‘Austeridade e Retrocesso: Finanças Públicas e Política Fiscal no Brasil’, que será lançado nesta segunda, na Câmara dos Deputados, faz uma análise da questão fiscal e desmonta os argumentos do governo Temer em defesa da PEC que pretende congelar os gastos públicos por 20 anos.
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Brasil Debate

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GT de MACRO DA SEP

Grupo de Trabalho de Macroeconomia da Sociedade Brasileira de Economia Política

 
GT de MACRO da SEP

Documento desconstrói a PEC 55 (241) e o discurso da austeridade

Com lançamento previsto para segunda, 10, estudo faz análise das finanças públicas e da política fiscal no Brasil e põe abaixo simplificações e mitos, muitos dos quais baseados em argumentos econômicos supostamente técnicos que sustentam a austeridade

Lançado na Câmara dos Deputados, o documento ‘Austeridade e Retrocesso: Finanças Públicas e Política Fiscal no Brasil’ desconstrói a PEC 241 e o discurso da austeridade.

Elaborado por iniciativa do Fórum 21, Fundação Friedrich Ebert, GT de Macro da Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP) e Plataforma Política Social apresenta uma análise aprofundada da questão fiscal, apontando seus problemas reais, denunciando os problemas fictícios e desmascarando os mitos que sustentam um discurso que se traveste como técnico, mas que atende a interesses políticos.

A força desse discurso se materializa na proposição da PEC 241, a PEC da Maldade, que pretende instituir uma austeridade permanente no Brasil a partir de diagnósticos e argumentos equivocados e falaciosos. Na verdade, trata-se da imposição de outro projeto de país, incompatível com a Constituição de 1988 e com a expansão de bens públicos como saúde e educação.

doc austeridade_capa 520x400_siteOKLeia, abaixo, o texto de apresentação. Leia a íntegra na Versão digital ou na versão PDF: Austeridade e Retrocesso

Austeridade e Retrocesso: Finanças Públicas e Política Fiscal no Brasil

Desde o final de 2014, o Brasil vem sendo submetido à retórica que propõe a austeridade como único caminho para recuperar a economia. Com o objetivo de melhorar as contas públicas e restaurar a competitividade da economia por meio de redução de salários e de gastos públicos, a austeridade se sustenta em argumentos controversos e até mesmo falaciosos. Entre os principais experimentos internacionais, vem predominando resultados contraproducentes, não resultando em crescimento, tampouco equilíbrio fiscal. O que sim é menos controverso é que tais experimentos têm como objetivo redesenhar o papel do Estado para atender interesses velados. No Brasil, o ajuste econômico ortodoxo, iniciado na gestão Levy, fracassou em retomar o crescimento e estabilizar a dívida pública, contribuindo para lançar o país no maior retrocesso econômico das últimas décadas.

Não obstante, o ajuste ajudou a criar as condições necessárias para mudança da correlação de forças políticas e para impor ao país, passando ao largo do crivo das urnas, um outro projeto de sociedade. Nesse contexto, esse documento procede uma análise das finanças públicas e política fiscal no Brasil, procurando esclarecer as principais causas da atual crise fiscal, assim como desconstruir simplificações e mitos, muitos dos quais baseados em argumentos econômicos supostamente técnicos que sustentam a austeridade. O documento também é propositivo ao apontar alternativas fiscais para um projeto de país que valorize a democracia, a distribuição da renda e da riqueza e a expansão dos direitos sociais.

Da agenda Fiesp ao austericídio

A economia brasileira entrou em uma trajetória de desaceleração no quadriênio 2011-2014 depois do desempenho extraordinário durante 2007-2010. Há fatores que escapam à política econômica e explicam essa desaceleração, dentre eles a perda de dinamismo de um ciclo doméstico de consumo e de crédito ou os desdobramentos da crise internacional. Contudo, é importante apontar que a política fiscal praticada pelo governo contribuiu para essa trajetória de queda do crescimento.

Enquanto no quadriênio 2007-2010 o espaço fiscal foi canalizado prioritariamente para investimentos públicos, no quadriênio 2011-2014 a taxa de investimento parou de crescer e, em compensação, o governo elevou significativamente os subsídios e desonerações ao setor privado. O governo fez uma aposta no setor privado e acreditou que promoveria o crescimento econômico via realinhamento de preços macroeconômicos e incentivos aos investimentos privados – a chamada agenda FIESP. Ironicamente, a FIESP passou de beneficiada das políticas de um governo para algoz do mesmo.

Como resposta ao cenário de piora nos indicadores fiscais provocada pela queda no crescimento econômico e pelas desonerações, o segundo governo Dilma tem início adotando a estratégia econômica dos candidatos derrotados no pleito de 2014, ou seja, realizou um choque de preços administrados e um duro ajuste fiscal e monetário, na esperança de que o setor privado retomasse a confiança e voltasse a investir. Joaquim Levy foi o símbolo da implementação da austeridade econômica no Brasil que consiste em uma política deliberada de ajuste da economia por meio de redução de salários e gastos públicos para supostamente aumentar lucros das empresas e sua competitividade, assim como tentar estabilizar a trajetória da dívida, com resultados contraproducentes.

O forte ajuste fiscal, em uma economia já fragilizada, agravou os problemas existentes e contribuiu para transformar uma desaceleração em uma depressão econômica. O ajuste fiscal promovido se mostrou contraproducente, pois gerou aumento da dívida pública e do déficit público.

Em 2015, por exemplo, os investimentos públicos sofreram queda real de mais de 40% no nível federal, o gasto de custeio caiu 5,3%, e o governo não logrou a melhoria das expectativas dos agentes econômicos que justificaria esse ajuste com vistas a retomar o crescimento. Pelo contrário, a economia real só piorou e as expectativas se deterioraram, apesar de toda a austeridade fiscal manifestada e praticada. Naquele ano, apesar de todo o esforço do governo para reduzir as despesas, que caíram 2,9% em termos reais, as receitas despencaram e o déficit ficou ainda maior, evidenciando o caráter contraproducente do ajuste: o austericídio.

A virada para a austeridade foi um remédio equivocado para os problemas pelos quais a economia brasileira passava. O tratamento de choque fundado em uma contração fiscal, um rápido ajuste na taxa de câmbio, um choque de preços administrados e um aumento de juros contribuiu para criar a maior crise econômica dos últimos tempos. Contudo, para determinados interesses políticos, o ajuste se mostrou funcional ao gerar desemprego, queda de salários reais e assim mudar a correlação de forças para favorecer a imposição de outro projeto de país, sem passar pelo crivo das urnas.

O novo regime fiscal e a imposição de outro projeto de sociedade

A gestão da política fiscal protagonizada pelo governo Temer lançou sinais contraditórios com relação à continuidade das políticas de austeridade. Para o curto prazo definiu-se o “keynesianismo fisioló-gico” e para o longo prazo, a “austeridade permanente”.

O afrouxamento da meta fiscal para 2016 e 2017 evidencia por um lado o pragmatismo econômico e, por outro lado, hipocrisia dos que argumentam pela austeridade e, simultaneamente, passam a defender um déficit primário recorde no novo Governo.

Como medida de longo prazo, o governo Temer propõe estabelecer um “Novo Regime Fiscal” por meio de uma proposta de emenda constitucional (PEC 241) que cria por 20 anos um teto para crescimento das despesas públicas vinculado à inflação. Enquanto a população e o PIB crescem, os gastos públicos ficam congelados.

A proposta apoia-se em argumentos falsos de que nações desenvolvidas usam regras semelhantes. Desde 2011, membros da União Europeia estabeleceram um limite para o crescimento da despesa associado à taxa de crescimento de longo prazo do PIB e não em crescimento real nulo. Na maioria desses países já existe uma estrutura consolidada de prestação de serviços públicos, diferentemente do Brasil onde há muito maiores carências sociais e precariedades na infraestrutura.

Segundo nossas estimativas, a regra implicaria reduzir a despesa primária do governo federal de cerca de 20% do PIB em 2016 para algo próximo de 16% do PIB até 2026 e de 12% em 2036.

Adicionalmente, para que o teto global da despesa seja cumprido – dado que algumas despesas como os benefícios previdenciários tendem a crescer acima da inflação – os demais gastos (como Bolsa Família e investimentos em infraestrutura) precisarão encolher de 8% para 4% do PIB em 10 anos e para 3% em 20 anos, o que pode comprometer o funcionamento da máquina pública e o financiamento de atividades estatais básicas. Essa meta não parece ser realista.

A nova regra não prevê nenhum mecanismo para lidar com crises econômicas ou outros choques. Ao contrário, tende a engessar a política fiscal por duas décadas.

Na verdade, o que o novo regime se propõe a fazer é retirar da sociedade e do parlamento a prerrogativa de moldar o tamanho do orçamento público, que passará a ser definido por uma variável econômica (a taxa de inflação), e impor uma política permanente de redução relativa do gasto público.

Em suma, trata-se da imposição de um projeto de país que dificilmente passaria no teste de um pleito eleitoral, única forma de garantir sua legitimidade.

Quem ganha? Quem não quer financiar os serviços públicos por meio de impostos e o grande capital que enxerga o Estado como concorrente quando esse ocupa setores que poderiam ser alvo de lucros privados, como saúde e educação.

Quem perde? A população mais pobre, isto é, aqueles que são os principais beneficiários dos serviços públicos. Além disso, aqueles que vislumbram uma sociedade mais justa e igualitária.

O falacioso discurso da austeridade

A austeridade é uma política deliberada de ajuste da economia por meio de redução de salários e gastos públicos supostamente com o objetivo de reduzir a dívida e aumentar lucros e a competitividade das empresas.

A recomendação de que o Estado deve cortar gastos em momentos de crise parte de uma falácia de composição que desconsidera que se todos os agentes cortarem gastos ao mesmo tempo, inclusive o Estado, não há caminho possível para o crescimento. A solução mais razoável para tratar de um desajuste fiscal em meio a uma recessão é, portanto, estimular o crescimento, não cortar gastos.

No círculo vicioso da austeridade, cortes do gasto público induzem a redução do crescimento que provoca novas quedas da arrecadação que, por sua vez, exige novos cortes de gasto. Esse círculo vicioso só pode ser interrompido por decisões deliberadas do governo, a menos que haja ampliação das exportações líquidas em nível suficiente para compensar a retração da demanda interna, pública e privada. Esta exceção é pouco provável diante de uma crise internacional como a que o mundo enfrenta nesta década, com lenta recuperação da demanda e maior competição pelos mercados.

A obsessão alarmista contra qualquer elevação da dívida pública esconde uma agenda política permeada por interesses de grupos econômicos, mas travestida como uma questão meramente técnica, seja ao defender a retração de bancos públicos, seja ao demandar a redução dos gastos sociais.

No fundo, a austeridade é principalmente um problema político de distribuição de renda e não um problema de contabilidade fiscal. Os efeitos da austeridade afetam de forma distinta os diferentes agentes econômicos e classes sociais de forma que os mais vulneráveis, que fazem mais uso dos serviços sociais, são mais afetados.

Apesar das inúmeras evidências contrárias à sua eficácia, a austeridade persiste como ideologia e sempre retorna ao debate político por ser oportuna para os grupos dominantes de poder.

A insensatez do superávit primário

O regime fiscal brasileiro é extremamente pró-cíclico, ou seja, acentua as fases de crescimento e de recessão. Assim, em contextos de baixo crescimento, a busca pelo cumprimento da meta fiscal por meio de uma política fiscal contracionista retira estímulos à demanda agregada e reduz ainda mais o crescimento econômico e a própria arrecadação.

Um segundo fator a se sublinhar sobre o regime fiscal brasileiro é sua natureza “anti-investimento”, porque, diante de uma estrutura de gastos públicos rígida, os cortes de despesa recaem primordialmente sobre o investimento público, um dos poucos gastos passíveis de contingenciamento. O mesmo regime impõe uma lógica curto-prazista à gestão da política fiscal e subordina o planejamento governamental.

Na ditadura do superávit primário, os fins são atropelados pelos meios, e tudo se submete à necessidade de cumprir a meta de curto prazo, inclusive o próprio crescimento, o emprego e o bem estar da população. Portanto, um novo modelo de gestão fiscal precisa ser constituído, de caráter anticíclico, que viabilize o planejamento e que priorize o investimento público.

Há diversas variantes institucionais para um regime fiscal, dentre essas estão as que estipulam metas fiscais ajustadas ao ciclo econômico, como a meta de “resultado fiscal estrutural”. Ou alternativamente, pode-se adotar bandas fiscais de forma análoga ao que ocorre no regime de metas de inflação. Ainda há a opção, aplicada em alguns países, de retirar todo investimento público do cálculo do superávit primário (assim como o gasto com juros é excluído desse indicador) e assim incentivar o uso do investimento público como vetor de desenvolvimento e abrir espaço para atuação anticíclica do gasto público.

Desmistificando a dívida pública

A dívida brasileira é tão grande? Qual é o parâmetro para definição de “grande”? Na verdade, poucos economistas se arriscam a definir um parâmetro ótimo para dívida pública, simplesmente porque as evidências não parecem indicar que esse patamar exista. Não há um número mágico a partir do qual a relação dívida pública/PIB torna-se problemática. Isso vai depender das especificidades de cada país.

No Brasil, a excessiva preocupação com o patamar da dívida é carregada por preconceitos ideológicos e por uma visão estreita sobre a relação entre Estado, moeda estatal e dívida pública. Uma dívida elevada pode custar muito caro, mas um Estado soberano não quebra por conta de dívidas na sua própria moeda. Por isso, a natureza da dívida pública se diferencia substancialmente da gestão de dívidas privada e o governo não incorre nas mesmas restrições para gasto e endividamento. O paralelo com a economia da dona de casa não serve para as finanças públicas.

Entre 2003 e 2013 a redução da relação dívida líquida/PIB foi expressiva, de 54,3% para 30,6%, muito embora as taxas de juros continuassem pesando no orçamento público.

A dívida externa pública, por sua vez, caiu e, a partir de 2006 o país passou a realizar uma política de acumulação de reservas cambiais, tornando-se credor externo líquido. Por conta disso, quando em 2008 a crise mundial determinou forte depreciação da moeda brasileira, a acumulação de reservas cambiais propiciou significativos ganhos patrimoniais para o Estado brasileiro.

No final de 2014, pelo critério da dívida líquida não havia um cenário de tragédia fiscal, desenhado pelos economistas da mídia e do mercado. Havia sim, condições financeiras para realizar uma política anticíclica que ampliasse o investimento público e o gasto social para impedir que a desaceleração cíclica se transformasse em uma depressão. À época, a necessária e esperada desvalorização cambial apenas contribuiria para reduzir o patamar da dívida líquida, ampliando o espaço fiscal para políticas de estímulo ao crescimento.

Apesar da redução substancial da dívida líquida, na última década a dívida bruta manteve-se relativamente estabilizada e passou a crescer a partir de 2013. Diferentemente do senso-comum, essa dinâmica da dívida bruta não é explicada pela “gastança do governo” ou o resultado primário, mas principalmente pela acumulação de ativos por parte do Estado como a acumulação de reservas cambiais e de créditos junto ao BNDES.

Essa estratégia possui méritos como, por exemplo, a redução da vulnerabilidade externa do setor público. Da mesma forma a política de expansão dos empréstimos do BNDES, em 2009, foi importante para a ação contracíclica que assegurou a recuperação rápida da economia brasileira na maior crise da história do capitalismo mundial desde a década de 1930. No entanto, não devemos negligenciar seus elevados custos.

A estratégia de acumulação simultânea de ativos e passivos, com grande diferencial de rentabilidade entre eles, explica boa parte da elevada conta de juros. Em 2015, domando-se os custos de oportunidade da manutenção das reservas internacionais e dos créditos ao BNDES com o resultado das operações de swaps cambiais, chegamos a 4,9% do PIB.

Em suma, se o objetivo for equacionar a dívida bruta é preciso desatar o nó da gestão macroeconômica, reduzir substancialmente o gasto com juros e ponderar o custo da estratégia de acumulação de ativos. A ideia que se disseminou no Brasil de que ao governo só compete controlar os gastos primários, desconsiderando os custos e benefícios fiscais das demais políticas macroeconômicas, deve ser revista e amplamente debatida.

Mito da gastança federal

O diagnóstico convencional da crise pela qual passa o país se traduz simplificadamente na seguinte narrativa: os governos do PT expandiram demais os gastos públicos, encobriram o déficit público crescente por meio da chamada “contabilidade criativa” e das “pedaladas fiscais” e esse tipo de política fiscal expansionista e nada transparente destruiu a confiança do mercado e mergulhou o paísna estagflação.

Contudo, a análise dos dados mostra que, de fato, a despesa do governo vem crescendo a um ritmo elevado e estável há tempos. As taxas médias de crescimento real do gasto do governo federal dos últimos quatro governos foram: FHC II (3,9%), Lula I (5,2%), Lula II (5,5%) e Dilma I (3,8%).

O principal fator por detrás do crescimento das despesas na esfera federal não são os gastos com pessoal, como muitos acusam. Estes crescem sistematicamente abaixo do PIB e tiveram sua menor taxa de expansão real justamente no governo Dilma I (-0,3%), ao contrário do que ocorre, por exemplo, nos estados e municípios, onde o gasto com salários e aposentadorias de servidores tem crescido a 5,5% ao ano, independentemente da coloração partidária do governante.

O motor do gasto federal tem sido os benefícios sociais (aposentadorias e pensões do INSS, benefícios a idosos e deficientes, seguro-desemprego, bolsa família, etc), que hoje consomem metade do gasto da União (mais de R$ 500 bilhões em 2015) e crescem a taxas sistematicamente superiores ao PIB pelo menos desde 1999, por influência principal de fatores demográficos, da justa formalização e dos direitos consagrados na Constituição e, adicionalmente, pela política de valorização do salário mínimo.

Porém, uma visão mais acurada dos gastos sociais mostra que tampouco nesta área houve expansão desenfreada, sobretudo frente às demandas sociais brasileiras, e que a política de valorização do salário mínimo contribuiu para este cenário, mas com impactos sobre a redução da desigualdade relevantes. Certamente é possível discutir excessos e tornar o gasto mais eficiente, mas as possibilidades de fontes de financiamento discutidas neste documento evidenciam que este é um debate que deve envolver toda a sociedade brasileira.

Vale notar que, a despeito de gastos elevados, o governo conseguiu manter resultados fiscais positivos na última década e meia pelo aumento da carga tributária (1999-2005) ou pelo crescimento mais acelerado do PIB (2006-2011). Nos governos Lula, enquanto o país crescia, não havia desajuste fiscal apesar do crescimento do gasto público. Mas a partir de 2012, com a queda do crescimento econômico e com as desonerações tributárias, houve uma piora dos resultados fiscais.

Reforma tributária, já!

A estrutura tributária brasileira é extremamente perversa com os mais pobres e a classe média e benevolente com os mais ricos. Esse sistema singular é reflexo tanto do federalismo brasileiro e da dualidade tributária (impostos e contribuições sobrepostos), quanto de algumas recomendações de política que o mainstream econômico propagou nas décadas de 80 e 90 e que foram incorporadas de forma bastante acrítica ou peculiar pelo Brasil.

A agenda de reformas da tributação sobre a renda e o patrimônio, que envolve um forte conflito distributivo, permaneceu totalmente embargada nos últimos 20 anos, não tendo o governo federal apresentado qualquer proposta de reforma mais substancial que visasse ampliar a progressividade ou mesmo corrigir as graves distorções ensejadas pela atual legislação.

O Brasil foi um dos primeiros países e até hoje um dos poucos que isentou e continua isentando de imposto de renda os dividendos distribuídos a acionistas, tal como a pequena Estônia.

De acordo com os dados das declarações de imposto de renda, as 70 mil pessoas mais ricas do Brasil, representando meio milésimo da população adulta, concentram 8,2% do total da renda das famílias, índice este que não encontra paralelo entre as economias que dispõem de informações semelhantes. Esse mesmo seleto grupo pagou apenas 6,7% de imposto de renda sobre esse montante.

Além de injusta, essa assimetria entre o tratamento tributário dispensado a dividendos e salários tem sido responsável por um fenômeno conhecido por “pejotização”, que é a constituição de empresas por profissionais liberais, artistas e atletas com o objetivo de pagar menos impostos do que como autônomos ou assalariados.

Nesse contexto, a proposta de se aumentar alíquotas do imposto de renda das pessoas físicas sem revogar a isenção de dividendos não proporciona uma redistribuição de renda tão efetiva uma vez que as alíquotas progressivas da tabela do Imposto de Renda (IRPF) só atingem os “rendimentos tributáveis”, o que não inclui atualmente a distribuição de lucros e dividendos que são as principais fontes de renda dos mais ricos. Então, qualquer proposta de reforma do imposto de renda que não passe pela tributação dos dividendos não será tão efetiva nos objetivos de contribuir com uma maior justiça fiscal e também gerar receitas extras para o governo.

Na atual conjuntura de crise, é pouco razoável crer na possibilidade de um equilíbrio fiscal com baixo crescimento. Isso implica que, no curto prazo, deveríamos no mínimo assegurar espaço fiscal para o investimento público e para gastos sociais de elevado impacto sobre o bem-estar das camadas mais vulneráveis da população.

Uma reforma tributária, que combine eficiência e equidade poderia atuar incentivando o crescimento econômico de longo prazo ao reduzir a tributação do lucro e da produção das empresas, ao mesmo tempo em que concentra o ajuste fiscal de curto prazo sobre uma pequena parcela da poupança dos mais ricos, não diretamente relacionada ao investimento, e, por conseguinte, vinculada a um maior nível de emprego e produto. Assim, ganha-se tempo para aprimorar outras propostas de reformas estruturais das despesas, debatê-las com a sociedade e pactuá-las democraticamente .

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29 respostas to “Documento desconstrói a PEC 55 (241) e o discurso da austeridade”

  1. Ricardo Medeiros disse:

    Você pagaria uma dívida na padaria que fizeram em seu nome? #auditoriadadividaja #quemtemmedodeauditoria @auditoriacidada

  2. Ricardo Medeiros disse:

    #auditoriadadividaja !

  3. Fabio disse:

    Alguns do argumentos acima confirmam o dito: “de médico, louco e economista todos temos um pouco”.
    É incrível como o neoliberalismo mostra resiliência. Contra todas as evidências do mundo o mantra continua o mesmo.
    Mas, o que me mais surpreende é ver as pessoas assumirem um discurso cujos conteúdo e propósito atacam seus próprios interesses.
    Somos um país e amadores, até na formação de nossas “convicções”. Não recordo quem, se Nelson Rodrigues, Sérgio Porto ou Tim Maia, mas um deles resumiu o Brasil neste aspecto: “este país não te como dar certo, aqui prostituta de apaixona, cafetão tem ciúmes, traficante se vicia e pobre é de direita”.

  4. Lizia Helena Nagel disse:

    Vale a pena ler e divulgar sistematicamente seu conteúdo.

  5. Hebert disse:

    Só um idiota ou um desonesto pode propor a continuidade dos gastos gigantescos do estado. Só defende um estado que gasta mais do que se ganha quem se beneficia dele. Acordem acabou o dinheiro e MENOS ESTADO É MAIS CIDADÃO.

    • jj disse:

      Amigo, leia o documento. Depois opine. É o mínimo de integridade intelectual que alguém que chama o outro de idiota deve ter. Lembre-se: MENOS LEITURA É MAIS IDIOTICE.

      • Marcos disse:

        Verdade, essas marionetes da mídia têm uma preguiça mental incrível. O cara não consegue ler um documento como esse e já sai opinando. Ninguém em sã consciência defende aumento desenfreado de gastos, a questão é onde se corta e quais investimentos vale a pena manter. Aliás, esses defensores do governo atual não sabem nem a diferença entre gasto e investimento, e saem por aí chamando os outros de idiotas.

  6. […] 06.10.2016 – Brasil Debate Documento desconstrói a PEC 241 e o discurso da austeridade […]

  7. André disse:

    Excelente documento! Obrigado!

  8. Moacir Rodrigues de Pontes disse:

    Austeridade com investimentos sociais x extrema leniência com a especulação financeira e a entrega dos recursos do país às grandes Corporações!… As quais já controlam mais de 80% da economia global! Maior enriquecimento para 1% da população mundial, já detentora de mais riqueza do que os 99% restantes!… Logo serão 0,1% x 99,9%!… A ganância imperialista/terrorista é ilimitada!… Os recursos do planeta, não!

  9. Joana Belarmino disse:

    Material excelente, e, parabenizo a todos pelos comentários, debate de alto nível, e #ForaPecDoFimDoMundo!

  10. allan disse:

    Esse texto só pode ter sido escrito por fans da “Nova Matrix Econômica”.
    Quanta coisa errada, meu pai…

  11. Francisca Valda da Silva disse:

    Claro e objetivo este documento que revela a farsa da narrativa da austeridade do governo Temer.

    Meireles e Temer enganam a população com a conversa fiada de que é necessário sacrificios de todos. Contraditoriamente, não pautam a taxação das grandes fortunas e outras taxações de quem ganha muito dinheiro como pessoa física ou jurídica amando nas tetas do Estado….Só sabem fazer chantagem com a espada da CPMF! Não tocam nos ricos! Este governo de todos é uma grande farsa!

    ELES MENTEM para os brasileiros dizendo que não haverá prejuizo para o financiamento da saúde e da educação… então porque não deixa a PEC do piso vinculado a RCL como foi aprovado por emenda de iniciativa população assinada por mais de 2 milhões de brasileiros na regulamentação da EC 29???…Então qual o porque desta obsceção do mercado e do governo em aprová-la a toque de caixa???

    Agora uma pergunta que não quer calar! Quanto vai custar ao contribhinte o jantar de confraternização que Temer vai oferecer hoje a noite (9/10) para mais de 500 convidados (Deputados e senadores)? Para na verdade negociar cada voto pela aprovação da PEC da Maldade e da Morte a PEC 241/2016 nos dias 10 e 11/2016 na Câmara dos Deputados.

    #PEC241Não! #NãoAPECDaMaldadeEDaMorte

    • Jose D. J. Santos disse:

      Este é um documento que em nada ajuda o País , pois só pretende fazer uma apreciação, que me parece dúbia, o que há a fazer é exigir eleições já e ter cuidado com estas escolhas feitas anteriormente , e colocar na prisão todos, mas todos os corruptos, e seguir em frente.

  12. Gilberto Alves de Brito disse:

    Fora pec241- quem roubou o Pais que pague a conta eu não robei nada de ninguem, quem roubou foi os politico é eles que tem que pagar, devolvendo tudo que roubou, com Juro e coreção

  13. Gilberto Alves de Brito disse:

    Fora pec 241

  14. […] Uma reforma tributária, que combine eficiência e equidade poderia atuar incentivando o crescimento econômico de longo prazo ao reduzir a tributação do lucro e da produção das empresas, ao mesmo tempo em que concentra o ajuste fiscal de curto prazo sobre uma pequena parcela da poupança dos mais ricos, não diretamente relacionada ao investimento, e, por conseguinte, vinculada a um maior nível de emprego e produto. Assim, ganha-se tempo para aprimorar outras propostas de reformas estruturais das despesas, debatê-las com a sociedade e pactuá-las democraticamente. (Do Brasil Debate) […]

  15. Junia Ferreira disse:

    Excelente! Compartilhando urgente!

  16. valdir rocha disse:

    Um festival de bobagens:
    1 – A austeridade é sim o caminho ( no momento) o ÚNICO caminho para recuperar a economia. Há um descompasso fiscal que está levando o país ao buraco.

    2 – A ajuste iniciado por Levy ( nem chegou a ser iniciado, edinho silva botou ele para correr)

    3 – A perda de dinamismo de um ciclo doméstico de consumo e de crédito ou os desdobramentos da crise internacional. Ocorreu porque chegou ao final o crescimento proporcionado pela estripulia fiscal e endividamento da população.

    4 – A insensatez do superávit primário – Isso é de uma babaquice tão grande que qualquer estudante de Economia do primeiro semestre derruba. Ser contra o superávit primário é o mesmo que dizer que se pode gastar mais do que o salario a vida toda.

    5 – A dívida brasileira é tão grande? Qual é o parâmetro para definição de “grande”?
    Faça a conta você mesmo. Imagine que você está devendo 75% de tudo que você vai ganhar em um ano. Você está quebrado ?
    A Grécia quebrou com 100%, portando estamos bem proximos.

    • Alex Dias Gonsales disse:

      A dívida pública do Japão é 229%, na Itália é 132%, nos EUA é 104%. Esses países estão quebrados? Não. Logo, não é exclusivamente a divida pública que determina se um país está quebrado. Muitos outros fatores devem ser levados em conta. Por isso ainda não existe consenso entre os economistas sobre o valor permitido para a dívida pública.

      Fonte: http://pt.tradingeconomics.com/country-list/government-debt-to-gdp

      • andre reis disse:

        % é apenas uma parte …a outra tão importante quanto é a quanto você financia ela … por exemplo japao e EUA finaciam abaixoda inflação …logo o % não é importante neste momento para eles …pois o custo real é negativo ou próximo de zero

        No brasil o custo é 14% aa … ou seja … grosso modo …nossa dívida tem um impacto 10X maior em termos de custo no orçamento da união se compararmos com EUA e Japão por exemplo … 70% equivale a 700% na comparação ;;;é absurdamente elevada … Nada disso foi considerado pois quem escreveu desconhece o básico de finanças públicas e o q é pior …não tem a menor idéia do q seja a TEORIA DAS EXPECTATIVAS RACIONAIS … prega que o Brasil vai afundar com ajuste …ao contrário … já começamos a virada …pois os primeiros a virar são cambio e dólar (bolsa +40% e dolar -20%) …na sequencia teremos a atividade propriamente dita … é só esperar … como a BURRICE tem o poder se propagar …incrível …e lamentável

        • Rodrigo disse:

          Bom, eu gostaria de um debate sobre teoria das expectativas racionais bem como a dos mercados eficientes, porque são irrealistas. Vão de encontro a todo o avanço das ciências pertinentes, como neuroeconomia e ciências da complexidade, apenas para preencherem modelos que fazem previsões apenas par um mundo em que essas duas petições de princípio fossem realistas, ou seja, raciocínio circular.

          A trajetória da dívida pelo PIB na virada do século era muito pior. A dos EUA é mais barata porque é financiada pelas reservas, agora, não é apenas questão do custo do financiamento que conta, mas a relação com as reservas em caixa (que sim, por causa dos juros injustificáveis porque nossa inflação não se deve preponderantemente à demanda), possuem alto custo de carreamento.

          A questão é: é factual que a trajetória da dívida não tem correlação com crescimento de despesas primárias sobre o PIB.
          É factual que o déficit primário se deve a queda de arrecadação, que remete ao crescimento da dívida das empresas e o custo da dívida dessas dada a exposição que tiveram até 2008 e dentre 2010 a 2012.
          Não tivemos neste período nenhum, nenhum crescimento de formação bruta de capital fixo no Brasil. Apenas especulações que podem nos derrubar com uma leve alta nos juros do FED ou a incerteza sobre a dívida privada da China ou da política alemã ante a crise do Deutsche Bank.

          Destarte, não seja tão fanfarrão cara, porque você dá vexame. Você não sabe do que está falando, André Reis, e blefa trucando com cartas que não tem. Isso é falta de vergonha na cara.

    • Elio disse:

      Concordo com o “festival de bobagens”. O valdir é maldoso ao ver o “problema” de modo tão mesquinho. Ora, se referir à Grécia, revelam completa desatualidade ou, no mínimo, maldade.

    • Alexandre disse:

      Pois é.
      O que nos trouxe a esta monumental crise e regressão de uns 15 anos foram exatamente políticas de tais “economistas”. Acreditar na ladainha deles novamente? Jamais.

      • Ricardo disse:

        Monumental crise onde o Brasil empresta dinheiro ao FMI, o presidente faz banquete com deputados, o judiciário tem aumentos acima da inflação, Petrobrás volta a ser segunda maior cia do Brasil, Pré-sal deve gerar bilhões e a taxa de desemprego é menor que nos tempos de FHC… Vocês se baseiam em dados ou informação corrompida da mídia tendenciosa?

    • Pedro Lemus disse:

      Leia o livro Keynes x hayek de nicholas wapshott, através dele vc verá que vc está equivocado com a frase:
      “1 – A austeridade é sim o caminho ( no momento) o ÚNICO caminho para recuperar a economia. Há um descompasso fiscal que está levando o país ao buraco.”

      Os presidentes republicanos eisenhower, nixon e regan provam como a austeridade nao tira ninguém da crise. A não ser que vc queira aprofundamento da crise, instabilidade social profunda, e o risco de emergir governos totalitários ou o risco de revolução, o que eu acho até boa ideia.

    • Rodrigo disse:

      Festival de fanfarronice sem vergonha, Valdir.

      1) Não há exemplos internacionais. Todas economias que recuperaram-se da crise só o fizeram após adotarem políticas expansionistas.
      2) Levy fizera o maior contigenciamento da história do Brasil. Ele saiu porque o Congresso não aprovava mais cortes.
      3) Dentre 2003 a 2014 o crescimento do custeio ante o PIB foi de 0,1% e pessoal, 0,5%. Não blefe com cartas que não possui. A perda de dinamismo se deu com o encarecimento dos passivos das empresas ante os ativos após a aversão ao risco com a crise neoliberal de 2008, o governo fez um ajuste fiscal em 2011 e piorou o balanço delas, elas se expuseram muito. AS políticas de desonerações e de subvenções via BNDES que aumentaram o rombo, na tentativa do governo de cobrir custos de capital e principalmente financeiro para salvar o emprego. Só demanda efetiva pode contornar a situação.
      4 – Eu duvido então que você esteja no primeiro semestre de economia. O Brasil acumulou 824 bilhões de superávit primário dentre 2003 a 2014.
      6 – A Grécia não quebrou com dívida do governo, mas dos seus bancos privados, que tiveram que ser resgatados por seu governo. As agências de risco davam classificação A para os títulos gregos antes de 2008.

      Cara, por fim: tenha vergonha na cara. Pare de fingir que sabe o que não sabe. É patético.

  17. carlos dias disse:

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  18. Carlos Tramontina disse:

    Excelente. Vou procurar ler o livro logo…

Comentários