Segundo o autor, o aparente caos em que o mundo está mergulhado põe em xeque tentativas de solucionar a crise econômica centradas apenas na política monetária e em ajustes fiscais recessivos.
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Brasil Debate

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Fernando Nogueira da Costa

É professor titular do IE-Unicamp. Autor de “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012), ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2007). É colunista do Brasil Debate

 
Fernando Nogueira da Costa

Dependência de trajetória caótica

Face a essa dependência de trajetória caótica, a política monetária sozinha vai consertar o mundo?! A abordagem estruturalista sempre foi mais consistente do que a monetarista. Entretanto, reformas estruturais e investimentos em longo prazo levam mais tempo que a conjuntura política suporta

29/02/2016

O mundo está em um aparente caos. Este é um suposto estado de mistura e irregularidade dos diversos componentes do planeta, antes de se ordenarem para formar o Universo. Mesmo em caos é possível observar as configurações das propriedades emergentes de redes de relacionamento entre classes de comportamentos dos agentes. Há certa auto-organização sem autoridade ou planejamento central.

Não resta apenas o niilismo. Não cabe a redução ao nada, o aniquilamento total, a não existência. Este ponto de vista considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência humana. Representa um total e absoluto espírito destrutivo, em relação ao mundo circundante e ao próprio eu!

Não se pode crer que o projeto de poder do Estado Islâmico (EI) será vencedor contra tudo e todos. Seu objetivo estratégico de hegemonia desestabilizaria os países islâmicos, propiciando o avanço do extremismo religioso e político em Estados não laicos. Criaria uma guerra entre as civilizações orientais e ocidentais, estimulando a radicalização das comunidades islâmicas.

A Rússia ataca rebeldes sírios, para manter o governo aliado na Síria, estratégia de que os Estados Unidos discordam. Então, limita-se a ataques aéreos pouco eficazes contra o EI. A Turquia se opõe à consolidação de um território autônomo curdo –relativo ao Curdistão, região do atual Iraque –, embrião de um país próprio. O Iraque, país dividido entre sunitas e xiitas, encontra-se diantedo risco da própria dissolução.

A sunita Arábia Saudita e aliados do Golfo Pérsico combatem o avanço do Irã xiita e as fontes não convencionais de petróleo, seja extraído do xisto, seja do pré-sal. O dumping com petróleo barato os inviabiliza?

No Oriente Médio, assim como na Venezuela, Rússia e em outros países exportadores de petróleo e demais commodities, a queda das cotações enfraquece as “práticas populistas”. Tudo que favorece ao povo em vez das elites, angariando apoio eleitoral para a continuidade, é condenado sob esse rótulo esnobe. Isso ampliará as tensões?

Será que os atentados terroristas do EI e a diáspora síria na Europa derrubarão os governos europeus adeptos da política de aceitação de refugiados? O aumento do xenofobismo e da intolerância étnica, inclusive com o retorno à milenar política de guetos, elevará o recrutamento de combatentes nas comunidades islâmicas, marginalizadas na “terra dos infiéis”?

O Acordo de Schengen eliminou as fronteiras internas no bloco europeu. Vários países, agora, estão reinstituindo o controle das fronteiras nacionais contra as correntes imigratórias, desagregando a União Europeia na prática do livre fluxo de gente. O turismo na França, no Egito e na Tunísia sofreu o impacto do medo de terrorismo.

O pré-candidato republicano favorito nas primárias à Presidência dos Estados Unidos adotou um intolerante discurso anti-islâmico. Está sendo apoiado pela tendência ultraconservadora Tea Party por seu programa governamental de barrar a entrada de muçulmanos na outrora “Terra da Liberdade”.

As fronteiras nacionais são criações arbitrárias face às geoeconômicas ou mesmo as geopolíticas, onde se impõem certas hegemonias hierárquicas de poder tácito. A fronteira entre a economia e outras áreas de conhecimento também é artificial.

Por exemplo, os impactos da quarta revolução industrial, juntando uma série de novas tecnologias, desde inteligência artificial a drones, implicam crescente robotização. Indústrias e serviços cada vez mais automatizados com robôs e computadores substituem várias atividades humanas. Hipoteticamente, os beneficiados serão países com mercado de trabalho flexível e mão de obra qualificada. A abundância de mão de obra pouco qualificada deixará de ser uma vantagem.

Tornar-se-á um peso com o fim do bônus demográfico e o envelhecimento da população. O déficit da Previdência Social será crônico. O regime de repartição não se sustenta mais com a diminuição relativa da geração ativa face à inativa, principalmente quando a geração baby-boom alcança a fase de aposentadoria.

As menores “gerações pós-pílula” vão para o arriscado regime de capitalização em Previdência Privada Complementar. Com Bolsas de Valores tão voláteis não há como garantir benefícios definidos. Só as contribuições serão definidas em alto patamar…

Países que a moeda nacional é atrelada ao dólar sofrem pressões competitivas adicionais. O custo do serviço da dívida corporativa, tomada quando o dinheiro estava “farto e barato” nos Estados Unidos, agora se eleva com a depreciação das moedas e a elevação do juro norte-americano.

Face a essa dependência de trajetória caótica, a política monetária sozinha vai consertar o mundo?! A abordagem estruturalista sempre foi mais consistente do que a monetarista. Entretanto, reformas estruturais e investimentos em longo prazo levam mais tempo que a conjuntura política suporta.

A inteligência binária enxerga como única alternativa aos empréstimos fartos e baratos, para impulsionar a demanda agregada, a política fiscal de corte de impostos e tarifas. Porém, como os gastos com benefícios previdenciários aumentam os déficits orçamentários, os governos não terão como cortar tributos ou gastos em resposta à desaceleração econômica. O ajuste fiscal recessivo só alcança o ajuste externo, devido à queda da importação.

Fora isso, resta o “velho diagnóstico” de que o problema não é a falta de demanda, mais sim a necessidade de ajustar o lado da oferta para atender à demanda com o fechamento de empresas com excesso de capacidade ociosa, esperar a redução de estoques de imóveis encalhados, dar baixa de dívidas não pagas, tentar aprovar reformas trabalhistas e previdenciárias, adequando os direitos à nova realidade de crise.

Face à concentração de riqueza, é difícil o convencimento social e político a respeito dessa necessidade de mais sacrifício econômico com a “queima do capital excedente” que onera mais o emprego e a renda.

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