Segundo o autor, junho de 2013, apesar de ainda incompreendido, é considerado o início da crise política atual, que colocou o Brasil em um impasse e sob o risco de ver ascender a extrema-direita fascista.
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Brasil Debate

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Gustavo Noronha

É economista do Incra e colunista do Brasil Debate

 
Gustavo Noronha

As cicatrizes de junho e ascensão do fascismo

É imprescindível que o governo federal compreenda a necessidade de sinalizar uma inflexão na política econômica e a ruptura com a agenda derrotada nas urnas. Só assim poderá livrar Dilma do cada vez mais inexorável caminho da deposição. E que não se engane a direita liberal, o que virá é o fascismo

14/03/2016

Apesar de ninguém ter exatamente compreendido o processo político de junho de 2013, parece consensual entre muitos analistas marcar ali o início da crise política que hoje coloca o Brasil em um impasse. Naquele momento abriu-se uma janela para um aprofundamento da democracia e para um diálogo aberto com aqueles movimentos cujas pautas apontavam claramente para a esquerda – inicialmente passe livre, mas depois melhoria nos serviços públicos de saúde e educação.

Ainda que inicialmente o governo tenha tentado responder a estas demandas, a reação mais marcante foi a coordenação pelo governo federal por meio do Ministério da Justiça das ações de repressão. Opção muito bem recepcionada pelos governos estaduais, principalmente de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, mas não só.

Naquele momento também surgiram dois fenômenos incomuns à realidade brasileira. Apareceram pela primeira vez em manifestações no país grupos anarquistas adeptos da tática do Black Bloc. Sem entrar no mérito da tática, a utilização de máscaras torna mais fácil a infiltração por agentes provocadores como demonstraram alguns vídeos. E assustadoramente também começou a surgir certa postura fascista de agressões a militantes de partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais.

Romantizado por alguns setores da esquerda menos ortodoxos, mas criticado pela esquerda mais tradicional, principalmente pelos fenômenos acima descritos, junho de 2013 jamais foi adequadamente compreendido. Enquanto isso, no campo da direita, os mais extremistas iam às ruas disputar espaços, mas o establishment conservador, assustado com o que se passava, também percebia ali uma fratura no projeto desenvolvimentista capitaneado pelo PT.

As ruas então esfriaram, mas deixaram como legado a lei antiterrorismo proposta pelo governo federal temeroso pelo possível impacto das manifestações nos grandes eventos. A redação com que foi recém-aprovada no Congresso parece perfeita para a criminalização dos movimentos sociais e das lutas da classe trabalhadora.

Vieram as eleições e a coalização liderada pelo PT sinalizou claramente que aprofundaria o projeto neodesenvolvimentista justamente na direção das grandes demandas apresentadas nas ruas em 2013. Qual não foi a surpresa quando o governo faz a opção política de incorporar a agenda econômica da oposição de direita derrotada no segundo turno. A escolha não traz os apoiadores do adversário e corrói a base social de apoio ao governo.

Instala-se, então, uma clássica crise de hegemonia no sentido Gramsciano, com uma separação das grandes massas de suas ideologias tradicionais e o abandono de suas crenças anteriores. Os representados da nossa democracia não mais se enxergam em seus representantes.

Neste momento, a grande mídia assume a liderança da classe dominante e busca impor sua pauta. Por outro lado, a desconfiança da base social traída nas eleições dificulta a superação dos sectarismos e ampliação das alianças na classe dominada de forma a se articular para tentar assumir como nova classe dominante.

Sob a liderança da mídia, a classe dominante vem impondo sua agenda e mobilizando um quantitativo expressivo de pessoas. Os partidos tradicionais de direita vêm a reboque, mas os corvos que criaram não os estão a obedecer, e quem começa a surgir no campo conservador como figuras mais expressivas são aquelas da extrema-direita.

Aqueles que poderiam ser a vanguarda da reação pelo campo da esquerda são os jovens que foram as ruas em junho de 2013 por mais direitos. Entretanto, sob muitos deles recai o peso da justiça burguesa que se não respeita as garantias constitucionais de um ex-presidente, o que dirá de moleques anônimos. Outros tantos quietos diante das inaceitáveis concessões do governo à direita com o gradativo desmonte de tudo que foi construído nos primeiros mandatos do PT. São as cicatrizes de junho.

As expressivas manifestações da direita no último domingo, 13, remetem ao pesquisador Robert Paxton e seu texto Five stages of facism , em que apresenta os cinco estágios para ascensão do fascismo. O texto, que ajuda muito a compreender o que se passa no Brasil de hoje e os perigos do porvir, conclui com três questionamentos que devemos fazer sobre os movimentos neo ou protofascistas que os permitiria superar um estágio nos quais seria impossível detê-los:

1. Eles estão se tornando enraizados em partidos que representam grandes interesses e sentimentos e conseguem ampla influência na cena política?

2. O sistema econômico e constitucional está num estado de bloqueio aparentemente insolúvel pelas autoridades existentes?

3. Uma rápida mobilização política está ameaçando sair do controle das elites tradicionais ao ponto que elas busquem ajuda para manter a ordem?

Intuitivamente se percebe que as respostas para o cenário brasileiro não são muito animadoras. E fica a pergunta: O que fazer?

Retomando Gramsci, o cenário continua incerto. A crise de hegemonia ainda não se resolveu com a retomada do controle pela classe dominante. A maioria da população ainda está observando, apesar das grandes massas nas ruas. Mesmo os que tomaram as ruas não sabem exatamente qual o objetivo a não ser a definição de um inimigo, como nos fascismos, no caso o PT e a esquerda (inclusive aqueles que se opõem ao PT pela esquerda).

O Estado e sociedade civil estão suficientemente organizados e não permitem a guerra de movimento das estratégias revolucionárias clássicas. Faz-se necessário, portanto, resgatar a guerra de posição de forma a cercar e sitiar o Estado burguês com uma contra-hegemonia para construção do país sonhado pelas meninas e meninos de junho de 2013.

É imprescindível, desta forma, que o governo federal compreenda a necessidade de uma sinalização de que haverá uma inflexão na política econômica e ruptura com a agenda derrotada nas urnas e que adote o programa apresentado ao povo brasileiro. Somente esta opção poderá livrar a primeira mulher Presidenta da República do cada vez mais inexorável caminho da deposição. E que não se engane a direita liberal, o que virá é o fascismo.

Crédito da foto da página inicial: Fernando Frazão/ABr

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1 resposta to “As cicatrizes de junho e ascensão do fascismo”

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