O novo vírus se alastra rapidamente para diversas cidades brasileiras, muitas das quais têm fragilidades que facilitam a maior propagação.
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Brasil Debate

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Ronnie Aldrin Silva

Geógrafo e Cientista de dados, é autor de publicações sobre as temáticas de exclusão social, mercado de trabalho e gestão pública.

 
Ronnie Aldrin Silva

As vulnerabilidades das cidades brasileiras ao coronavírus

Além dos grandes centros, que já contam com casos de contaminação, muitas cidades médias e pequenas do interior do Brasil, especialmente das regiões Norte e Nordeste e de estados como o Rio Grande do Sul, têm maior chance de ver a epidemia se alastrar

14/04/2020

O novo coronavírus se alastra rapidamente pelo mundo, muitos estudiosos e estatísticas apontam que, na prática, milhões de pessoas já foram infectadas pelo mesmo. No Brasil, em meados de abril, cerca de 20% das cidades brasileiras apresentaram oficialmente casos de contaminação pelo Covid-19. É também sabido que quanto antes as localidades se preparam para a possível chegada do vírus, melhor é o seu desempenho no combate ao mesmo e menores são os números de óbitos decorrentes.

O presente estudo busca mensurar tais fragilidades, ranqueando todos os municípios brasileiros, com o objetivo de alertar a população e os gestores públicos responsáveis por implantar políticas de contenção à disseminação destes vírus em suas cidades. Além das grandes cidades brasileiras, que já contam com casos de contaminação, muitas cidades médias e pequenas do interior do Brasil, especialmente das regiões Norte e Nordeste e de estados como o Rio Grande do Sul têm maior chance de ver a epidemia se alastrar por seu território.

É importante salientar que este estudo não foca em indicar um possível caos na estrutura de atendimento de saúde das cidades ou em fazer projeções do número de casos de contaminados. Para este fim já existem diversos estudos e projeções sérios.

O Índice de Vulnerabilidade Municipal ao alastramento do Coronavírus (IVC)

O IVC procura identificar o quão vulnerável cada município brasileiro está a um maior alastramento do surto do coronavírus. Para tal, foram utilizadas 18 distintas informações oficiais, o mais atualizadas possível, para os 5570 municípios brasileiros. Estas informações foram agregadas em cinco dimensões de vulnerabilidades: densidade demográfica, faixa etária, infraestrutura sanitária, saúde e mercado de trabalho.

Fazendo uso da mesma metodologia de cálculo do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da Organização das Nações Unidas (ONU), onde os resultados mais próximos do valor 1 indicam as melhores condições e os mais próximos de 0 as piores, foram criados subíndices para cada dimensão que, por fim, geraram o índice síntese final, o IVC. Toda esta composição está melhor detalhada na pasta metodologia da planilha IVC, disponibilizada ao final deste texto no link para download, inclusos ainda os mapas.

Espacialização dos resultados

Os municípios destacados no Mapa 1 com a cor vermelha são os com maiores riscos de alastramento do contágio pelo coronavírus no país. Além dos grandes centros urbanos, que contemplam menos de 10% das cidades brasileiras, muitos municípios do interior das regiões Norte e Nordeste, dos estados do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul e norte de Minas Gerais se destacam negativamente por também apresentar maiores riscos.

No Nordeste, 46,4% dos municípios estão nesta faixa vermelha de maior risco, ao passo que para a região Norte este número é de 33,6%. Nas demais regiões do país esta proporção é bem inferior, cerca de 13,7% no Sudeste, 11,8% no Sul e 3% no Centro-Oeste. No entanto, ainda existem outros 1410 municípios, de perfil geográfico similar aos mais críticos, destacados na cor laranja, que também merecem grande atenção.

A sequência de mapas a seguir permite perceber quais fatores influenciam para a maior criticidade de alguns municípios e regiões.

O aspecto da densidade demográfica, que também contabiliza a proporção de moradores residentes em favelas, demonstra maior concentração na região Sudeste, em praticamente todo o litoral brasileiro e em algumas po­ucas cidades da região Norte do país.

Já o mapa que foca na população em faixa etária mais vulnerável ao Covid-19, demonstra maior concentração desta população em regiões sublitorâneas e que adentram o interior do país, sobretudo nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul.

O mapa do subíndice de infraestrutura sanitária e elétrica mostra o grande risco que esta precariedade oferece principalmente às regiões Norte e Nordeste, mas também à região Centro-Oeste e interior da região Sul.

O subíndice de saúde apresenta o maior risco que este fator aufere principalmente às cidades das regiões Sul e Sudeste do país, mas também a algumas do interior das regiões Centro-Oeste e Nordeste.

O subíndice mercado de trabalho também acentua o risco que o mercado de trabalho informal e autônomo oferece às pessoas residentes predominantemente nos municípios das regiões Norte, Nordeste e em Minas Gerais.

As cidades mais vulneráveis

Pode-se observar no quadro 1 que o município de São João do Meriti, no Rio de Janeiro, com IVC de 0,437, é a cidade mais vulnerável ao alastramento do coronavírus no país. Apesar de possuir subíndice de saúde da população e de infraestrutura sanitária acima da média brasileira, seus indicadores de alta densidade demográfica e de precárias condições no mercado de trabalho local a colocaram nesta situação de maior risco.

Cidades de alto adensamento populacional como Taboão da Serra (SP), Carapicuíba (SP), Nilópolis (RJ), Diadema (SP) e Osasco (SP), de piores índices de exclusão social, como Ipixuna (AM), de melhores, como São Caetano do Sul (SP), ou ainda, por exemplo, a capital cearense, Fortaleza, devido à diferentes características de fragilidade captadas pelo IVC, também constam da lista das cidades mais vulneráveis do país ao alastramento do coronavírus.

Destas 30 cidades constantes do Quadro 1, 7 são do Estado de São Paulo, 5 do Rio de Janeiro e do Amazonas, 4 do Ceará, 3 de Minas Gerais, 2 do Pará e 1 do Acre, Paraíba e Pernambuco.

No outro extremo do índice, a pequena cidade de Gavião Peixoto, em São Paulo, apresenta o melhor IVC do país, se destacando positivamente, neste aspecto do risco ao coronavírus, em todos os índices. Outras cidades mais conhecidas como Rio Quente (GO), Fernando de Noronha (PE), Holambra (SP), Jaguariúna (SP) e Confins (MG) possuem melhores condições para evitar o alastramento do Covid-19, caso os procedimentos recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) sejam seguidos.

Independentemente da posição no ranking do índice síntese IVC, e respeitando o conhecimento local acumulado em cada cidade, a análise destes indicadores (subíndices) em separado também permite a estas identificar suas fragilidades e efetuar uma estratégia de ação adequada e específica de combate à propagação do coronavírus.

Vale também atentar-se ao fato de que mesmo que uma cidade possua um bom IVC, a não adoção de medidas protetivas ao vírus, ou ainda de forma tardia, aumenta naturalmente a probabilidade de que o Covid-19 se espalhe na mesma.

O download da planilha com o ranking municipal completo do IVC, seus subíndices, metodologia e mapas pode ser realizado por meio do seguinte link: https://bit.ly/34kcedC

Crédito da foto da página inicial: Marcello Dantas/Futura Press/Folhapress

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