Brasil Debate

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Clemente Ganz Lúcio

Sociólogo, diretor técnico do DIEESE, membro do CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. É colunista do Brasil Debate

 
Clemente Ganz Lúcio

Campanha salarial e crescimento econômico

Diante do cenário de recessão, é preciso seguir com a luta sindical, para se formar a opinião pública sobre o papel do emprego e dos salários na mobilização do crescimento do país, condição essencial para se superar nossas graves desigualdades

As adversidades do momento são enormes e complexas. Não há alternativas fáceis e a ausência de saída, por meio do crescimento econômico, poderá significar mais um longo período de letargia, semelhante àquele vivido nos anos 1990. Pela frente, há o risco de desemprego, queda dos salários, desestruturação do sistema de proteção social, informalidade, precarização, entre outras sequelas econômicas e sociais bem conhecidas.

Como a sociedade reagirá a um retrocesso como esse? Quais as expectativas criadas pela inclusão social e expansão do consumo na última década?

Há dois vetores que deveriam orientar a luta pela transição rápida e pela sustentação duradoura do crescimento: o primeiro, manter o emprego e a renda para garantir e ampliar o mercado interno de consumo de massa; o segundo, mobilizar a máxima capacidade para recuperar o investimento público, de forma articulada com o investimento privado.

Esses dois vetores estruturam a demanda e mobilizam a capacidade empreendedora para produzir e crescer.

A trajetória de crescimento precisa vir acompanhada de um projeto de desenvolvimento focado em reformas estruturantes, que modernizem o Estado, com reforma tributária, simplificação institucional e administrativa, transparência e governança, reforma política e eleitoral, aperfeiçoamento do sistema de relações de trabalho (fortalecimento da negociação coletiva, solução ágil de conflitos, aumento da representatividade), entre tantas outras mudanças.

Em curto prazo, a ação sindical tem o desafio de conduzir as campanhas salariais em um contexto muito adverso. Uma pesquisa divulgada pelo DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), disponível no site da entidade, com os resultados das negociações dos reajustes do 1o semestre, revela que há mudanças em curso.

A inflação mais alta e a recessão têm colocado novos limites para os aumentos salariais. Ainda assim, o movimento sindical conseguiu resultados robustos diante da enorme adversidade: mais de 2/3 das negociações foram concluídas com aumento salariais no período analisado.

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Nessa frente de luta, há um desafio fundamental: desenvolver campanhas salariais que coloquem no debate, com o empresariado, a comunidade e os governos, a importância da manutenção dos empregos e dos salários para a constituição da massa salarial, que sustenta ¾ do mercado interno de consumo, parte essencial da formação da demanda que anima o investimento empresarial e incrementa o nível de atividade econômica.

É preciso disputar, para se formar a opinião pública sobre o papel do emprego e dos salários na mobilização do crescimento do país, condição essencial para se superar as graves desigualdades sociais existentes na cidade e no campo brasileiro.

Há um país a ser reconstruído. É preciso criar demanda para uma atividade produtiva que propicie condições para gerar o bem-estar social e a qualidade de vida. O tipo de crescimento, que é também uma oportunidade estratégica, pode e deve ser mobilizador da inovação que modifica, mas preserva o meio ambiente.

Há, portanto, um enorme espaço para o crescimento com sustentabilidade ambiental. Isso exige aumento dos investimentos público e privado, que geram emprego e renda, melhoram a capacidade fiscal do Estado, enfim, abrem espaço para um movimento virtuoso de crescimento sustentado pelo investimento e pela capacidade distributiva do Estado e dos sindicatos.

O movimento sindical tem o desafio de recolocar no centro da estratégia econômica de crescimento e de desenvolvimento o emprego e os salários como elementos dinamizadores de um grande mercado interno de consumo em permanente formação, expansão e disputa. As campanhas salariais são uma oportunidade ótima para promover essa agenda.

Crédito da foto da página inicial: CUT

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1 resposta to “Campanha salarial e crescimento econômico”

  1. Ruy Mauricio de Lima e Silva Neto disse:

    Acho que este brilhante sociólogo disse tudo e até bastante óbvio – o fundamental é manter os empregos, a renda das pessoas (físicas e jurídicas) e a expansão do mercado interno. Assim fazem todas as sociedades maduras e seus órgãos de divulgação não fazem muita propaganda disso que é para não emancipar demais os mercados subdesenvolvidos,tirando-os de sua zona de exploração. Mas este é o caminho óbvio de se gerar um círculo virtuoso de demanda, lucros, poupança, investimentos, novos empregos, nova demanda, novos lucros, etc. Cortar empregos, cortar renda, cortar investimento só pode passar pela cabeça de indiscutíveis cavalgaduras ou de gente mal-intencionada, intencionada apenas em facilitar a coisa para o capital externo tirar proveito de nossas vulnerabilidades.

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