Por ineficiência logística, e não por falta de produção, alimentos em condições próprias de consumo não estão chegando à população que sente fome.
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Brasil Debate

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Jamile de Campos Coleti

é professora doutora na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG/Frutal) e pesquisadora do laboratório LOGICOM da FEAGRI/UNICAMP. Desenvolve projetos no Núcleo de Economia Agrícola do IE/UNICAMP

Dag Mendonça Lima

é engenheiro agrônomo, doutorando no Programa de Gestão de Sistemas de Agricultura e Desenvolvimento Rural (FEAGRI/UNICAMP), especialista em Alimentação e Nutrição e pesquisador do laboratório LOGICOM da FEAGRI/UNICAMP

 
Jamile de Campos Coleti e Dag Mendonça Lima

Covid-19: problemas logísticos ameaçam abastecimento alimentar

Se já em 2019 havia a preocupação de que o Brasil poderia voltar para o mapa da fome da FAO, a situação poderá se agravar com a pandemia. Alimentos em boas condições de consumo que foram doados e separados estão indo parar no lixo por falta de uma logística de distribuição coordenada

06/05/2020

As restrições causadas pela pandemia da COVID-19, em função da necessidade de cumprir o isolamento social e tentar desacelerar a propagação do vírus, passaram a impor dificuldades ao abastecimento alimentar no país.

Dentre essas dificuldades, podemos destacar a logística. Logística se define como entregar a mercadoria certa, no local certo, no tempo certo e nas condições certas. E, nesse momento de pandemia, o Brasil sofre para realizar o abastecimento alimentar, não por falta de produção, mas por falta de planejamento logístico. Alimentos em condições próprias de consumo não estão chegando à população que sente fome.

Garantir o abastecimento de alimentos em regiões mais afetadas pela pandemia é um desafio, e, como agravante, temos o desmonte de políticas públicas para a agricultura familiar, ocorrido nos governos Temer e Bolsonaro. Diante de uma situação emergencial – como é o da COVID-19, os estoques públicos de alimentos não são suficientes para abastecer a população mais carente.

Os estoques estratégicos viabilizam um programa imprescindível para assegurar o direito à alimentação aos mais carentes através ou por meio da política de garantia de preços mínimos (PGPM), que funciona como uma regulação dos preços de mercado. Quando há a possibilidade de desabastecimento, a Conab usa o programa para vender parte dos estoques de alimentos, a custos mais baixos, e assim controlar os preços. Além disso, quando a oferta de determinado alimento está alta, o programa garante valores competitivos para que os pequenos produtores não sofram na mão dos grandes compradores. Sem os estoques públicos, as famílias ficam na mão de quem vende, pelo preço que bem entender, e aí ocorre a elevação do oportunismo e a prática de preços abusivos de alimentos.

Além disso, existe o problema da distribuição, uma vez que os estoques estão concentrados na sua maioria em localizações diferentes e distantes de onde está a população em situação de vulnerabilidade. E é disso que vamos tratar nesse artigo.

Sendo o arroz e feijão a base da alimentação do brasileiro, de acordo com a série histórica da Conab, não existem estoques públicos de feijão desde o ano de 2016. Para o arroz, os estoques públicos se encontram apenas no Rio Grande do Sul – no extremo sul do país. Sabemos que o Brasil é um país com dimensões continentais e um sistema logístico pautado em rodovias é extremamente ineficiente num momento de crise como esse.

Para se ter uma ideia da dimensão do problema, a produção de arroz está concentrada na região Sul, enquanto Manaus, a capital do Amazonas, está sofrendo drasticamente os efeitos da pandemia, além de ser um estado que nos anos anteriores estava presente no mapa da fome. Operacionalmente falando, seriam necessárias 61 horas diretas de viagens para levar arroz produzido e armazenado do Rio Grande do Sul até o Amazonas, dois dias e meio de viagem corridos. O ideal seria que tivesse um maior planejamento da localização dos estoques estratégicos, dispersos em vários pontos do Brasil, mas não temos.

Nossa matriz de transporte é 60% baseada em transporte rodoviário, muitos caminhoneiros deixaram de viajar por fazerem parte dos grupos de risco para COVID-19. Certamente corremos o risco de desabastecimento com o número de operadores de transporte reduzidos e a perecibilidade dos alimentos avançando em ritmo normal.

Além disso, a pandemia de COVID-19 tem modificado a dinâmica de transações dos alimentos. Isso porque a incerteza econômica, política e de saúde está afetando drasticamente a rotina do brasileiro.

Os principais vendedores de alimentos já notaram uma queda no volume de vendas: muitas famílias foram afetadas com a diminuição da renda, o que, consequentemente, interfere negativamente no consumo. Houve também uma queda no consumo de alguns alimentos que são considerados não essenciais e que têm, nesta época, alta oferta devido à sazonalidade de algumas culturas na alimentação humana, como, por exemplo: caqui, pimenta, mamão, tomates e cebola.

Em virtude do que foi mencionado, sabemos que não é exatamente fácil prever uma pandemia mundial e que muitos agricultores já estavam com suas culturas em andamento quando o país teve o primeiro caso de COVID-19 confirmado. E agora?

O excedente da produção agrícola brasileira, ou seja, aquela que não é vendida, mas ainda se encontra em condições ótimas para consumo, é destinado para instituições carentes através de programas como o de Bancos de Alimentos, entre outros. Em algumas cidades, o Exército brasileiro tem ajudado na logística para destinar o excedente da comercialização a entidades socioassistenciais. Embora a ajuda do Exército tenha chegado quase que tardiamente, se faz extremamente necessária, quando se considera que o quadro de funcionários das Ceasas encontra-se reduzido – pois alguns funcionários se enquadravam no grupo de risco. A ajuda do Exército e de voluntários se faz imprescindível.

Inegavelmente, o excedente da produção que está sendo doado para os bancos de alimentos realizados pelas Ceasa enfrenta hoje um gargalo logístico que compromete o sucesso do trabalho, a falta de logística de transporte e distribuição. Ainda que haja algumas empresas transportadoras e caminhoneiros autônomos trabalhando e a ajuda de viaturas do Exército, ainda existem dificuldades em coordenar a cadeia e fazer com que esses alimentos doados cheguem até as instituições a tempo e em condições de serem consumidos pelas pessoas carentes. Por isso, acabam sendo destinados à fabricação de adubo, alimentação animal ou mesmo ao lixo.

É isso mesmo, alimento em boas condições de consumo que foram doados e separados estão indo parar no lixo por falta de uma logística de distribuição coordenada.

Diante dessa problemática, é sabido que o número de funcionários das Ceasas diminuiu, por conta da pandemia, enquanto o número de doações cresceu. É o caso da Ceasa de Campinas, que, antes da pandemia, recebia doações de cerca de 300 toneladas de alimentos por mês e agora está recebendo entre 400 toneladas a 500 toneladas por mês. Esse alimento é separado, selecionado e tudo o que está próprio para o consumo humano é destinado para alguma instituição socioassistencial.

É primordial ressaltar que alimentos de cadeias curtas, como frutas, legumes e verduras, são, em sua maioria consumidos in natura, e sua perecibilidade tem um limite. Assim como a das carnes, cujo abate deve ser realizado no momento certo, com garantias de que terá transporte acondicionado e/ou câmara fria. A quebra da cadeia de frio pode afetar a conservação das carnes e torná-la imprópria ao consumo.

Diferentemente das políticas de praxe para garantir a segurança alimentar e manter a balança comercial positiva, as políticas nacionais de alimentação devem se atentar às necessidades urgentes nos territórios, para que, em meio à pandemia, não voltemos ao radar do mapa da fome.

Crédito da foto da página inicial: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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