Brasil Debate

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Fernando Nogueira da Costa

É professor titular do IE-Unicamp. Autor de “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012), ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2007). É colunista do Brasil Debate

 
Fernando Nogueira da Costa

Crítica à teoria convencional do consumo e da poupança

A heterodoxa finanças comportamentais sugere que o consumo compra felicidade por algum (pouco) tempo, mas logo surgirão novos anseios, enquanto se acostuma com rapidez ao que se possui como algo natural. Em vez de dar ‘soberania’ ao consumidor, o consumo o escraviza

Economistas ortodoxos criticam os autores heterodoxos porque, supostamente, subscreveriam o modelo de formação de hábito, que sugere que o consumo não responde às elevações da renda que sejam percebidas como permanentes, como sugerido pelo modelo tradicional. Os “dissidentes da corrente principal” (sic) achariam que há um componente do consumo associado ao hábito.

Na verdade, hábito é muito distinto do impulso emocional que a heterodoxia contemporânea pesquisa. O desejo de consumo pode ser comparado a um novo caso de amor narcisista: se ver belo aos olhos de outro. Quem disse isso foi o sociólogo inglês Colin Campbell, estudioso das mudanças culturais, religiosas e sociológicas do consumo no livro “The romantic ethic and the spririt of modern consumerism”.

“A base da atração é a novidade. As pessoas se enamoram por quem não conhecem. Ninguém se apaixona por um velho conhecido. Sabe por que? É preciso encontrarmos um estranho para projetarmos o sonho, o que desejamos, mas não temos. Trata-se do mesmo sentimento de novidade que induz ao consumo. (…) O que você comprou ou viveu nunca será exatamente como idealizou. (…) O realizado perde a sensação de novidade. É como uma relação de amor. (…) O ser humano é insatisfeito, precisa tentar sempre”.

Quando alguém vai ao shopping center, ao invés de consumir bens, em sua opinião, consome experiências. A experiência nada mais é do que a sensação que a compra lhe dá. Através do consumo, as pessoas conquistam novas experiências, uma vivência diferente, uma nova sensação. Não compram bens, compram novidades. Ficar na moda não é suprir a necessidade de vestir, mas sentir a novidade que aquela determinada roupa proporciona. Da mesma forma ocorre no consumo de turismo: quando se procura um lugar ao qual nunca se foi, está se buscando uma novidade, uma nova sensação.

Segundo Campbell, “a maior parte da teoria econômica não tem muito o que dizer sobre o consumo, apenas aborda a questão da produção. Assume apenas que as pessoas têm necessidades de consumo. Tudo que os economistas acham importante saber é se há recursos para satisfazê-lo ou não. Eu me preocupei com os problemas que os economistas não analisam, que é de onde vêm os desejos, como eles são criados. (…). Na sociedade moderna, a maior parte dos nossos recursos não é destinada àquilo que precisamos e sim ao que queremos. (…) É do desejo que estamos falando”.

Ele tem uma percepção de que o simbólico é fundamental, na economia. A heterodoxia atual faz uma certa “culturalização” da Economia, projetando no campo simbólico problemas comuns à Psicanálise, à Antropologia e à Economia.

A heterodoxa Finanças Comportamentais sugere que, embora comprar possa trazer felicidade, por algum (pouco) tempo, a habituação com a posse a dissipa. Se determinados anseios estão satisfeitos, logo surgirão novos, enquanto nos acostumamos com rapidez ao que possuímos como algo natural. Consumidores compram coisas de que não precisam, a fim de impressionar gente das quais não gostam, com dinheiro que não têm.

O consumo, que pela teoria econômica convencional deveria enobrecer, dando “soberania” ao consumidor, acaba o escravizando. Mas há pessoas que reduzem a marcha, desistem da corrida por discutível status social, efeito demonstração da classe ociosa. Esta esnoba que não necessita trabalhar como os pobres, tendo tempo livre e muito dinheiro para se dedicar a consumo exclusivo. Já consumidores conscientes passam a consumir menos sem receio de serem vistas com desdém, escapando desse círculo vicioso de gastos excessivos.

A heterodoxa Psicologia Econômica sugere a distinção do consumo supérfluo, passível de ser cortado em época de crise com queda de renda real ou ameaça de desemprego:

1.Bens da moda: desejados porque outros já os possuem, ligados à inveja infantil de querer ter igual aos outros.

2.Bens esnobes: desejados porque os outros não os possuem, relacionado ao desejo adolescente de ser diferente, exclusivo, de se “destacar da multidão” pelo gosto peculiar.

3.Bens de consumo conspícuo: desejados na medida em que são facilmente notados e reconhecidos como caros.

Bens básicos, ao contrário, são indispensáveis, ou seja, atendem às necessidades indispensáveis para uma boa vida, de modo que qualquer pessoa que não os possua tem perda ou danos sérios. Eles não são avaliados por estatística, pois são objetos de discernimento, não de medição. São bens essenciais por propiciar qualidade de vida, não são avaliados pela quantidade de sua propriedade:

1.Saúde: sem ter impedimento do corpo por doença ou carência alimentar;

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2.Segurança: ter uma vida sem perturbação por violência física ou financeira;

3.Personalidade: possuir espaço privado ou exclusivo para se assumir;

4.Respeito: mútuo, tolerância, civilidade;

5.Harmonia com a natureza: ter sensações fora da sobrelotação urbana;

6.Amizade: afeto desinteressado, com igualdade e solidariedade;

7.Lazer: atividade criativa em lugar de trabalho alienante.

A tradicional teoria do consumidor sempre examina o consumo como uma contrapartida da poupança. Acredita que todos os agentes homogêneos usam uma racionalidade geral na abstenção do consumo presente para propiciar melhores condições de consumo futuro, isto é, com a chamada “poupança”.

O mais problemático dessa tradicional Teoria do Consumo e da Poupança é que ela se baseia em suposto comportamento uniforme da família individual. Quando vai se fazer uma generalização macroeconômica, surge um sério problema da agregação, e não é só porque há diferentes propensões marginais a consumir individuais, devido a gostos distintos e estágios diferentes do ciclo de vida. Trata-se do conhecido Paradoxo da Parcimônia: o corte generalizado de gastos em consumo resulta em menor poupança.

Pela teoria convencional, quanto maior o número de pessoas em idade de trabalho em relação às pessoas muito jovens ou muito idosas (“bônus demográfico”), maior seria a taxa de poupança de um país. Isso, evidentemente, dependeria da comparação entre a riqueza dos jovens “poupadores” e a riqueza dos idosos “despoupadores”. Mas, de acordo com a heterodoxia, não é da distribuição etária da população que dependeria a taxa de poupança macroeconômica. Em sua visão holista, o crescimento econômico, ou seja, a velocidade do aumento da renda face ao ritmo padrão do consumo mensal em gastos rotineiros (e essenciais) que é o fundamental para o registro contábil, residual e ex-post da poupança.

A heterodoxia opta por diferenciar entre investidores e poupadores. Os primeiros fazem um planejamento financeiro. Os “poupadores” simplesmente constatam se há sobra de “renda”, na verdade, saldo monetário, depois de satisfação de todas as necessidades e os desejos consumistas. Pessoas de baixa renda, em geral, apenas guardam, eventualmente, alguma “sobra de dinheiro” para gastar mais adiante. Investir exige educação financeira, receber renda suficiente, e abdicar do prazer de consumir.

O estudo de Finanças Comportamentais oferece uma alternativa ao modelo do ciclo de vida, pois ensina que, na fase de acumulação de recursos e planejamento de sua aposentadoria, os “poupadores”, em geral, acham que serão capazes de ter aposentadoria confortável, mas não sabem responder quanto vão precisar aplicar, periodicamente, para alcançar esse conforto esperado. Como não conseguem saber de quanto vão precisar, mas confiam que vão conseguir, em geral, aplicam menos do que necessitariam. Esse fenômeno é chamado de miopia, pois faz com que os “poupadores” não consigam enxergar o problema que estão criando para seu próprio futuro.

Em termos individuais, a falta de recursos para o futuro pode ser a consequência da falta de planejamento e controle dos “poupadores”, aqueles que recebem renda suficiente, mas não investem conscientemente.

As necessidades presentes de consumo têm mais força emocional do que a necessidade racional de investir para o futuro longínquo. As pessoas sentem, rápida e emocionalmente, a necessidade de satisfazer seus desejos em curto prazo (consumo) e apenas pensam, lenta e racionalmente, em satisfazer suas necessidades futuras (aplicação). Já os investidores lúcidos e capazes de aplicar para o futuro conseguem fazê-lo porque separam seus recursos em diferentes contas mentais, ou seja, separam o tipo de recursos que são destinados à aplicação financeira e ao consumo. Em termos macroeconômicos, porém, a escassez de poupança é sintoma de falta de velocidade do crescimento da renda face a um dado padrão de consumo.

Crédito da foto da página inicial: Marcos Santos/USP Imagens

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2 respostas to “Crítica à teoria convencional do consumo e da poupança”

  1. Murilo disse:

    De que página a citação “A base da atração é a novidade. As pessoas se enamoram por quem não conhecem. Ninguém se apaixona por um velho conhecido. Sabe por que? É preciso encontrarmos um estranho para projetarmos o sonho, o que desejamos, mas não temos. Trata-se do mesmo sentimento de novidade que induz ao consumo. (…) O que você comprou ou viveu nunca será exatamente como idealizou. (…) O realizado perde a sensação de novidade. É como uma relação de amor. (…) O ser humano é insatisfeito, precisa tentar sempre” foi tirada? Joguei o trecho na internet e nenhuma das citações que aparece como resultado traz essa informação. Tenho o livro, queria conferir. Pesquisei num arquivo de texto no documento digital também e não encontrei. Se alguém souber me responder, agradeço.

  2. Pedro A. Figueira disse:

    Que tal pensar no que Marx diz, que o consumo é a produção do consumo.

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