Brasil Debate

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Wolfgang Leo Maar

É professor de Filosofia Política da Universidade Federal de São Carlos e pesquisador do CENEDIC/USP

 
Wolfgang Leo Maar

Duas políticas para a universidade pública

Com FHC, a educação deixou de ser um fim estruturante para se tornar subordinada à política econômica e à sua lógica. O governo do PT, entre outras coisas, recuperou salários, aumentou o quadro de pessoal, criou mais de 70 mil bolsas de graduação para estudantes no exterior, 850 mil bolsas de graduação pelo Prouni, fez o Reuni, e a produção científica nas federais quadruplicou em relação a 2002

O importante é desconfiar sempre e nunca perder de vista a realidade concreta particular, como sempre insistia o autor de O Capital.

A manipulação pela grande imprensa procura fixar opiniões gerais nos leitores, ouvintes e espectadores, sem qualquer comprovação ou base concreta específica. Por isso ocorre o contraste verificado nas opiniões, tão logo se questiona uma situação concreta e determinada. O exemplo clássico é o já muito citado caso do contraste entre respostas a questões do tipo “Como vai o País?” e “Como vai a sua vida?”.

Muito já foi divulgado acerca da diferença entre as políticas para o ensino superior do governo tucano e do governo petista. Este mesmo espaço do Brasil Debate já ofereceu excelentes contribuições, mostrando os inegáveis avanços nos últimos 12 anos.

Aproveito para acrescentar minha experiência pessoal concreta e específica neste caso.

Durante um período do governo do PSDB e durante um bom tempo do governo do PT, fui membro do Conselho Universitário da Universidade Federal de São Carlos. Pude assim acompanhar de perto a situação da instituição.

O governo tucano foi marcado por oito anos no Ministério da Educação pela figura de Paulo Renato Souza (professor da Unicamp) de triste memória. Ele se dedicou a seguir à risca o nefasto receituário da reforma universitária pautada pelo Banco Mundial a partir de Washington: estímulo à privatização do ensino superior e abandono do sistema público.

Com FHC, a educação deixou de ser um fim estruturante: a política educacional foi inteiramente subordinada à política econômica e à sua lógica.

O resultado foi uma universidade de joelhos, como não ocorreu sequer na ditadura. Expansão zero do sistema federal de ensino superior. Houve arrocho salarial (muitos anos de reajuste zero: entre 1995 e 2002 houve uma perda de valor real de 38% nos salários) e o congelamento do valor das bolsas de estudo.

Ocorreu a contenção no quadro de docentes e servidores (praticamente nenhum contrato novo e nenhuma substituição de aposentados) com a criação do precário quadro do “professor substituto”, uma espécie de “horista” federal.

Prevaleceu o tratamento a pão e água no custeio e no investimento das instituições (no final do ano, o Conselho Universitário suava para conseguir contemplar as contas atrasadas de luz, água e telefone). Recursos para aquisição de livros? Bolsas para alunos? Alojamento estudantil? Equipamentos de laboratório?

A política de desenvolvimento dependente e subordinada seguida nos anos FHC (professor da USP) colocou em segundo plano a pesquisa no País: o que era importante viria de fora, dizia-se.

As universidades federais deveriam parar de se dedicar à investigação científica, com poucas exceções. Isso demonstra como é uma farsa a pretensa política tucana de seguir padrões de competência e mérito! E o ensino? Bem, conforme disse FHC, só “vira professor o coitado que não consegue fazer pesquisa”…

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Obviamente, tal penúria não combinava com diálogo com as universidades. Exigia-se mão de ferro. Um reitor da época relatou o único encontro que o ministro teve com os dirigentes federais, logo no início de sua gestão: mandou retirar todas as cadeiras de uma sala de reuniões com exceção da sua própria, obrigando os reitores a ouvirem de pé seu longo discurso, após o que se retirou de imediato e deixou um auxiliar para responder eventuais perguntas.

Para completar sua política contra as universidades federais, nos últimos meses do governo o ministro apressou-se em facilitar a abertura à privatização da educação: liberou a criação de 149 instituições e 821 cursos de ensino superior privado.

Foi o maior crescimento sem qualquer critério de mérito (novamente a farsa do discurso tucano da competência!) de faculdades e universidades com fins lucrativos já registrado em nossa história, fortalecendo de modo inédito o lobby das mesmas.

Que diferença com o governo de um operário sem formação acadêmica, que logo ao assumir convocou todos os reitores das instituições federais a Brasília para um contato direto e cordial…

Durante o governo do PT, houve uma importante mudança na relação com a comunidade universitária, que se envolveu diretamente na expansão do sistema. Houve uma recuperação salarial para docentes e servidores, bem como o aumento significativo do quadro de pessoal: de menos de 50 mil em 2002 passaram a mais de 75 mil em 2013. Hoje os salários recuperaram o nível real de 1995, embora ainda muito aquém do necessário.

Ainda não é uma maravilha, mas houve uma grande expansão com o programa Reuni, com 18 novas universidades, das quais 4 no governo Dilma (contra zero no governo FHC).

Junto com grande expansão nas instituições já existentes, mais do que dobrou o número de matrículas: hoje são 325 mil vagas, e 1140 mil alunos matriculados na rede federal de ensino superior.

O orçamento da educação passou dos cerca de 4% que foi durante o governo tucano até 2002, para 6,2% em 2013. O Enem é usado no lugar dos vestibulares e se generalizou uma política de cotas raciais e para os provenientes do ensino público.

O valor das bolsas da Capes e do CNPq, antes congelado, aumentou 67%. Criaram-se 71.400 bolsas de graduação para estudantes no exterior e houve 850 mil bolsas integrais de graduação pelo Prouni. A produção científica nas universidades federais quadruplicou em relação a 2002, atingindo 24.400 publicações em revistas internacionais em 2013 (as estaduais paulistas, referência nesse caso, aumentaram cerca de 2,5 vezes no período).

Agora existem as condições dinâmicas para um crescente desenvolvimento das universidades com competência e justiça social, totalmente ausentes no período tucano.

Quem foi, é ou pretende ser da comunidade acadêmica e vota em Aécio, bom sujeito não é: ou é ruim da cabeça, ou tem má-fé…

Crédito da foto da página inicial: EBC

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15 respostas to “Duas políticas para a universidade pública”

  1. Thelma Gomes disse:

    Parabéns Colega professor!
    Só agora tomei conhecimento de seu belo e lúcido artigo. Ainda bem que conseguimos, à duras penas, manter o governo que valoriza a Educação superior. Agora precisamos de mais investimento ao ensino fundamental.

  2. Sandra Regina de Andrade Ferreira disse:

    Prezado Professor,

    Se o senhor prestar a atenção, nem o PSDB é mais o mesmo e muito menos o PT. Basta retroceder no tempo e lembrar que o PT foi eleito com um discurso de combate a corrupção, no entanto, mesmo o senhor vendo tantos avanços, e eles são inegáveis, poderá ver que nos governos petistas a corrupção aumentou tanto, que mesmo os ministros do STF tendo sido indicados por eles, não houve como não condenar, pois as falcatruas e roubalheiras ultrapassaram todos os limites. Não é que eles não impedem investigações, eles até tentam, mas os tempos mudaram e hoje duvido que algum partido impeça de investigar algo. Se bem que, como o PT vai indicar mais 5 ministros do STF, ai já não posso mais garantir nada.. Alternância faz bem, lamento que pessoas ditas cultas, não se lembrem disto.

    • Jonas Moreira disse:

      Errada, Dna. Sandra.
      Todos brasileiros de bom senso sabem que a corrupção é um problema da condição humana, acontece em qualquer estado ou país. O que pode limita-la é apenas o seu combate e nisto o governo federal com Lula e Dilma tem se mostrado muito eficiente (inclusive se toca em sua base de apoio).
      Ao contrário do que foi feito pelo PSDB quando no governo federal, ou em MG e SP.

  3. […] de São Carlos, onde leciona desde 1979, e estudioso da área política, Wolfgang escreveu o artigo Duas políticas para a universidade pública, publicado no portal Brasil Debate, em que anunciou seu voto à candidata petista e comparou a […]

  4. Aleilton Fonseca disse:

    Caro Professor: seu brilhante artigo retrata a memória das lutas que travamos contra a política de terra arrasada imposta às universidades públicas durante o governo do PSDB. Por ironia, um professor da USP, impingiu á universidade brasileira um dos piores momentos de sua história. Como professor universitário baiano, acompanhei os fatos e estive nas lutas e greves em defesa da universidade. Experimentei diretamente as enormes melhorias implantadas pelos governos Lula-Dilma. As universidades se ampliaram, tornaram-se canteiros de obras, multiplicaram-se vagas, universidades e cotas de bolsas. Voltamos a ter concursos, financiamentos, melhorias salarias, reestruturação da carreira — enfim, esperança e dignidade.Essa revolução precisa continuar. DILMA 13.

  5. Larissa Graminho disse:

    Massificação e quantidade é diferente de qualidade. Quanto desses investimentos voltarão a sociedade?

    • ROSANIR DA SILVA LINDEMAYER disse:

      Massificação e qualidade? ha ha ha Queres dizer com qualidade:(ELITE) só se for isso, pois eu sou um exemplo de que este investimento(NOS EXCLUIDOS) volta para a sociedade em forma de pessoas sem oportunidade e massacrados pelos poderosos, agora tem VOZ e vez.
      Durante muito tempo sonhei em ter uma formação e só consegui porque tive acesso a uma bolsa (Prouni) e conheço muitos casos como o meu, não de ouvir dizer, de conviver com estas pessoas. Tenho uma formação pela PUCRS e uma renda que me proporciona uma qualidade de vida muito boa. Não quero retrocesso vou de #13.

  6. FRANCISCO MARCOS PEREIRA disse:

    Integro o corpo docente do Centro de Ciências Jurídicas e Sociais da Universidade Federal de Campina Grande. (Prof. de DPC e DM) Quando o nosso Centro pertencia a Universidade Federal de João Pessoa (na Capital), o objetivo da Turma do Aércio era fechar o nosso CCJS. No governo do PT foi criada a Universidade Federal de Campina Grande- UFCG. Passamos a integrar a UFCG. Hoje, para orgulho dos paraibanos (especialmente do sertanejo) temos um magnifico CAMPUS UNIVERSITÁRIO, numa deslumbrante Cidade Universitária,com mais cursos de Graduação (Contabilidade, Assistente Social, além de cursos de pós graduação). Professor com doutorado…equipamento moderno de informática para o professor e para o aluno, alimentação e residência no campus para o Universitário. Biblioteca moderna, etc. O sertanejo não mais precisa se deslocar até a Capital para se graduar. Tudo isso graças a política educacional do Lula e da Dilma. – Retroceder.. jamais… Vamos de DILMA….

  7. André Carone disse:

    Wolf, que saudades de você! Obrigado pelo texto.

  8. Marlene Barros da Fonseca disse:

    Retroceder jamais!
    Ótimo texto!
    #dilma13

  9. Sonia M Panontim disse:

    Esclarecedor, um excelente artigo descrevendo bem a diferença entre a Educação na era FHC/PSDB e na Era Lula/Dilma PT, Parabéns!
    Fui aluna da UNICAMP e UFSCar, sou testemunha do “sucateamento” da Educação causado pelo governo do presidente FHC e dos governos do PSDB em São Paulo, acompanho as mudanças que vieram após a entrada do PT no governo federal e posso dizer que nunca antes houve tanto investimento em educação nem tanta valorização dos professores no âmbito federal, infelizmente não tivemos o mesmo no âmbito estadual, vide as crises da USP, UNICAMP e UNESP.

  10. Fabio MS disse:

    Parabéns pela lucidez.

  11. Pedro de jesus Abreu disse:

    tomara que a população pense bem ante de votar errado e fazer o que fizeram com são carlos ao tentar mudar acabar com tudo o que foi conquistado

  12. Luís Anderson Moraes Diaz disse:

    Excelente professor, tive a grande oportunidade de frequentar suas aulas.
    Obrigado!

  13. Isabela Rinaldi disse:

    Prezado Professor,

    Excelentes informações e reflexão clara e profunda sobre a trajetória da Universidade Brasileira. O seu artigo para todos nós interessados em Educação, é para se guardar. Para a gloriosa UFSCar, a qual você pertence, um motivo de orgulho tê-lo em seu quadro. Obrigada Professor!

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