Para os autores, no caso de uma reversão generalizada no fluxo internacional de capitais, a economia brasileira estaria hoje em situação menos vulnerável do que se encontrava em 2002.
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Brasil Debate

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André Biancarelli

É professor do Instituto de Economia da Unicamp, diretor-executivo do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica – Cecon-IE/Unicamp e coordenador da Rede D

Rodrigo Vergnhanini

É mestre em Economia Política Internacional pela UFRJ e doutorando em Economia na Unicamp

 
André Biancarelli e Rodrigo Vergnhanini

Vulnerabilidade externa: o Brasil melhor do que no passado

Entre janeiro de 2002 e outubro de 2014 houve acúmulo exponencial de reservas internacionais (de US$ 37 bilhões para US$ 376 bilhões). A relação de passivos dolarizados sobre os ativos externos passou de 2,3 para 0,8. Em outras palavras, hoje, as disponibilidades externas superam, em valor, os passivos em moeda estrangeira

No último dia 16 de dezembro, o dólar comercial atingiu R$ 2,74 – o maior patamar dos últimos nove anos. Fechou 2014 em R$ 2,66, em desvalorização no ano de 13% e nada menos do que 60% ao longo de todo o primeiro mandato de Dilma.

A tendência recente de valorização do dólar frente a moedas periféricas, incluindo o Real, tem motivos que fogem do escopo dessa nota. É possível argumentar, no entanto, que independentemente dos fatores internos às economias, a saída de capitais dos países de moeda inconversível está, ao menos em parte, relacionada à divulgação de dados econômicos sobre recuperação dos Estados Unidos.

As incertezas acerca da normalização da política monetária americana, com possível elevação dos juros pelo FED e valorização do dólar, contribuem para um movimento de substituição de ativos de maior risco pelo dólar no portfólio dos investidores internacionais. Nesse cenário, fica clara a suscetibilidade dos países periféricos aos ciclos internacionais de liquidez.

Quais seriam, então, os efeitos de uma reversão generalizada no fluxo internacional de capitais, exogenamente determinada, sobre o cenário financeiro e macroeconômico brasileiro? Esse artigo argumenta que as condições de vulnerabilidade externa da economia brasileira estão muito mais sólidas quando comparadas a 2002 e consideradas numa perspectiva histórica.

O Gráfico 1 ilustra a mudança na composição dos passivos externos da economia brasileira de 2002 até o segundo semestre de 2014. Os investimentos diretos estrangeiros (IDEs), modalidade mais estável de financiamento, elevaram sua participação de 33% para 48%. Em contrapartida, os investimentos em carteira reduziram sua participação de 41 % para 38%, e a cifra “outros investimentos”, composta basicamente por empréstimos bancários, foi reduzida de 26% para 13%. Portanto, do ponto de vista da composição relativa, a situação é melhor que a de 2002.

Em termos absolutos, porém, o valor dos investimentos em carteira excede o valor das reservas internacionais (US$ 600 bilhões contra US$376 bilhões), despertando preocupações sobre a sustentabilidade financeira numa eventual reversão do ciclo internacional de liquidez.

Nesse sentido, torna-se importante analisar em quais moedas estão denominados os compromissos financeiros.

A linha pontilhada no gráfico representa a parcela dos passivos que está denominada em dólar. Essa parcela passou de 75,1%, no terceiro trimestre de 2002, para 38,3% no segundo trimestre de 2014.

grafico composição dos passivos externos

A consequência prática dessa mudança na denominação monetária dos passivos externos é que, diante de uma desvalorização do câmbio, os compromissos externos totais se encolhem.

Para efeito de ilustração, tomemos a crise do subprime de 2008, cenário marcado pela reversão do ciclo de liquidez internacional e com efeitos normalmente bastante adversos sobre as contas externas dos países periféricos. O câmbio brasileiro se desvalorizou 50% entre julho e dezembro de 2008. Neste período, os passivos totais da economia com o exterior se encolheram na magnitude de U$$ 324 bilhões, enquanto o reflexo disso nos fluxos foi irrisório.

grafico taxa nominal de cambio

Do ponto de vista dos ativos, houve acúmulo exponencial de reservas internacionais (US$ 37 bilhões em janeiro de 2002 para US$ 376 bilhões em outubro de 2014). A relação de passivos dolarizados sobre os ativos externos passou de 2,3 para 0,8 no período. Em outras palavras, pode-se dizer que, atualmente, as disponibilidades externas superam, em valor, os passivos em moeda estrangeira.

O impacto da desvalorização também tende a ser positivo sobre a dívida pública líquida, uma vez que os passivos do setor público estão em grande parte denominados em reais e todas as reservas, em dólar.

A taxa de câmbio tem efeitos complexos sobre a estrutura produtiva interna e sobre as variáveis macroeconômicas (particularmente a inflação) e, portanto, devem ser considerados numa perspectiva ampla. No entanto, pode-se concluir que, do ponto de vista da situação patrimonial do Brasil com o exterior, a desvalorização do câmbio tende a gerar não uma deterioração, mas uma melhora das condições de solvência e vulnerabilidade externa – o que por si só, constitui uma importante novidade.

Fonte dos dados: Banco Central do Brasil.

Crédito da foto da página inicial: EBC

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1 resposta to “Vulnerabilidade externa: o Brasil melhor do que no passado”

  1. Caio disse:

    Prezados autores, muito bom o artigo, parabéns.
    Contudo, acho que deveriam repensar o objetivo do artigo. Melhor do antes? Sim, com certeza. Em 90 tínhamos uma elevada dívida externa, um crescente passivo na forma de investimentos externos e uma economia em processo de crescente abertura. Agora, particularmente, acredito que a questão relevante hoje seja: estamos bem? Protegidos contra uma eventual fuga de capitais?
    Pelo artigo, imagino que a resposta seria “estamos mais protegidos que antes”. Mas isso significa que estamos bem protegidos? Eu duvido. O elevado passivo externa e a força dos mercados financeiros mostram isso. Não foi a toa que Dilma se curvou ao mercado, e continua a negociar e ser chantageada por ele. Estamos menos vulneráveis, mas inda muito vulneráveis. Basta olharmos a volatilidade da nossa taxa de câmbio e nossa dependência da manutenção de um fluxo de entrada de investimentos estrangeiros constante.

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