O que é, na prática, uma visão sistêmica e dinâmica para resolver questões do dia a dia e entender a complexidade brasileira.
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Brasil Debate

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Fernando Nogueira da Costa

É professor titular do IE-Unicamp. Autor de “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012), ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2007). É colunista do Brasil Debate

 
Fernando Nogueira da Costa

Comparação entre individualismo e holismo metodológico

O economista tem de adquirir a habilidade de lidar com o conhecimento sistêmico de teorias abstratas e juntá-lo à análise das novas informações e dados conjunturais para tomar as melhores decisões práticas, na vida pessoal e para o país

21/12/2018

No meu livro recém-lançado, Complexidade Brasileira: Abordagem Multidisciplinar (baixe-o em:  https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2018/12/13/livro-para-download-gratuito-complexidade-brasileira-abordagem-multidisciplinar/), adoto uma visão holista (ou holística): abordagem, no campo das Ciências Humanas e Naturais, cuja prioridade é o entendimento integral dos fenômenos. Tomo-a em oposição ao procedimento analítico no qual os componentes de um sistema são tomados isoladamente – e não em interações. A abordagem sociológica e política da economia brasileira, no caso do meu livro, parte da sociedade global e não do indivíduo.

E daí? Qual é a implicação dessa diferença metodológica na tomada de decisões práticas?

Talvez um exemplo real seja mais esclarecedor em lugar do uso de muitas palavras ou conceitos abstratos. Dois professores titulares das universidades estaduais paulistas, um médico na USP, outro economista na Unicamp, portanto, com o mesmo salário expropriado pelo redutor-constitucional do governador de São Paulo, tomaram decisões distintas em junho de 2015. O primeiro comprou um apartamento para investimento (61 m2), na Vila Madalena – São Paulo, por R$ 550.000,00.

Desde abril ele pesquisava a oportunidade: a variação do Índice FIPEZAP indicava os preços dos imóveis terem se elevado 29,05% de junho de 2012 até aquele mês, superando a variação do CDI no período de 28,8%. Além disso, seus colegas, os amigos e o cunhado contavam vantagens sobre seus investimentos imobiliários. Não desconfiou de, geralmente, as pessoas se vangloriarem dos ganhos e omitirem as perdas.

Aparentemente, a evolução dos preços imobiliários tinha apresentado o formato clássico de uma bolha: subida acentuada e forte desaceleração da taxa de crescimento dos preços em um período subsequente. Todas as seis maiores capitais chegaram a atingir elevações da ordem de 30%-40% no acumulado de 12 meses para em seguida reduzirem-se para variações inferiores a 10%. Entretanto, elas apresentaram ciclos de preços defasados, sugerindo não haver uma única causa nacional determinante desse boom-e-crash de preços.

São Paulo apresentou uma evolução menos acentuada, com a fase de cheia e baixa da onda ocorrendo ao longo de vários anos. Ainda assim, a sustentação por quase três anos de aumentos de preços na ordem de 20% reforçava a ideia desta cidade não ter passado por uma situação de bolha imobiliária, mas sim por uma “maré cheia” ou uma “onda”. Ela não quebrou, subitamente, porque a série de seus preços médios não teve uma variação nominal negativa – queda absoluta –, diferentemente do ocorrido em outras cidades. Aparentava possuir um mercado imobiliário com crescimento mais sustentado por uma demanda firme.

A partir de experiências vivenciadas dos indivíduos em torno de si, o doutor tomou a decisão de compra. Passados três anos, após uma primeira locação do apartamento, resolveu vendê-lo por influência de comentários a respeito de pessoas enriquecidas no mercado financeiro. Os novos-ricos da casta do jaleco branco se gabavam da proeza. Então, ele o colocou à venda por R$ 750.000. Passaram-se seis meses – e nada. A concorrência é imensa, pois se encontram 2.343 apartamentos desse padrão à venda na Vila Madalena, São Paulo.

Recebeu, afinal, uma oferta do professor-economista: R$ 600.000 à vista. Contrapôs o comprador pagar o custo de corretagem (R$ 38.000) – e o negócio foi aceito. Afinal, ganhou em termos nominais R$ 50.000 – ou 9%.

Desconsiderando a perda real de poder aquisitivo, porque a variação do IPCA acumulada no período (jun/15-nov/19) foi 18%, qual foi seu custo de oportunidade?

A comparação com a estratégia do economista com visão holista para o cenário futuro pode se dar uma resposta a essa pergunta. Este profissional considerou os efeitos esperados da volta da Velha Matriz Neoliberal com o Joaquim Levy. O ex-ministro da Fazenda, seguindo sua doutrina, liberou geral as tarifas. Resultado: o choque tarifário se somou à inflação de alimentos, devido à seca vigente desde o final de 2012, e à de serviços. Como “engenheiro de obra feita” verificou a reação contumaz do Banco Central do Brasil e percebeu a tendência firme de alta da taxa de juro, vigente desde abril de 2013.

A taxa de juro do CDI naquele mês do negócio (junho de 2015) tinha passado para um patamar acima de 1% ao mês, ou seja, a cada um milhão de reais se ganhava dez mil reais por mês. Naquele contexto não era mais uma boa estratégia econômico-financeira se gastar, seja em investimento, seja em consumo.

Hoje, o gráfico acima confirma sua previsão. Desde então, o índice FIPEZAP em âmbito nacional caiu -1,73% e a Selic 252 média acumulou alta de 41%. Se o economista tivesse um milhão e meio de reais em investimento financeiro, rendendo 100% da Selic, ele teria, ao final desses três anos e meio, acumulado o valor suficiente para comprar aquele apartamento – e ainda manteria o capital inicial em termos nominais.

E se o economista se impressionasse com a elevação da taxa de câmbio e resolvesse dolarizar seu dinheiro, seguindo um mau conselho de fuga de capital? Um milhão e meio de reais seriam convertidos para US$ 437.317 com a taxa de câmbio a R$ 3,43 / dólar. Hoje, com a taxa de câmbio a R$ 3,90 / US$, seriam reconvertidos por R$ 1.705.539, ou seja, ganharia apenas 14% contra 41% ganhos com os juros brasileiros. Não teria aquele ganho suficiente para comprar o imóvel. A taxa de juro no Brasil é disparatada em relação à do resto do mundo e no exterior seu dinheiro não teria rendido tanto.

Percebe-se neste tipo de análise conjuntural com implicações práticas para o enriquecimento pessoal dois tipos de metodologia para o raciocínio. Um intuitivo adota o individualismo metodológico. Neste caso, parte de experiências pessoais vivenciadas, em contextos ultrapassados. Nesse caso, a suposta aprendizagem da Economia se daria pela “teorização” das repetições racionais. É um método experimental de tentativa-e-erro: se deu certo, repete-se; se deu errado, tomam-se outras decisões.

O conhecimento específico de economista com boa formação é o sistêmico. O holismo metodológico é aprendido pelo estudo sistemático em diversos níveis de abstração. Considera os fenômenos socioeconômicos e políticos como totalidades irredutíveis à simples soma de suas partes. O significado de um evento microeconômico será plenamente compreensível se for considerado em sua relação com uma totalidade macroeconômica maior, através da qual adquire sentido.

Nesse sentido – desculpe-me o pleonasmo –, o conhecimento de teorias abstratas, por exemplo, sobre ciclo econômico e político, é pré-requisito para depois abaixar o nível de abstração e incorporar áreas de conhecimento antes abstraídas: história, geoeconomia e geopolítica, economia política, sociologia econômica, economia comportamental etc.

Neste âmbito intermediário mais concreto ou próximo da realidade, estudo no meu livro “Complexidade Brasileira”, por exemplo, estruturas e diversificações setoriais, cadeias produtivas, interações de clãs, famílias dinásticas, castas e suas instituições. A partir dessas interações emerge a economia como um dos componentes de um sistema complexo.

Em nível mais concreto, datado e localizado, o economista tem de adquirir a habilidade de lidar com todo esse conhecimento prévio e juntá-lo à análise das novas informações e dados conjunturais. Essa capacitação profissional o propicia a instruir as melhores tomadas de decisões econômico-financeiras práticas.

Articulei o encadeamento dessa rede de relacionamentos componentes da complexidade brasileira através do meu conhecimento sobre a rede bancária. Os bancos “digitalizam” seus clientes, internalizando mais pagamentos do varejo em seus sistemas de informações e propiciando um multiplicador monetário endógeno. Além de emprestar e captar (ou oferecer oportunidades de investimentos financeiros), outra função crucial dos bancos é viabilizar o sistema de pagamentos entre os diversos agentes econômicos. Embora regulado com normas da Autoridade Monetária, ele é auto-organizado de forma dinâmica em processo de retroalimentação. Ao conceder crédito, alavanca financeiramente os investimentos, multiplicando a renda e gerando emprego. Em visão sistêmica e dinâmica, a complexidade brasileira vira simplicidade.

Crédito da foto da página inicial: Reprodução da ilustração da capa do livro “Complexidade Brasileira: Abordagem Multidisciplinar”

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