Brasil Debate

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Fernando Nogueira da Costa

É professor titular do IE-Unicamp. Autor de “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012), ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2007). É colunista do Brasil Debate

 
Fernando Nogueira da Costa

Dependência de trajetória caótica

Como chegamos à depressão atual e ao fim da construção do Estado de Bem-Estar Social? A conjuntura resulta de um processo socioeconômico e político ainda em andamento, sem início preciso. Antes de junho de 2013, Dilma era aprovada por 2/3 do eleitorado

Primeira Lei dos Economistas: “para cada um, existe outro igual e contrário”. Segunda Lei dos Economistas: “ambos estão errados”. Essas são leis profissionais, pois estes representam castas de natureza ocupacional que têm conflitos de interesses entre si.

Recentemente, o Estado de Bem-Estar Social estava sendo construído no Brasil pela aliança entre a casta dos trabalhadores organizados e/ou sindicalizados e a subcasta dos sábios desenvolvimentistas. Apesar de vitoriosa em quatro eleições presidenciais seguidas, foi golpeada por uma aliança entre as castas dos mercadores-industriais-financistas, dos aristocratas oligárquicos regionalistas no Poder Legislativo e dos sábios do Poder Judiciário. Estas contaram com o apoio explícito da subcasta dos sábios neoliberais-midiáticos e da casta dos guerreiros-policiais federais.

Daí, em um viés heurístico de auto atribuição de sucesso (e de fracasso aos outros) ou auto validação ilusória, que leva a erros de avaliação, o debate plural no País foi interditado, na imprensa unilateral, pela crítica contumaz e recorrente ao que se apelidou de Nova Matriz Macroeconômica”. Esta foi a adoção pela diretoria do Banco Central do Brasil, no início do Governo Dilma, de uma “freada para arrumação” com uma macroeconomia prudencial exigente de maior capitalização dos bancos e menor alavancagem financeira. Depois, com a queda de preços das commodities a partir de setembro de 2011, adotou-se uma depreciação gradual da moeda, que conseguiu manter a taxa de inflação abaixo do teto da meta. Foi forjada com a “cruzada da Dilma” contra juros e spreads bancários disparatados. Tentou-se compensar o aumento do custo unitário do trabalho (CUT) e do custo dos insumos importados com desoneração fiscal e redução do preço da energia elétrica.

A “lua de mel” com a Presidenta, quando a função popularidade das medidas econômicas atingiu a política, levou sua aprovação a cerca de 2/3 do eleitorado. Porém, a “revolta dos vinte centavos” lhe custou muito caro. As jornadas de junho de 2013 foram detonadas um mês e meio após o Banco Central voltar a elevar a taxa de juro. Em nome de que?!

A quebra de oferta, condições climáticas atípicas, observadas em janeiro e fevereiro de 2013 – estiagem que se prolongou até o ano seguinte –, impactaram negativamente a produção de grãos e de produtos pecuários. Além disso, a escassez de chuvas contribuiu para que o ONS determinasse o acionamento de grande parte do parque termoelétrico. Tudo isso se refletiu no IPCA e motivou um falso alarmismo econômico pré-eleitoral que impulsionou a sanha da elevação da taxa de juro. Os investidores desprevenidos que foram pegos com títulos de dívida pública prefixados sofreram perda pelo efeito riqueza, isto é, marcação-a-mercado. O ódio político foi reflexo no coração da dor no bolso…

Oportunisticamente, nas “jornadas de junho”, a direita perdeu a vergonha e saiu do armário” em que se tinha metido desde o estertor da ditadura militar. A campanha eleitoral de 2014 começou um ano antes. Apesar disso, Dilma foi reeleita, pois a recuperação da economia pelo crédito anticíclico direcionado pelos bancos públicos levou à queda do desemprego tanto em 2013 quanto em 2014 para cerca de 6,5% da PEA, os níveis mais baixos de toda série temporal. Quanto a este objetivo principal da casta dos trabalhadores, a Nova Matriz Macroeconômica” obteve sucesso.

Porém, o novo mandato começou com o discurso de ajuste fiscal e a quebra das promessas do programa social-desenvolvimentista vitorioso na campanha eleitoral. Sob pressão da casta dos mercadores-financistas e aplausos da subcasta dos sábios-midiáticos neoliberais, Joaquim Levy representou a volta da “Velha Matriz Neoliberal” derrotada em quatro eleições (2002, 2006, 2010 e 2014): liberou geral.

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O choque nos preços administrados (alta de 18%) foi responsável por 38,4% da taxa de inflação de 10,87% em 2015. O repasse cambial representou mais 14,7% dessa taxa. O corte da capitalização dos bancos públicos pelo Tesouro Nacional e de incentivos creditícios e fiscais para investimentos levou à Grande Depressão. A taxa de desemprego mais do que dobrou, atingindo 13,5% da PEA. O PIB per capita caiu em termos reais de R$ 30.300 a preços de 2014 para R$ 25.700 em 2016. Caiu -4,6% em 2015 e -4,4% em 2016.

Com este “estelionato eleitoral”, a função política atingiu a economia. O locaute empresarial nos investimentos preparou o ambiente político propício ao golpe na democracia eleitoral. O vice-presidente golpista nomeou uma equipe econômica liderada pelo ex-presidente do Bank of Boston e pelo ex-economista-chefe do Itaú-Unibanco que implementam o programa governamental dos derrotados em 2014.

Quando a Segunda Lei dos Economistas estabelece que ambos os lados – “iguais e contrários” – estão errados, temos de considerar a economia como um Sistema Complexo. Sendo assim, o estado inicial da trajetória caótica que levou à atual conjuntura econômica não tem a possibilidade de ser completamente definido. Isto porque decisões ex-ante são registradas ex-post, isto é, a partir do “ponto de chegada” presente. A conjuntura econômica é composta de fatos transcorridos em um processo socioeconômico e político ainda em andamento – sem início preciso!

Há dependência de trajetória caótica quando se afasta progressivamente das condições iniciais. Esta imprecisão dos dados iniciais e os eventos políticos e econômicos interdependentes se refletem na qualidade da previsão que somos capazes de fazer sobre o estado futuro desse Sistema Complexo. Fora os aleatórios “cisnes negros”, na história não há eventos independentes. Por isso, não há condições de cálculo de probabilidades a respeito do futuro incerto. Os cenários são diversos e imprecisos.

Na realidade, não se consegue nem se diferenciar com precisão os pesos dos limites estruturais e a influência dos fatores conjunturais. Entre 2004 e 2016, a Agropecuária sofreu uma queda de 7,2% do PIB para 5,5% do PIB; a Indústria Geral queda de 28,6% para 21,2%; e os Serviços obtiveram elevação de 64,7% para 73,3%.  A “desindustrialização” – a Indústria de Transformação passou de 17,8% para 11,7% – foi de tal ordem que foi superada pelo Comércio com sua elevação de 7,7% para 12,5% e ameaça até ser superada por Serviços Financeiros: elevação de 6,5% para 8,3%.

Esta Grande Depressão não tem o ônus social repartido igualmente. Nela, se intensifica o conflito distributivo com a queda das participações na renda das castas produtoras e o crescimento das participações na renda das castas dos mercadores-financistas. Como reagirão as castas dos trabalhadores e dos sábios desenvolvimentistas na eleição do próximo ano? Elas se aliarão, novamente, à subcasta dos mercadores-industriais que apoiaram o golpe de Estado? Terão condições de ganhar a eleição isoladamente? E, no caso de vitória, conseguirão governar com maioria no Congresso?

Crédito da foto da página inicial: EBC

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2 respostas to “Dependência de trajetória caótica”

  1. Clever Mendes de Oliveira disse:

    Fernando Nogueira da Costa,

    Li há mais tempo o seu texto e fiquei enciumado. Como eu gostaria de ter capacidade de ter escrito um artigo assim. Hoje lendo o seu bom artigo “Advogado do diabo em defesa da ‘desindustrialização’” que saiu publicado no blog de Luis Nassif no post “Advogado do diabo em defesa da ‘desindustrialização’, por Fernando Nogueira da Costa” de sexta-feira, 14/07/2017 às 07:00, resolvi vir aqui até o seu blog não só para elogiá-lo por mais um bom artigo como também para recordar este seu outro artigo “Dependência de trajetória caótica” de 12/04/2017 às 09:44.

    E que como seu eu gosto de ressaltar faço um elogio sem ares de superioridade até porque nem mesmo economista eu sou. E talvez por não ser economista há trechos que eu não compreendi.

    A minha primeira dúvida diz respeito a frase transcrita a seguir:
    “Esta foi a adoção pela diretoria do Banco Central do Brasil, no início do Governo Dilma, de uma “freada para arrumação” com uma macroeconomia prudencial exigente de maior capitalização dos bancos e menor alavancagem financeira.”

    Primeiro, só pela gramática eu entendi o uso de “Esta”. Em princípio “Esta” se refere ao que vem para a frente e não ao que ficou no passado. O que vem pela a frente é “adoção pela diretoria . . . de uma freada para arrumação”. Eu concordo que houve essa freada de arrumação, mas não entendi a correlação dessa frase com a anterior.

    Dai em diante se não fosse a diferença do seu belo estilo comparado com a minha falta de estilo e o uso preciso dos termos, eu diria que você copiou minhas críticas às críticas que Luis Nassif fazia à política econômica do governo da ex-presidenta às custas do golpe Dilma Rousseff.

    Faltou é verdade você mencionar como eu sempre mencionava, o artigo “Fiscal Devaluation” que eu vira indicado por Antonio Delfim Netto no artigo dele no jornal Valor Econômico intitulado “É o câmbio, é o câmbio…” e que saíra no blog de Luis Nassif com o título “O euro e homogeneidade de interesses, por Delfim Netto” de terça-feira, 31/01/2012.

    Reclamo também, como tenho reclamado desde quando os números (O Boletim das Contas Nationais trimestral do IBGE) informaram-me essa realidade, de você não ter feito menção aos três trimestres de crescimento expressivo dos investimentos: 4º de 2012, 1º e 2º de 2013, e a queda no 3º trimestre também de modo expressivo.

    Creio também ter lido no Valor Econômico alguma referência a reunião que Alexandre Tombini teve nos Estados Unidos e que o levou a iniciar a subida do juro. Subida do juro que no Brasil era recomendada por Chico Lopes que pressentia um crescimento dos investimentos em taxa mais alta do que a que era então mencionada.

    E na sua referência a Joaquim Levy, pareceu-me que você não foi justo com Joaquim Levy, com a ex-presidenta às custas do golpe Dilma Rousseff e com você próprio se se toma como referência seu excepcional artigo “Tática fiscalista e estratégia social-desenvolvimentista” que foi publicado também no blog de Luis Nassif com o mesmo título acrescentando apenas seu nome: “Tática fiscalista e estratégia social-desenvolvimentista, por Fernando N. da Costa” de quarta-feira, 03/12/2014 às 16:04.

    Não me cansei em mencionar esse seu artigo sempre que me sentia sozinho na defesa da política econômica do segundo governo da ex-presidenta às custas do golpe Dilma Roussef. Defesas na quais eu ainda fazia referência às circunstâncias específicas de pressões pela desvalorização da moeda que ocorrera em três momentos distintos do segundo governo da ex-presidenta às custas do golpe.

    Aliás foram quatro momentos. O primeiro momento em fevereiro de 2014, ainda no primeiro governo e que não chegou a atingir o Brasil, e o que levou um blog do Financial Time a colocar o presidente do Banco Central do Brasil como um dos três presidentes de Bancos Centrais líderes, ao lado dos presidentes apenas seguidores e dos presidentes Mavericks.

    Os outros três momentos a partir da passagem do terceiro para o quarto trimestre de 2014, quando há forte queda dos preços de commodities. Queda que volta a ocorrer na passagem do primeiro para o segundo semestre de 2015. E há um terceiro momento com forte desvalorização das moedas dos países emergentes e que ocorrera em janeiro e fevereiro de 2016, após a primeira elevação dos juros nos Estados Unidos em dezembro de 2015 e com a promessa de quatro elevações em 2016 e que, no entanto, não se concretizaram. Daí que desde então houve forte recuperação das moedas de periferia.

    Interessante que acompanhando a desvalorização do rublo e do real desde janeiro de 2011, sem levar em conta o que aconteceu com o câmbio nos dois países comparativamente nos seis primeiros meses de 2011, pode-se dizer que até 2013 o Brasil conseguiu para o real uma desvalorização maior do que a desvalorização do rublo.

    E de 2014 a maio de 2016, a Rússia sofre uma desvalorização maior de tal modo que em maio de 2016, as duas moedas estavam novamente no mesmo patamar quando se considera o início do ano de 2011 como referência. Trata-se de um levantamento que eu fiz há mais tempo e não voltei a ele e nem mesmo levei em conta a diferença de inflação no período entre os dois países.

    Ressalto apenas que também há um bom tempo lendo o post “Putin v. Obama: It’s the Economy, Stupid” de quarta-feira, 14/09/2016, de autoria de David Glasner no blog dele Uneasy Money, vi um comentário dele de quarta-feira, 14/09/2016 às 05:33 pm, em que ele fazia uma estimativa de queda do PIB na Rússia em 2015 de 3,75%, ou seja, um valor bem próximo do que ocorrera com a nossa economia no mesmo ano.
    Chamo atenção para as coincidências porque ela ocorre em países em situação bem distinta. A Rússia não teve a jornada de junho de 2013, nem Putin teve ou tem tão pouco apoio parlamentar de não conseguir obter um terço dos votos como a ex-presidenta às custas do golpe não conseguira.

    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 14/07/2017

  2. Renato Dagnino disse:

    didatico e bem humorado: muito bom!
    ha uma casta q nao foi citada mas q tambem vota e cuja acao pode ser decisiva num confronto mais pesado.
    trata-se dos 160 milhoes da PIA q nao estao na PEA e q mto dificilmente poderao vir a ter carteira assinada.
    ela nao aparece nas analises dos economistas de esquerda e mto menos na lista dos destinatarios das politicas publicas dos governos q eles têm apoiado.
    por dedicar-me ao tema da economia solidaria (e da tecnologia social), q teria q ser o foco de um estado de bem-estar de novo tipo, q apontasse para uma sociedade mais igualitaria, eu a tenho colocado no centro de minha preocupacao.
    gostaria q vc, Fernando, nos falasse um pouco sobre o tema.
    abraço,
    Renato Dagnino

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