Não, senhoras e senhores, nem tudo está decidido e a virada pode ser histórica. Vejam por quê.
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Brasil Debate

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Luís Fernando Vitagliano

É cientista político e professor universitário. É colunista do Brasil Debate

 
Luís Fernando Vitagliano

As 5 razões pelas quais Haddad será eleito o 8° presidente da Nova República

O segundo turno convida o eleitor a repensar seu voto, a comparação fica mais fácil. O tempo de TV de ambos os lados vai ser de 15 minutos diários. Teremos debates. Ou não, mas nesse caso como o eleitor médio, sem convicção forte, vai encarar a fuga de Bolsonaro do debate?

10/10/2018

Não, senhoras e senhores, nem tudo está decidido e a virada pode ser histórica. O fato de nunca ter acontecido um revés tão grande como o que se desenhará não torna o fato improvável. A distância pequena de Bolsonaro em relação à vitória em primeiro turno não garante acúmulo preestabelecido para vencer em segundo turno. Mesmo aqueles que apostam na estratégia de Bolsonaro nas redes, que imita a vitoriosa campanha de Trump (e sua eleição nos EUA de uma figura desacreditada e rejeitada para o presidente eleito) estão enganados quando pensam que isso vai se repetir no Brasil – em primeiro lugar porque lá não tem segundo turno, em segundo lugar, porque mesmo nos EUA, Trump perdeu na votação popular (aqui teria perdido as eleições); só venceu no colégio eleitoral.

Apresento abaixo cinco argumentos que garantem uma virada histórica que acontecerá neste segundo turno:

Um: o eleitor brasileiro é extremamente volúvel. Essa é a principal característica do nosso eleitor. Não é a fidelidade partidária ou do campo ideológico. Excepcionalmente se vota a partir de convicções. No Brasil se vota com a emoção. Talvez isso se explique pelas nossas carências sociais ou pela esperança de que alguém possa dar jeito nas injustiças constantes, mas o fato é que a volatilidade do eleitor brasileiro dificulta qualquer campanha de contar com resultados dados. Ter um teto ou um piso pode ser rompido a qualquer momento pelo eleitor. Junto disso, somado ao número de partidos e candidatos, informação e desinformação na concentração dos meios de comunicação, tudo isso cria um clima de instabilidade eleitoral que é típico do nosso sistema, mas garante viradas históricas e muitas mudanças de votos durante as eleições. Bolsonaro ter 47% dos votos no primeiro turno não garante que ele terá os mesmos votos. E os pseudocientistas políticos de plantão fazem contas que não existem, somam os votos do candidato com o de outro de mesmo campo, como se a transferência fosse natural ou acontecesse em parte. Segundo turno é outra eleição e, embora nessa primeira semana tenhamos um recall do primeiro turno e as pesquisas devam apontar a vitória de Bolsonaro, duas semanas são muito, muito, muito tempo de campanha. Tempo o suficiente para uma grande virada.

Dois: A TV se reposicionará e vai derrubar as notícias falsas. Enquanto o pacto geral da televisão era por certa prudência em favor de Alkmin no primeiro turno. A maior parte dos meios de comunicação tradicionais não pode aceitar de bom grado que as FakeNews tome sua hegemonia política. Também neste caso não é possível a comparação com os EUA, onde as FakeNews venceu a TV. Lá os meios são descentralizados e a internet é ainda mais pulverizada e popularizada. Aqui, a TV é concentrada e a Globo parece pouco à vontade com o candidato do PSL. Está entre decidir sobre o PT (pelo qual nitidamente não tem o menor apreço) e o projeto da Record para superá-la tornando-se a Fox News dos trópicos. Será que a Globo vai assistir de camarote sua principal concorrente tornar-se a emissora mais influente do Brasil? Acho improvável. E para que isso não aconteça, basta a Globo combater as FakeNews para que o efeito do principal armamento que Bolsonaro para vencer o primeiro turno torne-se um placebo. As Fakenews baseiam-se em boato e, quando são rapidamente desmentidas, perdem efeito ou podem ter efeito inverso, uma espécie de efeito colateral que faz com que o atingido pela notícia se incomode com a manipulação. Se a Globo vai se unir ao PT? Pouco provável. Mas os esforços em paralelo podem fazer com que o combate à Record seja aquilo que Haddad precisa para vencer.

Três: a coalização que fez o impeachment se desfez e as consequências do processo foram desastrosas. Temer é o presidente mais impopular da era da Nova República. PSDB e PMDB se desmancharam eleitoralmente. As terceiras vias não se concretizaram. O Ministério Público foi pra cima dos partidos tradicionais e criou fatos políticos de modo a influenciar as eleições contra antigos aliados. Bolsonaro se beneficiou de tudo isso. Mas, juntar-se a ele quando as opções se afunilaram não é uma medida automática. O antipetismo está em processo de revisão. E as tendências autoritárias do Capitão assustam.

A democracia permite que os meios de comunicação e as oposições atuem livremente. Nos quinze anos de governo petista isso foi possível e nenhum sinal de recrudescimento das instituições foi visto. Mas, essa diferença entre os candidatos e partidos é nítida. De um lado a democracia é um valor a ser preservado. De outro lado, está o flerte com o autoritarismo.

PSL não existia como partido político e nada consistente existe a seu respeito. Seu candidato à Presidência já deu sinais claros de que não tem apreço pelas liberdades públicas das instituições. Como os partidos e setores da opinião pública que não estão necessariamente alinhados a isso vão se comportar? Uma guinada contra o autoritarismo pode mudar completamente a leitura de realidade de parte influente da opinião pública. Isso faz muita diferença.

Quatro: É muito mais fácil e simples a discussão de duas candidaturas apenas. A discussão em torno de dois projetos fica mais clara. O eleitor poderá abandonar a emoção e vai discutir política, sociedade, os rumos do país. Bolsonaro não tem projeto, não consegue caminhar pelos diversos temas, acaba por deslizar na avaliação do eleitor se poderá suportar ser um presidente que por quatro anos vai discutir economia com seu ministro da economia. Já precisou desautorizar Paulo Guedes sobre a CPMF e mudar a alíquota única de imposto de renda. Diz idiotices de tipo “tirar o Brasil da ONU” e não respeitar o acordo de meio ambiente de Paris. Aliás, a ausência total de uma posição sobre o meio ambiente nos coloca no obscurantismo pleno sobre um tema tão sério e necessário. Não duvido que sua posição simplista seja: para os índios bala e para a Amazônia motosserra. Nesse quesito, não é apenas falta de propostas, as propostas simplistas para uso da internet são impossíveis de comparar entre seriedade da questão brasileira e as palavras de ordem.

Cinco: a exposição dos candidatos vai ser necessária e decisiva. Diante de Haddad, Bolsonaro vai se apresentar como sempre foi: um deputado medíocre do baixo clero. Sua campanha é constituída basicamente de lances midiáticos, mas isso não se sustenta por tanto tempo. O segundo turno convida o eleitor a repensar seu voto, reavaliar sua posição, a comparação fica mais fácil. O tempo de TV de ambos os lados vai tornar 15 minutos diários falas oficiais. Além disso, teremos debates. Um, dois ou três? Talvez nenhum. Mas como o eleitor médio, que não tem firmeza do seu voto, vai encarar o fato de que Bolsonaro estaria fugindo do debate?

Não será necessário que aconteça o esperado “fato novo”. Este é outro chavão na política. E vários deles foram desbancados nestas eleições. Mas, o conjunto da campanha e dos movimentos ainda importa. Campanhas importam. Eleições são vencidas por campanhas. Na medida em que a virada se desenhar, o desespero do lado do PSL vai falar mais alto e então a falta de estratégia fará com que erros sejam cometidos. E o que é mais importante: eleição se vence na abertura das urnas. Até lá, assume o controle do processo quem está mais preparado. O resultado, esse só vai acontecer em 28 de outubro.

Crédito da foto da página inicial: Ricardo Stuckert

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