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    O que se passa atualmente em todo o mundo é uma expansão dos PHD’s e pesquisadores com a perda do que se denominava no passado cientistas ou sábios. Se não for levado em conta a tendência internacional da academia toda esta bela carta fica mais parecida com um chororô do que uma discussão de membros notórios da Academia Brasileira.
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    Nos últimos cinquenta anos o número de doutores aumentou em todo mundo, tanto nos países da OCDE como nos países periféricos, o título que era buscado mais por diletantismo do que qualquer coisa e era conferido com algum critério, passou não só em terras tupiniquins, mas como em todos os países, como uma forma de melhorar os salários e conseguir acesso aos pontos mais altos da academia internacional e recursos para financiamentos.
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    Com este aumento causado por motivos lá tão nobres, vemos nos dias atuais o mundo ser invadido por doutores e especialistas em NADA. Se deixou de lado exatamente o que quer dizer um Ph.D. (philosophiae doctor ou doctor philosophiae) ou seja um doutor em filosofia! Trocou-se a noção de alguém que deveria pelo menos conhecer a parte filosófica do seu assunto, por alguém especializado em extremo em um pequeno item.
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    Estes novos doutores, esquecem-se da história de suas especialidades, criando a cultura da citação de “papers” novos e recentes. Se alguém vai escrever uma tese em qualquer ramo da ciência o que é importante é conhecer o que foi escrito nos últimos cinco anos, artigos ou livros que tem mais de dez anos são considerados ultrapassados e se são citados são citações do tipo “apud”, ou seja, a boa e proveitosa leitura dos bons trabalhos do passado, são substituídas por citações das citações, e se já em minha área técnica (engenharia de recursos hídricos) isto leva a erros homéricos devido a interpretação fragmentada e errada perdendo-se a memória dos erros e acertos do passado, imaginem o que ocorre em áreas de ciências brandas (uma divisão dicotômica e capciosa).
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    Dentro deste horizonte internacional que a maior parte dos nossos programas de formação de mestres e doutores foram criados durante uma época em que motivos diletantes foram substituídos por motivos meramente de melhora salarial com o agravante de serem criados num ambiente de falta de discussão acadêmica ampla e politizada. Se nas áreas “duras”, que aparentemente não sofreriam a influência desta falta de discussão política, a criação de pesquisadores e Ph.D.s não acostumados a um ambiente com discussão forjou, o que digo com certeza, o ambiente mais antidemocrático que temos na nossa sociedade, o ambiente acadêmico. Trocou-se simplesmente uma visão de privilégios da aristocracia pelos privilégios da “meritocracia”, como se ela existisse!
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    Parece uma contradição, na Universidade dever-se-ia discutir tudo, porém nesta mesma academia são forjados núcleos de pensamento único. É extremamente interessante ler que o economista fulano de tal foi formado na Unicamp, ou na FGV ou ainda na PUC-Rio, funciona como uma marca indelével, a marca do pensamento único.
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    Não que da Unicamp, a FGV ou a PUC-Rio ou outras escolas de economia brasileiras tenham surgido linhas de pensamentos econômicos novos ou mesmo dado ao país um ou mais prêmio Nobel em Economia, a citação das escolas “clássicas” no Brasil indicam um atrelamento a uma ou outra Escola de economia internacional.
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    Não criando novas linhas de pensamento econômico, ficam os adeptos dessas escolas e não Escolas, atrelados a pensamentos importados e abdicam de propostas criativas no estudo da Economia.
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    Caros senhores, antes de olharem o seu próprio umbigo e considerarem como este o centro do mundo, era melhor refletir no verdadeiro significado da academia nos dias atuais e contextualizá-lo dentro de algo bem maior, aí entenderiam que tanto Eduardo Giannetti, como outros são fruto de uma academia empobrecida de ambientes de discussão mais ampla e do carreirismo da mesma.
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    • Chico disse:

      Minha alma foi lavada!

    • Maestri disse:

      Maestri, você está coberto de razão. O pior é que o mesmo está acontecendo na área de ciências exatas. Na Matemática e na Física, estamos atrelados a pensamentos importados e abdicamos de criar ciências genuinamente brasileiras como a Matemática Curupira e a Física Saci-Pererê.

    • Rodolfo disse:

      Caro Maestri, o recorte feito pela carta não se encaixa nessa sua extrapolação. Dentro de qualquer universidade, em maior ou menor grau, há sempre discussões auto-críticas e ações a respeito, para melhor ou pior, em maior ou menor ritmo. O recorte todo da carta foi defender a instituição naquilo que ela não é. E não de fazê-la irretocável, pronta e acabada. Deixando de lado o conteúdo da carta no recorte dela e olhando o teu depoimento pela reflexão sobre o “verdadeiro significado da academia nos dias atuais e contextualizá-lo dentro de algo bem maior”, acho muito pertinente em todas as áreas.

      Lamento somente que a carta não mencionou que a Unicamp foi a única paulista que deu guarida a alunos do ITA perseguidos pela ditadura. Aproveito para deixar o convite para participarem da comissão da Verdade “Octávio Ianni” que acontece na Unicamp resgatando e institucionalizando a memória desse tempo funesto. O Gianetti é convidado de honra.

    • Márcio Antônio Rezende disse:

      Eu vi esse fenômeno na ECA. Inclusive ocorreu em um trabalho em grupo, onde deveríamos apresentar a leitura de um texto e um dos componentes dominou o grupo para apenas expor um resumo seco e sem discussão. É o uso da técnica pela mera formalidade. Não há de se questionar, de impor outros pontos de vista, de se desenvolver o pesamento no horizonte. Não nada disso, o importante é encontrar uma resposta válida referenciada e manter em funcionamento esse sistema.

    • Daniel Santos Nazareth disse:

      Muito feliz suas considerações Roberto de forma simples nos convida à reflexão e claro fazer aos que tiveram a possibilidade de dedicar ao estudo…(Mestrados, PHD, Pós Doc…etc) que retribuam com reflexões com a devida humildade pois tanto saber aumenta a superfície de contato com o que está por vir…

  14. Aristides Julião Júnior disse:

    Resposta digna a Giannetti e outros liberais, que gostam de ser liberais “da porta pra fora”. No mais, são autoritários e intolerantes, saudosos da via única do liberalismo econômico, a cada dia mais incapaz de dar as respostas que o complexo mundo moderno impõe. Excepcional a carta-resposta da UNICAMP.

  15. Oneide teixeira disse:

    “em como ingrediente principal um velho conhecido: o Estado Mínimo.”
    E quando o estado brasileiro recuou?
    Quando ele gastou menos do que o ano anterior?
    Quando ele reduziu a carga tributária?
    Quando se reduziu a sua interferência na vida do cidadão?
    Nunca!.
    Então não é um ingrediente velho ele nunca foi aberto da lata, ta lá no armário lacrado.
    O pensamento dominante e o estatismo com maior ou menor grau.

  16. Sérgio Paulo Teixeira Pombo disse:

    O economista é fundamental, também, para quem escreve a História. Muitos dos economistas de hoje terão a presença barrada como testemunhas do período atual. O vinculo que essa gente tem com partidos, parte no meio seus raciocínios. Lamentável. A análise feita pelos senhores é um contribuição que se tornou necessária.

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