Como ocorreu, o que motivou e como deve ser visto o impeachment da presidenta Dilma Rousseff aprovado pelo Senado neste 31 de agosto.
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Brasil Debate

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Ana Luíza Matos de Oliveira

É economista (UFMG), mestra e doutoranda em Desenvolvimento Econômico (Unicamp), integrante do GT sobre Reforma Trabalhista IE/Cesit/Unicamp e colaboradora do Brasil Debate

Guilherme Santos Mello

É professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON-UNICAMP).

Pedro Rossi

É professor do Instituto de Economia da Unicamp, diretor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp e coordenador do Conselho Editorial do Brasil Debate.

 
Ana Luíza Matos de Oliveira, Guilherme Mello e Pedro Rossi

Cinco motivos para gritar: ‘É golpe’ e ‘Fora Temer’!

O golpe não é apenas parlamentar, mas uma articulação entre as elites econômicas e políticas mais atrasadas do Brasil, um verdadeiro golpe de classe contra os interesses dos trabalhadores e das minorias. A participação de setores da mídia e do judiciário ajudou a criar a narrativa de que era democrático e necessário

1) NÃO HOUVE CRIME DE DILMA

Talvez o maior motivo para gritar GOLPE é o fato de que só pode haver impeachment de um governante caso ele tenha cometido CRIME DE RESPONSABILIDADE. Ao contrário do que muitos foram levados a acreditar, Dilma não foi julgada por atos de corrupção. Diga-se de passagem, ela nunca foi acusada de tais atos, ao contrário dos que a julgaram, como bem apontou quase toda imprensa internacional. Também não foi julgada por ter feito um mau governo, até por que esse fato se corrige nas urnas, não através de impeachment.

A acusação que levou ao impeachment da presidenta Dilma foi a edição de três créditos suplementares, de valores irrisórios no gasto público total, que não aumentaram o gasto público e que estavam totalmente respaldados pela lei até o momento de sua edição.

Tanto é assim que até o Ministério Público Federal, ao investigar o caso, admitiu que não havia crime de responsabilidade cometido pela presidenta da República. No caso das chamadas “pedaladas fiscais”, além de não configurarem crime de responsabilidade (como bem disse o MPF), foram atos praticados por ao menos 17 governadores em seus mandatos, dentre eles o relator do impeachment Antônio Anastasia (PSDB) e o governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) .

O pretexto dos créditos suplementares é tão supérfluo quanto irrelevante. Em 2015, o governo fez o maior ajuste fiscal da história. Como bem disse o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, foi um ano marcado pela contenção de gastos e pelo ajuste recessivo, pagando ao final do período TODAS as contas em atraso do governo federal. A retórica de que o desleixo fiscal levou à crise econômica é absurdamente falsa. A crise econômica levou à crise fiscal, e o rigor fiscal de Dilma foi o combustível da crise.

2) O VICE É UM TRAIDOR

Nem o então político americano Frank Underwood da série House of Cards conspirou tão abertamente contra um presidente eleito, a ponto dos criadores da série fazerem piada com a política brasileira e o vice golpista.  Desde o ridículo episódio da carta pública em que Temer reclamava da “desconfiança infundada” da presidenta, passando pela divulgação “não intencional” de um vídeo falando como presidente mesmo antes da votação do golpe, o golpista não teve nenhuma vergonha de puxar o tapete de Dilma ao longo de todo processo de impeachment.

3) EDUARDO CUNHA É O LÍDER POLÍTICO DO GOLPE

O herói do golpe foi eleito presidente da Câmara com o apoio do PSDB e do “centrão” para desestabilizar o governo em conchavo com Temer e a oposição. Ele aceitou o processo de impeachment como mera retaliação ao PT, que havia anunciado que votaria pela cassação do deputado, notoriamente corrupto e portador de contas ilegais fora do país . Ter em Eduardo Cunha o mentor político do impeachment é uma mancha que os golpistas terão que carregar o resto da vida.

4) O GOLPE É O REFÚGIO DOS CORRUPTOS E OLIGARCAS

Mudar o governo foi uma estratégia de conveniência dos corruptos para “estancar a sangria”, como disse o ex-ministro interino golpista Romero Jucá. Hipócrita, o golpe “contra a corrupção” produziu um governo recheado de investigados pela operação Lava Jato. Além de vários corruptos, a totalidade dos ministros de Temer são homens, brancos, velhos e ricos.

5) O GOLPE TEM MOTIVAÇÕES ECONÔMICAS E VISA A DESTRUIR DIREITOS

O governo interino mal assumiu o poder e já mostrou a quem serve. A lista de retrocessos é longa: “Privatizar tudo o que for possível”, desmontar o SUS, reduzir salários, desvincular as aposentadorias do salário mínimo, entregar o pré-sal para os estrangeiros, desvincular recursos da educação e saúde, reformar a previdência para aumentar o tempo de trabalho, flexibilizar os direitos trabalhistas, retroceder na reforma agrária e na demarcação de terras indígenas etc. Todas mudanças que favorecem os ricos em detrimentos dos pobres e dos trabalhadores, que acabarão pagando “a conta” da crise, mesmo sem perceberem. Assim, quer se consolidar o projeto do golpe, que é implementar um modelo privatista e concentrador do ponto de vista social.

Por fim, cabe lembrar que o golpe não é apenas parlamentar, mas uma articulação entre as elites econômicas e políticas mais atrasadas do Brasil, um verdadeiro golpe de classe contra os interesses dos trabalhadores e das minorias no Brasil. A participação de setores da mídia e do judiciário foi fundamental para consolidar o golpe, em particular ao criar uma narrativa supostamente neutra e repetida em uníssono diariamente para a população de que o golpe era justificado, democrático e necessário. Basta perceber que aqueles veículos da grande mídia que olham o processo político de fora não têm dúvida: foi golpe!

E fora Temer!

Crédito da foto da página inicial: EBC

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6 respostas to “Cinco motivos para gritar: ‘É golpe’ e ‘Fora Temer’!”

  1. Luiza disse:

    Concordo com Alexandre, também estou tentando entender melhor o “Fora Temer” e achei esse texto pobre, discutindo pouquíssimo os fatos e mais uma vez repetindo o mesmo discurso do PT (que gastou milhares de DÓLARES com propaganda durante as eleições e continua tendo sucesso com mais uma lavagem cerebral).
    As pessoas saíram na rua em 2014 pois não estavam satisfeitas com o governo. As acusações da Lava-Jato mostraram todas as falcatruas do governo. Aí quando finalmente alguém delata as pedaladas fiscais e o faz o pedido de impeachment, o Lula diz que é golpe e a população abraça a idéia. Descreditam a autora do processo, que é uma pessoa inteligentíssima, advogada, conselheira da OAB, e professora da USP; descreditam o STF que aprovou o pedido. As pessoas esquecem que o processo durou meses e que a tanto a acusação como a defesa tiveram sua chance de mostrar seus pontos – o tribunal decidiu, a presidente foi impedida. Pronto. Se a defesa tivesse ganhado, ok, ótimo, a presidente não errou. O processo aconteceu, e o resultado foi em fato o impeachment.

    Tudo bem “Fora, Temer” – e eu gosto da idéia da Dilma e do Lula agora concretizarem a idéia, e que o Temer também seja julgado e impedido.
    Mas defender a Dilma, ou pior, defender o PT que teve 13 anos de chance de melhorar o Brasil – mas, pelo o que eu vivo, a situação não está nem um pouco boa. A pobreza, a marginalidade, a violência nas ruas, a falta de educação… a situação do Brasil está péssima!

    Acho legal discutir o assunto e, principalmente, olhar para frente e buscar soluções – assim como fez a Janaína Pachoal (entrevista excelente com ela nesse link: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160327_entrevista_janaina_jf_if )

    brasildebate, fica a dica e minha opinão!

  2. Moraes disse:

    Há várias razões para Dilma ter perdido apoio. E há outras pelas quais o golpe foi dado. São coisas diferentes, apesar de muita gente por vezes confundir. As tais pedaladas, seja lá o que signifiquem, qualitativa e quantitativamente, estão longe de ser motivo. Na votação da Cãmara, os deputados evitaram falar delas. O mesmo ocorreu no senado. Neste ultimo até a redatora do pedido, a tal Janaina, pediu que os senadores votassem por outra razao, o tal “conjunto da obra”, isto é: a gente nao gosta dela, preferia o Aécio. Todos lembram que o PT apresentou um candidato à presidencia da Cãmara e Cunha venceu num acordo PSDB-DEM-PMDB. E que botou o pedido de impedimento em votação depois que o PT se recusou a apoiar suas pretensões de se livrar da cassação. Mas ainda hoje há quem fale no Cunha como se fosse filho do PT, quase um delirio de crack. Assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade.

  3. CArlos Mello disse:

    Gostaria que explicassem onde o ESTELIONATO ELEITORAL é considerado nestas explicações.

  4. Alexandre disse:

    Caramba, entrei aqui pra entender os argumentos de quem tá chamando de golpe mas, sinceramente, não me dei o trabalho de ler a matéria até o final. O texto é muito, mas muito superficial. 1o. Quais são os valores que você chama de irrisório? Você bem deveria saber que o valor das pedaladas da Dilma foram maior do que a do FHC e do Lula juntas.
    2o. O fato de alguém cometer um crime e não ser julgado e/ou acusado, apesar de gerar precedentes, não inocenta todos os criminosos.
    3o. Todos sabem que as contas de 2015 só foram aprovadas no soar do gongo com a alteração da nomenclatura do processo e recálculo do déficit enorme que o país teve.
    4o. Você tem razão, a crise não é decorrente de desleixo. Desleixo trás a ideia de que o fato foi “quase sem querer, por preguiça”. A crise está do tamanho que está agora pois a chapa Dilma/Temer maquiou, distorceu e escondeu indicadores econômicos em 2014 para que a reeleição não ficasse ameaçada. Se você não souber disso, procure a entrevista do ministro da fazenda de 2014 de Dilma após ele ter saído do governo.
    5o. Você também bem deve saber que o PT também apoiou a candidatura do Eduardo Cunha para presidente da Câmara. Não há como negar que o PT (não só ele, mas também ele) tem participação direta na criação desta situação política e econômica que o Brasil está vivendo.
    Peço aos que tomam como missão de informar o povo através das novas mídias, que façam isso embasados em fatos reais, com textos profundos. Senão acabarão como a antiga mídia, produzindo matérias apenas para agradar a um ou a outro ideal.
    Obrigado.

    • Luiza disse:

      Concordo com você, também estou tentando entender melhor o “Fora Temer” e achei esse texto pobre, discutindo pouquíssimo os fatos e mais uma vez repetindo o mesmo discurso do PT (que gastou milhares de DÓLARES com propaganda durante as eleições e continua tendo sucesso com mais uma lavagem cerebral).
      As pessoas saíram na rua em 2014 pois não estavam satisfeitas com o governo. As acusações da Lava-Jato mostraram todas as falcatruas do governo. Aí quando finalmente alguém delata as pedaladas fiscais e o faz o pedido de impeachment, o Lula diz que é golpe e a população abraça a idéia. Descreditam a autora do processo, que é uma pessoa inteligentíssima, advogada, conselheira da OAB, e professora da USP; descreditam o STF que aprovou o pedido. As pessoas esquecem que o processo durou meses e que a tanto a acusação como a defesa tiveram sua chance de mostrar seus pontos – o tribunal decidiu, a presidente foi impedida. Pronto. Se a defesa tivesse ganhado, ok, ótimo, a presidente não errou. O processo aconteceu, e o resultado foi em fato o impeachment.

      Tudo bem “Fora, Temer” – e eu gosto da idéia da Dilma e do Lula agora concretizarem a idéia, e que o Temer também seja julgado e impedido.
      Mas defender a Dilma, ou pior, defender o PT que teve 13 anos de chance de melhorar o Brasil – mas, pelo o que eu vivo, a situação não está nem um pouco boa. A pobreza, a marginalidade, a violência nas ruas, a falta de educação… a situação do Brasil está péssima!

      Acho legal discutir o assunto e, principalmente, olhar para frente e buscar soluções – assim como fez a Janaína Pachoal (entrevista excelente com ela nesse link: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160327_entrevista_janaina_jf_if )

      brasildebate, fica a dica e minha opinão!

  5. Carlos Tramontina disse:

    Parabéns Brasil Debate.

Comentários