Brasil Debate

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Pedro Rossi

É professor do Instituto de Economia da Unicamp, diretor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp e coordenador do Conselho Editorial do Brasil Debate.

 
Pedro Rossi

Austeridade e a ofensiva ideológica

Os argumentos dos defensores da austeridade, supostamente técnicos, servem a interesses de grupos sociais particulares. Esse discurso vem sendo usado – no Brasil e no mundo - como instrumento ideológico para desmontar o Estado Social e conservar privilégios

O economista é o tipo de profissional cuja opinião deve ser considerada somente após inúmeras ressalvas. Para cada recomendação de um economista deveria haver uma estrelinha, daquelas de preço promocional, que remete a uma longa explicação sobre suas condições de aplicação.

No caso dos economistas ortodoxos, predominantes na mídia brasileira, essa estrelinha deveria esclarecer que as opiniões carregam pressupostos inerentes a uma formação teórica que defende que o egoísmo do indivíduo é virtude social, a desigualdade é um incentivo para o crescimento, a economia é regida por leis naturais e que o ativismo estatal perturba o bom funcionamento da economia. Essas informações permitiriam identificar que nessas opiniões, aparentemente técnicas, há juízo de valor, ideologia e uma determinada concepção de justiça social.

Nesse artigo, a estrelinha diria que o economista acredita que o capitalismo é um sistema inerentemente instável, a economia não é regida por leis naturais, o livre funcionamento dos mercados leva a crises recorrentes e à concentração da renda e da riqueza e o Estado tem um papel fundamental para estabilizar o sistema, mediar a luta de classes e alocar os recursos de forma mais justa.

Partindo desses pressupostos, tem-se uma leitura sobre a austeridade e o papel da política fiscal diferente daquela que predomina no debate público brasileiro.

Ao contrário do que dizem alguns, um ajuste fiscal não é sempre bom para uma economia, tampouco é sempre ruim. A política fiscal é um instrumento para manejar a demanda e sustentar o crescimento, para isso, o Estado deve gastar mais nos momentos de desaceleração e fazer ajustes fiscais nos momentos de aceleração do crescimento.

Entender isso é simples e intuitivo: como o crescimento depende do gasto, se as variáveis de gasto (investimento, consumo, demanda externa) desaceleram, cabe ao Estado gastar. Nesse sentido, o Estado tem a função estratégica de sustentar o crescimento, influenciando a demanda agregada por meio da política fiscal.

Nesse contexto, o ajuste fiscal no Brasil está sendo desastroso. Em uma economia muito fragilizada, os cortes de gastos têm contribuído para a queda do crescimento. Isso reduz a arrecadação de impostos e resulta em uma piora no resultado fiscal que leva a novos cortes de gastos: entramos no ciclo vicioso da austeridade.

Contraditoriamente, o resultado do ajuste fiscal é uma piora fiscal, com o aumento da relação dívida/PIB.

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                               Ciclo vicioso da austeridade

grafico pedro

Mas isso não implica ausência de lógica nas medidas de austeridade. Na verdade, há duas categorias de defensores da austeridade: aqueles que negam o efeito do ajuste fiscal sobre o PIB, e aqueles que o reconhecem, mas acham necessário.

Os primeiros estão presos a suposições teóricas irrealistas do tipo que a política fiscal é neutra ou que o setor privado compensa imediatamente a redução dos gastos públicos, podendo até aumentar o crescimento por conta da volta da confiança.

Já a segunda categoria de defensores da austeridade comemora o ciclo vicioso da austeridade e cada aumento de desemprego dele decorrente. Na lógica subjacente, a austeridade serve para colocar as coisas em seu devido lugar. Ela conduz um processo de redução do Estado e reequilíbrio da economia em que se ajustam salários (pra baixo) e lucros (pra cima), o que dará as bases para uma retomada de uma suposta trajetória de “crescimento sustentável”.

Esses argumentos, supostamente técnicos, servem a interesses de grupos sociais particulares, independentemente das boas intenções de quem os defende. Assim, o discurso da austeridade vem sendo usado – no Brasil e no mundo – como instrumento ideológico para desmontar o Estado Social e conservar privilégios.

Não por acaso, em meio à crise, cresce no debate público brasileiro a demanda pela desvinculação do gasto público obrigatório destinado à previdência, saúde e educação. Trata-se da revisão dos direitos e benefícios sociais conquistados na Constituição de 1988, removê-los é o passo seguinte da atual ofensiva ideológica.

Crédito da foto da página inicial: Antonio Cruz/ABr

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11 respostas to “Austeridade e a ofensiva ideológica”

  1. Érica disse:

    Excelente texto!

  2. […] se indicassem que o discurso da austeridade que prevalece no noticiário econômico do Brasil é o único caminho. Como se ter um perfil a […]

  3. […] Por: Pedro Rossi | Do Brasil Debate […]

  4. Sérgio Almeida disse:

    Artigo mostra com nitidez a quem interessa a política de austeridade. Parabéns ao autor pela linguagem utilizada, acessível a não especialistas em Economia (na verdade, a maioria das pessoas), quase contrariando a tendência de outros profissionais que, com textos rebuscados, terminam por tornar incompreensíveis as questões econômicas, de interesse geral.

  5. Augusto Oliveira disse:

    Tudo sobre economia em poucas linhas. Excelente.

  6. Augusto Oliveira disse:

    Simplesmente, excelente texto. Tudo em poucas linhas.

  7. josé carlos santana disse:

    Não adianta, hoje a economia é global e ponto. Por mais malabarismos ideológicos que se faça, estamos submetidos às regras financeiras internacionais, o que dá pra chico, dá pra francisco, o economês muita vez erra assustadoramente com as previsões apocalípticas, seja de direita, de centro ou de esquerda, cada uma com as suas teorias combatendo o outro lado e apresentando soluções malabarísticas para o mundo. As economias mundial não tem lado, o lado dela é o lucro, por outro lado os países capitalistas estão recebendo o troco das suas atitudes predatórias, egoísticas, individualistas, centradas no ter mais do que no ser e a humanidade corre atrás de quimeras, querem a qualquer custo imitar ou chegar no mesmo patamar dos “ricos” senhores do mundo e nas bolsa de valores, nos corredores dos governos dos países ricos o escrúpulo ha muito tempo ou aliás nunca existiu e não medem esforços para colocar a mídia mundial a seu favor com boatos, intervenções, etc. a fim de não deixar que outros países em desenvolvimento ou que reza fora da sua cartilha alcance o sucesso, as riquezas do mundo ficam concentradas nas redes, o chamado dinheiro virtual que ao menor sinal trilhões de dólares descem pelo ralo e as crises na Europa, oriente médio, nos tigres asiáticos e no próprio EUA que ainda se acha um dos xerifes do mundo, tem o seu preço muito alto cobrado dos pobres da terra quando o esgotamento dos recursos naturais se avizinha com as mudanças climáticas trazendo dissabores gigantescos para todo o planeta. Finalizando fico com o efeito borboleta, ou com a teoria do Ponto de Mutação de Firitoj Capra para quem e eu concordo existe uma necessidade de solidariedade global, até por que por bem ou por mal sem ela qualquer movimento individualista afeta todo o sistema, como vivemos num mundo de um sistema econômico global, não tem jeito; as soluções para os problemas econômicos todos temos que resolve-los globalmente, senão seria o caos.

    • César Rocha disse:

      Ohh José… que comentário obtuso: acusa o articulista de ideológico, mas teu comentário é simplório e pré-conceituoso. Qualquer iniciante em estudos de Economia entende que a economia de qualquer nação é global, sistêmica… Citar Capra como “argumento de autoridade” é passar atestado de ignorância quanto a lógica econômica do Capitalismo (sistema social). A argumentação do articulista mostra a obviedade que “políticas econômicas recessivas” são contrárias à logica da acumulação capitalista. O ministro Levy está a serviço (a soldo) do rentismo internacional e seu braço nacional, os bancos – que vivem à sombra da endividamento do Tesouro Nacional e da escorchante taca SELIC, QUE NÃO TEM nenhum “fundamento” da dinâmica da economia “real”. Tua alusão à “dinâmica da economia globalizada” é comentário tosco de jornalista, desconhecedor dos processos econômicos em suas efetividades históricas. A expressão ‘ajuste fiscal” é mais da muitas “frases” para o desdizer os efeitos perversos sobre realidade social decorrentes de “políticas econômicas” que preservem o rentismo parasitário. Antítese da “eutanásia do rentista” propugnada por Keynes. Paz e bem.

  8. Luiz Parussolo disse:

    Consultei meu gênio instrutor e orientador de como mudar o país e ele ser um estado livre. Ficou pensativo e nada respondeu no momento e desapareceu. Voltou depois e sugeriu para que haja uma intervenção constitucional e que seja feito expurgo total nos três poderes e nas instituições e depois seja transformado o país em uma confederação onde cada estado seja independente porque a falta de evolução impede que o país seja administrado de forma republicana e presidencialista porque brasileiro não tem espírito e conhecimentos metafísicos e somente com a experiência poderá ser administrado de forma departamental. Disse a ele ser impossível. Então respondeu: Se tomar todos os políticos brasileiros do passado dos últimos 30 anos ainda vivos desintegrar e querer desenvolver um casal de homens e mulheres plenos e políticos evoluídos como seres humanos e plenos para vir a conduzir o país e povoá-lo como fez Deus com Abraão com o povo Hebreu não será possível, salvo se tiver a condescendência da nanociência como complemento e torcer para não haver miscigenações para as próximas décadas. O problema que poderes, burocracias, empreendimentos, trabalhadores sofrem do mesmo retardamento e bloqueio evolutivo não conseguindo a plenitude evolutiva começada há quase 500 anos e até hoje mantém-se radicada nos primeiros rebentos aqui radicados. Só um processo a partir dos 4% ou 5% evoluídos como aconteceu entre 1964 e 1984 poderia restabelecer o desenvolvimento racional e metafísico exigente para países evoluídos. Caso contrário sempre viverão do conhecimento, das receitas econômicas, sociais e administrativas ministradas por estrangeiros e ao mesmo tempo suas ideologias, sua tecnologia, seus insumos, sua política, sua exploração do território e dos entes aqui habitantes em troca de seus conhecimento e bens. Isto foi dito pelo gênio protetor e não sei se real, mas sempre foi íntegro e não pode ter sido corrompido pelos americanso e pelos russos.

    • ary pontes disse:

      entao voce conclui que de alguma forma, deve-se beneficiar um grupo já provido de riquezas e meios, em detrimento de uma vasta população de baixas renda e formação profissional?
      creio ser um grande exageiro pesar para esse lado; tem sim que haver investimentos e reformas e construir estruturas fisicas e sociais que atendam às necessidades da população.
      da população, de forma democrática, beneficiando à ordem e abundancia de forma especifica, que é a via democrática. temos conflitos a resolver, varios, mas acho que o sr. não possui uma resposta apropriada e sofre de profundo desconhecimento dos fatos economicos e das consequencias que podem resultar.
      descordos absolutamente, exceto no diagnóstico de que sim, temos problemas a resolver.
      agora, sua proposta é um lixo, uma posição covarde, fruto de uma concepção limitada.

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