Brasil Debate

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Luís Fernando Vitagliano

É cientista político e professor universitário. É colunista do Brasil Debate

 
Luís Fernando Vitagliano

De panela cheia e discurso vazio

Sem fatos claros, o que justifica o fim do governo? Sua impopularidade? Ou o número de panelas batendo depois do discurso oficial em rádio e TV? A oposição joga para mobilizar manifestações contra uma suposta paralisia ou incompetência do governo

Qual é o projeto da oposição para o Brasil? Desta oposição que não diz, mas corrobora com o pseudo golpe engatilhado. O que querem para o País? Por que se mobilizam? Para limpar-nos da corrupção? De toda a corrupção? Ou é basicamente livrar-se do PT? Se for isso, simplesmente por sumir o partido, daí nasce um novo Brasil?

Certamente é consenso que panelaço não é discurso. Seja como protesto, seja como estratégia. Por isso, a pergunta que importa não é quantas pessoas estarão na rua no domingo, mas por que questões mais gerais não aparecem no discurso da oposição, por exemplo, sua estratégia e sua crítica para o debate do crescimento econômico? Para isso vamos aumentar a concentração de renda e riqueza ou não? Propõe cortar gastos em infraestrutura e investimentos sociais?

E a Petrobrás, a saída é privatizá-la? Assim como o Banco do Brasil e a Caixa? Deve retomar o alinhamento com os EUA e União Europeia ou manter o investimento que o governo vem fazendo na parceria com os BRICs? Será que no domingo se defenderá a criação do dia do Orgulho Hetero como alguns dos seus têm dito? E vai acabar com cotas, bolsas e aumentar a pobreza e a miséria?

Será que a oposição quer combater ou ignorar o fisiologismo político e sua dependência do capital econômico? Ou vai fazer como sempre fez? Ignorou… Vai separar pobres de ricos e manter a ordem da servidão? Ou propõe rever tudo que praticou em defesa da família, propriedade e tradição? A quem serve o panelaço e o discurso do ódio?

Sejamos claros, para discutir os problemas de conduta irregular e os desvios de dinheiro, temos leis, instituições independentes, estruturas e investigação. Nada está sendo censurado, obstruído ou pressionado para ser encoberto. Pelo contrário, há uma pressão enorme por esclarecimentos e transparência. Este é um Estado de direito. Mas, quem vai julgar os desvios na Petrobrás, ou o quer que seja, deve ser o Supremo Tribunal Federal; não as elites econômicas, a oposição ou a imprensa.

Não serão e não podem ser os protestos vindos da varanda dos prédios ou a queda de popularidade do governo que vão nos levar ao impedimento da presidenta. Cabe ao judiciário responder com neutralidade aos casos de desvios de conduta ou descumprimento da lei.

Mesmo porque a vitória de Dilma e do PT foi constituída já com a operação Lava Jato em curso e as denúncias e debates sobre a Petrobrás com o agravante de vazamento de informações ou, como querem os mais exaltados, com criação de falsos factoides.

Quanto a isso, ninguém foi pego de surpresa em relação ao problema da Petrobrás com as empreiteiras. A partir dos resultados das urnas, respeitados os processos da democracia, isso não foi visto pela maioria da população como suficiente para destituir Dilma da Presidência. Pelo contrário: votou-se majoritariamente por sua recondução.

E não foi o nome da presidenta o envolvido nas delações. Pelo contrário, o mencionado nos noticiários de hoje é o nome do seu principal concorrente. Exatamente o contrário do apresentado por uma revista semanal que circulou como panfleto antipetista em outubro.

É óbvio que agora, depois das urnas, há uma nova cruzada antigoverno. Desta vez mais perigosa e mais arriscada, porque também é uma investida contra o Estado democrático de direito: a oposição tenta um processo de judicialização da política para paralisar o governo e suas ações, seja para defini-lo como incapaz, incompetente, seja para aplicar o golpe de impedimento da presidenta.

Sem fatos claros, o que justifica o fim do governo? Sua impopularidade? Ou o número de panelas batendo depois do discurso oficial em rádio e TV? A oposição joga para mobilizar manifestações contra uma suposta paralisia ou incompetência do governo.

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Mas o apelo é ridículo: nunca antes na história desse País vídeos amadores de janelas (numa proporção pouco significativa em termos numéricos) representou tanto para a grande mídia. Para desestruturar o governo, a oposição é quem força a impressão de paralisia. Fica a impressão de que o País está sem rumo e que a única alternativa digna é tirar o PT do governo. É uma estratégia, que mais uma vez não mostra nenhuma proposta.

A pergunta real e que importa é: qual é o projeto dessa oposição para o Brasil? Se partidos e políticos que a representam são tão bons assim, por que não defenderam seu plano de governo e por que não foi vitorioso em outubro passado? Por que a única via de ação da oposição é responsabilizar o PT por todos os contratos ilícitos encontrados, tenha o Partido envolvimento ou não?

A oposição, afinal, tem projeto para além das panelas e passeatas?

A resposta a essa pergunta é mais maliciosa que se possa parecer. Sim, a oposição tem projeto. Mas não, não pode dizê-lo claramente. Não pode dizer claramente porque o projeto da oposição é antidemocrático, concentrador de renda e riqueza, imperialista e sectário.

Por isso é necessário tratar da Petrobrás, de corrupção ou de qualquer tema que não venha a discutir os encaminhamentos de governo. Porque o debate estéril sobre desgoverno é útil para atacar o projeto vencedor e tirar de foco verdadeiro projeto derrotado em outubro passado.

Obviamente a corrupção deve ser debatida, atacada e criticada. E deveria ser tratada a partir inclusive de uma ação suprapartidária. Mas, esse debate não interessa à oposição. Não como uma questão séria e republicana. São seletivos nos processos e nas críticas e tendo como alvo sempre o governo federal.

Não preciso gastar muitos argumentos para defender o que foi exposto. No cerne da corrupção deflagrada com o Lava Jato está a relação entre uma estatal e empresas privadas para o financiamento de campanha. Na proposta de reforma política que os partidos fisiológicos e de oposição defendem está a legitimação do financiamento privado de campanha.

Uma reforma política com vistas a combater a corrupção não pode ser a mesma que propõe a oposição porque é oposta à redução e combate a corrupção. E os políticos da oposição sabem disso. Mas, se a imprensa não noticia essas relações, o eleitor dito esclarecido acredita que ao atacar o PT está defendendo a ética.

Mais uma vez, não interessa o debate sério e de propostas. Mesmo porque, toda vez que fica claro o projeto de poder da oposição, suas propostas e seus interesses, ela é derrotada pela democracia. Porque suas ideias são ainda de um Brasil colonial, de dominadores e senhores de engenhos donos de casa grande circunscrita na desigualdade social e à custa de desvalorização, de precarização e de desregulação do trabalho dos mais pobres.

Crédito da foto da página inicial: Roberto Brilhante/ Carta Maior

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4 respostas to “De panela cheia e discurso vazio”

  1. […] me resta sugerir que  continue avaliar o assunto sob óticas mais intelectuais/ especializadas  http://brasildebate.com.br/de-panela-cheia-e-discurso-vazio/  ,  que fique estudando, quieto e concentrado, aumente o seu cabedal de conhecimentos e acalente o […]

  2. Tiago Silva disse:

    Frederico, acho que você se engana com os objetivos dessa oposição que lidera essas novas “marchas da família”… mas que se resumem a algo maior que uma simples marcha “anti-PT”. Explico:

    Acho que o governo tem a chance de corrigir o que não foi feito no passado (inclusive num passado que é muito parecido com o que ocorre hoje no Brasil): Realizar uma nova série de “Reformas de Base” para realmente melhorar o Brasil e diminuir a desigualdade e outros problemas… e assim caminharmos à índices de países desenvolvidos – espero que a mídia e os que ganham com a desigualdade, 1%, dessa vez deixem… sob pena de vir um partido novo Syriza e as faça!!! Acho também que foi totalmente descabida a comparação dos movimentos de Diretas Já e os movimentos de Junho de 2013 (que começaram por um aumento da passagem em 20 centavos)… com a marcha que ocorreu 15/03!!! Simplesmente porque o público não era o mesmo!!!

    Esta “marcha anti-PT” apenas se assemelha com a “marcha da família” que ocorreu em 1964, também incentivada por uma mídia e quem lucra com a desigualdade no Brasil, temerosos e em reação a possíveis mudanças (REFORMAS: Política com proibição de financiamento empresarial, Tributária que aumente a progressividade de impostos diretos, urbana, agrária, educacional, saúde, administrativa, mídia) que podem vir a ocorrer (e que esses conservadores de ontem e hoje não querem que ocorra… ou ocorra com a cara deles – PMDB, PP, PSDB, PR – para apenas legitimar os privilégios e desigualdades que existem no Brasil e que já foram motivo de reformas desde o começo do século passado nos países desenvolvidos)!!!

    Espero que essa promoção do ódio ao “anti-PT” (e que até faz cegar contra a corrupção de todos partidos, pois quase não se fala em proibição de financiamento empresarial de campanhas – medida que combateria a corrupção em todos os partidos)… não faça que essa parte da classe média (e que ganhou muito nos governos PT, principalmente empresários) não perca uma oportunidade de tornar o Brasil próximo dos melhores países de se morar (como países da Escandinávia), mas para isso essa parcela da população tem que se conscientizar que muita coisa por que está lutando atualmente (como foi na “marcha da família” em 1964), pode funcionar apenas para manter as desigualdades existentes e postergar por ainda mais tempo as Reformas que o Brasil precisa fazer para se almejar ser desenvolvido!!!

    O combate à corrupção é muito importante e não podemos estar cegos de ódio para a corrupção de APENAS um partido, mas para combater a impunidade de qualquer político e de qualquer partido político. Cuidado para que achando que está lutando para melhorar a corrupção… não se esteja lutando (para os conservadores) para que se legitime as desigualdades, impunidades e injustiças. Relembrando que sempre que o Salário Mínimo se eleva… isso incomoda muita gente que ganha com a desigualdade. Aliás, apenas relembrando, o Índice de Gini (índice que mede a desigualdade e quanto mais próximo de 1… mais desigual será o país) no Brasil foi de 0,53 em 1960 (e João Goulart queria realizar as “Reformas de Base” para diminuir ainda mais essa desigualdade), na Ditadura Militar ampliou-se essa desigualdade e chegou a 0,64 em 1988, no período FHC caiu bem pouco de 0,6091 a 0,5957… mas foi neste governo, que concordo também teve muitos erros, que a desigualdade caiu de 0,597 a 0,5190!!! E realmente… muita gente se incomoda com a possibilidade de não ser beneficiário dessa desigualdade brasileira que ainda é uma das maiores do mundo!!!

  3. Leonardo Bruno Alves da Silva disse:

    Desculpa Frederico mais discordo completamente de você!! A sua oposição não esta preocupada em erradicação da fome e da pobreza. Vocês da Direita estiveram no poder de 1500 a 2002 e só criaram as grandes mazelas da nossa população da qual o PT nos ultimos 12 anos minimizou. Do ponto de vista econômico este governo fez muito pelo país, contruiu bases solidas o que nos fez passar por duas crizes mundiais ilesos, garantindo renda e emprego. Agora são necessários ajustes para o país voltar a crescer. A corrupção esta sendo apurada, nunca tivemos tantas investigações e corruptos e corruptores sendo prezos e punidos nestes 12 anos de governo de PT. Na epóca em que sua oposição esteve no poder quantas foram as investigações conduzidas pela PF e foram até o final, todas eram engavetadas.
    Vocês pregam a reforma politica mas o projeto da sua oposição não preve o fim do financiamento de campanha por empresas, e convenhamos que o que esta acontecendo na Petrobras esta relacionado a isso e todo o tipo de corrupção na nossa politica.
    Minha reflexão sobre estas manifestações são que quem foi para a rua não sabe perder e de reconhecer a derrota nas urnas no ano passado. Como aquele menino mimado dono da bola que quando perde leva a bola do jogo embora.

  4. Frederico disse:

    Qual é o projeto? Eu é que te pergunto, qual é o projeto anticorrupção que a dilma prometeu em 2013 e nada fez até agora? Essa história de que a oposição fala sobre homofobia e outros tipos de discriminação, somente sai da boca de petistas e simpatizantes. Não conheço ninguém que queira qualquer discriminação de qualquer espécie. O que a oposição quer é exatamente o que os petistas pregram. A grade diferença é que nós não acreditamos no PT.

    Não tente separar esta extensa lista de corrupção do PT, queria você ou não, PT faz parte.

    O projeto da oposição é a reforma política, reconstrução da Petrobrás, erradicação da pobreza e da fome, melhoria da economia, melhoria da saúde pública e da educação, como eu disse, a mesma coisa que o PT prega.

    Ah, faltou uma, ter certeza que nunca mais um político do PT seja eleito. Sim, ninguém quer impeachment, este fardo pertence ao PT e ele deve carregá-lo até 2018.

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