É necessário traduzir o que significa fascismo concretamente para a vida das pessoas. É preciso dizer que Bolsonaro odeia pobres, negros, índios e mulheres, que vai acabar com o 13º e com as férias, com as aposentadorias, com o ensino das escolas, com a saúde etc.
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Brasil Debate

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Marcelo Zero

É sociólogo, especialista em Relações Internacionais e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI). É colunista do Brasil Debate

 
Marcelo Zero

Dá para virar


08/10/2018

Publicado no Brasil247

Os resultados do primeiro turno, embora chocantes para alguns, face ao crescimento de última hora da candidatura fascista, não chega a ser surpreendente, se levarmos em consideração alguns fatores básicos:

1) O principal candidato transformou-se em preso político e foi impedido de concorrer e de falar.

De fato, caso Lula pudesse ter concorrido, como exigiu a ONU, a eleição já poderia ter sido definida em primeiro turno, a favor do PT. Lula, nas últimas pesquisas tinha cerca de 44% das intenções voto. Com ele na disputa, Bolsonaro não passava dos 20%. Lula poderia ter facilmente ganhado a eleição em primeiro turno, “puxando” consigo muitos candidatos a outros cargos eletivos. A situação seria hoje completamente diferente. O Judiciário, dessa forma, deu contribuição inestimável para ascensão do fascismo no Brasil.

2) A criminalização da política promovida pela dobradinha Mídia/Lava-Jato enfraqueceu os partidos tradicionais e destruiu o centro político, favorecendo a opção da extrema direita.

O enfraquecimento dos partidos políticos tradicionais, principalmente os do mal chamado centro, já era esperado. Contudo, tal enfraquecimento foi além do esperado e, na reta final da campanha e, especialmente, no dia da eleição, quando muita gente define o voto, houve intensa migração dos votos da direita tradicional para Bolsonaro.

Os votos da direita, pelas últimas pesquisas, somavam algo em torno de 60%. No dia eleição, ficou em torno de 57%. Não houve, portanto, um aumento do voto da direita. O que houve foi uma transferência maciça, de última hora, da direita tradicional para Bolsonaro. Assim, Alckmin definhou de 8% ou 9% para menos de 5%, Marina despencou de cerca de 4% para 1%; Meirelles caiu de 2,5% para 1,2% etc. Ademais, deve ter havido também um efeito band wagon, a tendência das pessoas de votarem no candidato mais bem colocado “para não desperdiçar o voto”.

Por seu turno, o campo progressista (Haddad, Ciro, Boulos etc.) não perdeu votos na reta final. Haddad, por exemplo, chegou a quase 30%, superando muitas estimativas.

Mesmo com toda a campanha de ódio e a prisão política do melhor presidente da história do país, o PT fez a maior bancada na Câmara Federal, mesmo perdendo 5 parlamentares da bancada atual, e participa, pela sexta vez, cinco vezes de forma consecutiva, do segundo turno das eleições presidenciais. Afora as segundas colocações que conseguiu em 1994 e 1998.

Ou seja, desde a redemocratização, o PT ou é primeiro ou segundo colocado nas eleições. Repetiu essa proeza por 8 vezes, desde 1989.

Nenhum partido conseguiu isso na história do país. Ante as circunstâncias, extremamente difíceis, não deixa de ser uma façanha política de resistência e resiliência.

Por outro lado, os partidos do golpe perderam bem mais que o PT, ficaram de fora da disputa do segundo turno e se transformaram, no máximo, em siglas médias, medíocres. O MDB, por exemplo, despencou de 66 deputados para 34. E o PSDB colapsou de 54 deputados para 39.

3) A crise política-institucional e econômica, criada basicamente pelo golpismo, tende a estimular candidaturas “alternativas” que propõe “soluções” simplistas e de força, como prisão, armamento, destruição de direitos, autoritarismo etc.

Isso ocorre no mundo inteiro. No Brasil não é diferente. A diferença aqui é que a mídia, o Judiciário e os partidos tradicionais cevaram o ovo da serpente do fascismo (algo que jamais aconteceria na Europa), com intuito de derrotar o PT. Agora, o país e sua democracia pagam um preço altíssimo por essa tática suicida e oligofrênica.

4) Parece que houve e há ingerência externa nas eleições, com o intuito de beneficiar Bolsonaro.

O crescimento de Bolsonaro não pode ser dissociado da intensa e extensa campanha suja de fake news disseminada nas redes socais contra Haddad e outros candidatos progressistas. Trata-se, evidentemente, de uma tática da chamada guerra híbrida, promovida pelas agências de inteligência norte-americanas, em conluio com empresas privadas, como a Cambridge Analytica, para manipular fortemente a opinião pública. A campanha de Bolsonaro, que não tem sofisticação e articulação, deve estar recebendo apoio técnico e logístico para efetuar essa campanha suja a seu favor.

5) As candidaturas do campo progressista falharam em traduzir o que concretamente significa fascismo para o “povão”

A crítica contra o fascismo à homofobia, ao racismo, à misoginia etc., embora acertada, repercutiu num eleitorado que já não ia votar em Bolsonaro de qualquer forma. Faltou conquistar um eleitorado que não sabe concretamente o que isso significa.

Portanto, é necessário traduzir o que significa fascismo concretamente para a vida das pessoas. É preciso dizer que Bolsonaro odeia pobres, negros, índios e mulheres, que vai acabar com o 13º e com as férias, com as aposentadorias, com o ensino das escolas, com a saúde etc.

Além disso, é necessário dizer que ele é acusado de corrupção, que ele é um político tradicional que sempre participou do sistema e nunca fez nada que prestasse, que é um entreguista que bate continência à bandeira americana, que vai entregar a Base Alcântara e o petróleo, que vai vender a Embraer à Boeing, etc.

Bolsonaro é um fenômeno emocional, sem consistência e sem propostas. Ele é uma cria bastarda do golpismo que tomou conta do Brasil. Já foi definido até, por um jornal australiano, como “o político mais repulsivo do mundo”.

Há, pois, esperança. Se todas as forças progressistas se unirem, inclusive aquelas do centro, e a campanha for bem feita, há, sim, condições de derrotar o “político mais repulsivo do mundo”, que envergonhará o Brasil perante o planeta.

Cerca de 40 milhões pessoas não votaram ou votaram branco ou nulo. Há muito potencial para angariar votos.

Se deixarem Lula falar e participar da campanha, como a ONU exige, a tarefa de derrotar essa ameaça gravíssima à democracia brasileira será muito mais fácil.

Não é hora de ambiguidades e hesitações. Todos os que têm um mínimo de racionalidade sabem bem que Bolsonaro seria um completo desastre. Desastre político, social e econômico. É completamente despreparado e não reúne as condições para reconciliar o Brasil. Ao contrário, com ele, a crise se agravará muito.

A História não perdoará os covardes e os omissos.

Crédito da foto da página inicial: Ricardo Stuckert

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2 respostas to “Dá para virar”

  1. Fernando Ribeiro disse:

    Perfeito! Ou quase perfeito.

    Tópico número 1, sim, faz sentido.

    Número 2, certo.

    3. Sim, mas as tentativas de seduzir a classe média com subsídio ao preço dos combustíveis e as desonerações também atrapalharam, além do que veio de fora (a “marolinha”)

    4. Sim, alguma dúvida?

    5. Sim, falharam. Nem sei se é preciso enquadrar esse pacote de verdades sobre o Bolsonaro num conceito singular como fascismo. O “povão” não tem como receber facilmente esse conceito, por falta dos requisitos cognitivos.

    Dentro do pacote, é preciso hierarquizar as verdades eleitoralmente mais efetivas.

    É preciso dizer que Bolsonaro odeia pobres, negros, índios e mulheres, que vai acabar com o 13º e com as férias, com as aposentadorias, com o ensino das escolas, com a saúde etc.
    Além disso, é necessário dizer que ele é acusado de corrupção, que ele é um político tradicional que sempre participou do sistema e nunca fez nada que prestasse, que é um entreguista que bate continência à bandeira americana, que vai entregar a Base Alcântara e o petróleo, que vai vender a Embraer à Boeing, etc.
    Sim, certo! Mas para quem, em que ordem, quando, e sobretudo, de que modo? Com quais palavras, sons e imagens? Os publicitários da campanha do PT são fracos. Basta lembrar daquela ideia de girar a imagem para representar o giro da economia para ver que são fraquinhos.

    Alguém precisa encontrar os modos agudos, contundentes, de dizer essas coisas. Com o modo certo, simples e perfeito, tenho certeza de que até mesmo uma boa parcela de eleitores de Bolsonaro passaria para o Fernando Haddad.

    Por último, uma coisa que faltou no pacote: a homenagem do Bolsonaro ao coronel Ustra na votação do impeachment, e a do Mourão na entrevista à GloboNews. Ele disse que o Ustra é um herói. Quando alguém lembrou que o coronel matou dezenas de pessoas, ele disse “Heróis matam”. E ninguém disse nada! Silêncio total. Quietos, todos -eram uns oito – quietinhos. E mudaram de assunto. Ninguém se ergueu dizendo: “Não general, não. Heróis matam em combates de vida ou morte. Heitor e Aquiles foram heróis. Não é heroico matar em salas de tortura com porradas e chutes no rosto de uma pessoa indefesa. O senhor tem orgulho do Ustra? Ele é um herói do Exército Brasileiro? Devemos ensinar isso às crianças?” Etc.

    O conteúdo desse parágrafo não é melhor do que os itens do pacote citado acima. É menos eficaz do que vários deles. Todavia, com as palavras e imagens certas, sem Homero, para o público certo, poderia converter votos.

    Saudações, obrigado por ler. F

  2. jorge w klafke disse:

    Ou seja, fazer campanha como esquerda,como candidato que defende o Lulismo. Não como
    alguém apenas interessado no butim dos votos de Lula. Acenando aos bancos e ao capital, vai fazer menos votos no segundo turno.

Comentários