O segundo turno das eleições municipais no Rio de Janeiro traz um debate sobre uma possível divergência entre o pensamento cristão e as ideias de esquerda. Serão mesmo proposituras irreconciliáveis?
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Brasil Debate

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Gustavo Noronha

É economista do Incra e colunista do Brasil Debate

 
Gustavo Noronha

Cristianismo, comunismo e a eleição para prefeito do Rio

Não há divergência de fundo entre o pensamento do rebelde judeu de 2 mil atrás e o daqueles que tentam engendrar a hipótese comunista nos últimos dois séculos. E é porque mercadores da fé dizem trazer a palavra do Cristo sem o compreender que os que têm sede de justiça devem fechar com Marcelo Freixo

26/10/2016

O segundo turno das eleições municipais no Rio de Janeiro apresenta um debate com repercussões para todo o Brasil sobre uma possível divergência entre o pensamento cristão e as ideias de esquerda. Segundo as diversas narrativas apresentadas, são proposituras irreconciliáveis. Será?

Em 1871, o anarquista Eugène Pottier, veterano da Comuna de Paris, escreveu um poema mais tarde musicado por Pierre De Geyter que tornou-se o lema de anarquistas, comunistas, socialistas e sociais-democratas de todo mundo, a Internacional. O poder de síntese dos versos desta canção impressionam por manterem sua atualidade 145 anos depois. Uma mensagem que se assemelha a de um judeu rebelde que viveu dois mil anos atrás, um homem chamado Jesus, vindo de Nazaré.

Comunistas e cristãos discordam de muitas coisas no campo da filosofia, mas na ação prática são as vítimas da fome que movem sua luta por justiça, por uma terra-mãe livre e comum. Se para uns é mais fácil um camelo passar num buraco de agulha que um rico entrar no Reino dos Céus, os outros insistem em lembrar que o crime do rico, a lei o cobre, enquanto o Estado esmaga o oprimido. Ambos percebem uma sociedade onde não há direitos para o pobre, mas ao rico tudo é permitido. Compreendem também a necessidade de subverter esta sociedade.

Em Tiago (5,4), o autor conclama: “Vejam, o salário dos trabalhadores que ceifaram os seus campos, e que vocês retiveram com fraude, está clamando contra vocês. O lamento dos ceifeiros chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos”.

No poema de Pottier se recorda e exige: “Abomináveis na grandeza / Os reis da mina e da fornalha / Edificaram a riqueza / Sobre o suor de quem trabalha / Todo o produto de quem sua / A corja rica o recolheu / Querendo que ela o restitua / O povo só quer o que é seu”. O amor ao próximo do cristão em nada difere da sociedade sem opressão, onde não haja direitos sem deveres nem deveres sem direitos, dos comunistas, afinal somos todos iguais.

As semelhanças entre as ideias cristãs e a hipótese comunista são maiores que muitos pensam. No Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, assim está estabelecido:

Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a condição de privar a imensa maioria da sociedade de toda propriedade.

Enquanto na encíclica papal Populorum Progressio, de Paulo VI, está escrito da seguinte forma:

‘Se alguém, gozando dos bens deste mundo, vir o seu irmão em necessidade e lhe fechar as entranhas, como permanece nele a caridade de Deus?’. Sabe-se com que insistência os Padres da Igreja determinaram qual deve ser a atitude daqueles que possuem em relação aos que estão em necessidade: ‘não dás da tua fortuna, assim afirma santo Ambrósio, ao seres generoso para com o pobre, tu dás daquilo que lhe pertence. Porque aquilo que te atribuis a ti, foi dado em comum para uso de todos. A terra foi dada a todos e não apenas aos ricos’. Quer dizer que a propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto. Ninguém tem direito de reservar para seu uso exclusivo aquilo que é supérfluo, quando a outros falta o necessário. Numa palavra, ‘o direito de propriedade nunca deve exercer-se em detrimento do bem comum, segundo a doutrina tradicional dos Padres da Igreja e dos grandes teólogos’. Surgindo algum conflito ‘entre os direitos privados e adquiridos e as exigências comunitárias primordiais’, é ao poder público que pertence ‘resolvê-lo, com a participação ativa das pessoas e dos grupos sociais’. (…) O bem comum exige por vezes a expropriação, se certos domínios formam obstáculos à prosperidade coletiva, pelo fato da sua extensão, da sua exploração fraca ou nula, da miséria que daí resulta para as populações, do prejuízo considerável causado aos interesses do país.

Desta comunhão de pensamentos, devemos, independente da fé ou falta dela, nos empenharmos na construção de um outro modelo de sociedade, um modelo onde o bem-estar de todas as pessoas prevaleça sobre mesquinhos interesses individuais. Entretanto, vive-se hoje sob um padrão insustentável de produção, distribuição, acumulação e consumo, como o próprio Papa Francisco alerta na encíclica Laudato Si.

O poeta alemão Bertolt Brecht, em seu Elogio ao Revolucionário, nos traz o preciso par de versos, “pergunta a cada ideia: / serves a quem?”. Um debate que vale para qualquer campo teórico das chamadas ciências sociais. E aí devemos retornar ao Francisco, este papa tão incomum:

A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana. (…) Mais uma vez repito que convém evitar uma concepção mágica do mercado, que tende a pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indivíduos. Será realista esperar que quem está obcecado com a maximização dos lucros se detenha a considerar os efeitos ambientais que deixará às próximas gerações? Dentro do esquema do ganho não há lugar para pensar nos ritmos da natureza, nos seus tempos de degradação e regeneração, e na complexidade dos ecossistemas que podem ser gravemente alterados pela intervenção humana. Além disso, quando se fala de biodiversidade, no máximo pensa-se nela como um reservatório de recursos econômicos que poderia ser explorado, mas não se considera seriamente o valor real das coisas, o seu significado para as pessoas e as culturas, os interesses e as necessidades dos pobres.

Dito isto, parece claro que não há divergência de fundo entre o pensamento do rebelde judeu de dois mil atrás e daqueles que tentam engendrar a hipótese comunista nos últimos dois séculos. E é exatamente porque mercadores da fé dizem trazer a palavra do Cristo sem compreender o Nazareno rebelde que pregava o amor que é fundamental que aqueles que têm sede de justiça fechem com Marcelo Freixo para prefeito do Rio de Janeiro.

Assim, podermos encarar o desafio proposto por Celso Furtado:

O desafio que se coloca no umbral do século XXI é nada menos do que mudar o curso da civilização, deslocar seu eixo da lógica dos meios a serviço da acumulação num curto horizonte de tempo para uma lógica dos fins em função do bem-estar social, do exercício da liberdade e da cooperação entre os povos. Devemos nos empenhar para que essa seja a tarefa maior dentre as que preocuparão os homens no correr do próximo século: estabelecer novas prioridades para a ação política em função de uma nova concepção do desenvolvimento, posto ao alcance de todos os povos e capaz de preservar o equilíbrio ecológico. O espantalho do subdesenvolvimento deve ser neutralizado. O principal objetivo da ação social deixaria de ser a reprodução dos padrões de consumo das minorias abastadas para ser a satisfação das necessidades fundamentais do conjunto da população e a educação concebida como desenvolvimento das potencialidades humanas nos planos ético, estético e da ação solidária. A criatividade humana, hoje orientada de forma obsessiva para a inovação técnica a serviço da acumulação econômica e do poder militar, seria reorientada para a busca do bem-estar coletivo, concebido este como a realização das potencialidades dos indivíduos e das comunidades vivendo solidariamente.

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2 respostas to “Cristianismo, comunismo e a eleição para prefeito do Rio”

  1. Wilton disse:

    Cristo e Buda são os mais comunistas dos líderes religiosos. Mas o cristianismo, principalmente em sua versão protestante/evangélica, subordinou o Cristo ao Capital: que outro sentido teria a doutrina da prosperidade e a apologia ao trabalho?

    O Cristo do amor social, Deus dos pescadores e pecadores, andarilho miserável que ia de encontro aos pobres e injustiçados, este Cristo foi morto e enterrado (e não rescussitado )pelo cristianismo evangélico.

    Das igrejas evangélicas surge um Cristo milagreiro, punidor, que trabalha na base do esforço e recompensa individuais, como cai bem ao capitalismo. É o Cristo que premia seus fiéis ainda na terra com a prosperidade. Para este Cristo, solidariedade social é incentivar a vagabundagem e premiar a preguiça, a ambição é virtude e a acumulação de riquezas é a recompensa pela fé e o esforço individuais. Que diferença há entre este Cristo evangélico e Mammom, a antiga divindade demoníaca da riqueza e da avareza?

    Não é à toa que Crivela venceu.

  2. Romilson Cabral disse:

    Bacana o texto caro colega. Aliás, figuras cada vez mais raras na economia.
    Acho que o texto enseja uma possibilidade de diálogo com o mundo dos Neo-petencostais. O que achas?

Comentários