Ao que tudo indica – e as bolsas assim já precificam - a decisão tomada pelo povo britânico ontem, 23, a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, ameaça desordenar o tabuleiro mundial, e principalmente europeu, com grande letalidade.
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Brasil Debate

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Marcelo Manzano

É economista, professor de economia da Facamp (Faculdades de Campinas) e pós-doutorando do programa de Desenvolvimento Econômico no Instituto de Economia da Unicamp

 
Marcelo Manzano

Brexit: Mais do que nunca, uma ilha

Impossível dizer para onde caminhará a Europa e o mundo, depois da saída do Reino Unido da União Europeia. A possibilidade de se estar presenciando o estopim de um aprofundamento do desarranjo mundial que se estende desde 2008 é grande

Quem poderia imaginar que justamente da terra de Adam Smith e David Ricardo, berço do liberalismo econômico, viria o mais potente petardo contra o projeto de integração europeu? Mais do que isso, que os argumentos racionais e até certo ponto generosos dos clássicos da economia seriam suplantados pela retórica medíocre e oportunista de dois populistas de direita, duas figuras caricatas que parecem ter brotado entre os cogumelos nos jardins da rainha.

Ao que tudo indica – e as bolsas assim já precificam – a decisão tomada pelo povo britânico no dia 23, a favor do Brexit, ameaça desordenar o tabuleiro mundial e principalmente europeu com grande letalidade.

De cara, o mapa do resultado eleitoral da ilha revela um futuro sombrio e de inevitável desmantelamento do reino bretão. A começar pela impressionante unanimidade entre os eleitores da Escócia, onde nada menos que 100% dos distritos registraram maioria contrária ao rompimento com o bloco europeu.

Em contrapartida, no País de Gales e nas infinitas e bucólicas cidades do interior, o voto a favor da saída foi massivo, revelando que o eleitorado de mais idade, de renda média, com menor escolaridade e mais tradicionalmente “British” aposta no rompimento com a Europa como atalho para retomar a glória da Inglaterra vitoriana (silly boys!).

Já nas grandes e antigas cidades do cinturão operário do Norte (Liverpool, Manchester e Leeds), que pariram a Revolução Industrial e deram origem aos movimentos operários, prevaleceu o voto contrário ao Brexit, embora nas também importantes e ex-industriais Sheffield e Birmingham o mesmo não tenha ocorrido – o que é uma vergonha.

Londres, claro, cosmopolita e financista como nenhum outro rincão do planeta, votou majoritariamente pela continuidade da aliança com o continente – pesou também nessa tendência dos londrinos o grande número de jovens, universitários e imigrantes que se concentram na cidade e que enxergam na integração um horizonte mais vasto para seus projetos de vida.

Noves fora, o quadro de discórdia explicitado pelo referendo deverá ser sucedido por processos de cisões internas e externas de toda ordem. Não só os escoceses já anunciaram que querem um novo referendo para decidir o rompimento com o Reino (e aposto todas as fichas que sairão), como também os galeses, irlandeses do norte e até mesmo os ingleses do North (vermelho) deverão dar corda a movimentos separatistas que encontrarão cada vez mais motivos para romper os nexos com a asfixiante da City londrina.

É um vexame! Parece que os ilustrados da velha ilha meteram o sorvete no nariz e agora será difícil evitar o esfacelamento do que restava de vigor trabalhista e mesmo de uma direita conservadora mais responsável. Perdidos em infindáveis debates principistas sobre qual seria o melhor esteio da democracia (a tecnocracia do parlamento europeu ou a tradição secular do britânico) e reféns do oportunismo de curto prazo de Mr. Cameron (moleque que prometeu o referendo para vencer a eleição com o apoio dos xenófobos) as tradicionais forças políticas britânicas foram atropeladas por uma cambada de “homens médios”.

Sob a liderança do quase patológico Nigel Farage (líder do Ukip e inventor do Brexit) e do idiossincrático Boris Johnson (ex-prefeito de Londres, do Partido Conservador, que faz um tipo “família Adams”, mas que é esperto como um Eduardo Cunha sem contas na Suíça), os britânicos deverão assistir em breve o cenário político degenerar ainda mais.

Sem os votos progressistas dos escoceses e com o Labour Party em profunda crise de identidade, restará aos britânicos referendar a aliança entre o tinhoso e provável próximo Primeiro Ministro, Mr. Boris Johnson, e o infame Farage – a dupla terá que lidar com um dos momentos políticos mais turbulentos da vida britânica nas últimas décadas e certamente fará história.

Obviamente, essa maré de água azeda deverá cruzar o Canal da Mancha e disseminar as razões dos eurocéticos pelas terras do continente. Holanda, Dinamarca e República Tcheca já estão preparando seus plebiscitos – com o agravante de que nestes casos o rompimento deverá ser também com a moeda comum, o que coloca sérias dúvidas quanto à sobrevivência do Euro.

Impossível dizer para onde caminhará a Europa e o mundo. A possibilidade de se estar presenciando o estopim de um aprofundamento do desarranjo mundial que se estende desde 2008 é grande. Lamentavelmente, mais do que nunca, a frase do conservador Ortega y Gasset, escrita para o contexto europeu de 1927, parece fazer irritante sentido ainda em nosso tempo e lugar: “a característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe a toda parte”.

Crédito da foto da página inicial: Hannah Mckay/EPA/Agência Lusa

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