A autora faz uma comparação entre a greve dos caminhoneiros no Brasil hoje e o movimento de grandes proprietários rurais na Argentina, em 2008, contrários a decisões da presidente Cristina Kirchner, e que causou sérios problemas de abastecimento.
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Brasil Debate

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Camila Tribess

É cientista social e mestre em ciência política pela Universidade Federal do Paraná. Foi bolsista Capes em programa de cooperação internacional em Timor-Leste. Atualmente é consultora do PNUD para a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.

 
Camila Tribess

Algumas reflexões sobre a greve dos caminhoneiros

O que temos hoje é a tentativa de grandes empresários de causar danos à economia do País e à vida da população em geral até conseguirem seus objetivos – que não são os mesmos objetivos dos trabalhadores presentes, muitos deles sob pressão, no movimento

No ano de 2008, a Argentina enfrentou sérios problemas de abastecimento por causa de estradas fechadas pelo movimento organizado por grandes proprietários rurais contra o aumento de impostos proposto pelo governo de Cristina Kirchner, e que ficou conhecido como “el conflicto del campo”.

Os maiores produtores-exportadores da Argentina, naquele momento, colocaram seus caminhões, caminhonetas, tratores e funcionários para bloquearem estradas e causar um caos de abastecimento no país.

A comparação com o atual movimento de caminhoneiros no Brasil parece bastante razoável. Ao mesmo tempo em que, sim, há no movimento reivindicações antigas dos funcionários e autônomos, expressas no agora já sancionado “Estatuto do Caminhoneiro”, fica a pergunta: se o estatuto foi aprovado e sancionado e o governo garantiu que não haverá aumento no preço do diesel nos próximos meses, por que o movimento não acaba?

Alguns “manifestantes” têm denunciado que estão nos bloqueios por pressão e ameaças de “líderes” que respondem a uma organização que está acima do interesses desses trabalhadores.

Sim, pois não podemos nos enganar. Greve de professores, garis, funcionários públicos, metalúrgicos ou qualquer outro grupo que se mobilize contra as explorações do capital são rapidamente reprimidas e consideradas ilegais. Existiram alguns episódios lamentáveis no início dos protestos – que, volto a afirmar, tinha reivindicações justas que já foram atendidas. No entanto, agora, o que resta desse movimento?

Para essa resposta volto à comparação do movimento de 2008 na Argentina. O que temos hoje é a tentativa dos grandes empresários de, através da pressão de suas empresas e recursos, de causar danos à economia do País e à vida da população em geral até conseguirem seus objetivos. Estes, por sinal, estão longe de serem os objetivos dos trabalhadores que estão ali no movimento, muitos por pressões já denunciadas.

As faixas que aparecem nas mãos de certos “manifestantes”, a fala de certos políticos conclamando que não vai haver trégua enquanto não alcançarem o impeachment são os sinais mais óbvios de que o que resta desse movimento são os interesses do grande capital, que começa a perder a vergonha de se assumir golpista.

Todas as greves de trabalhadores são justas e devem ser apoiadas. Quando essas greves tornam-se motes para os interesses obscuros do grande capital, é preciso rever o que está em jogo. Aqui, os trabalhadores caminhoneiros já foram jogados de lado e não são mais os seus direitos e interesses que estão sendo reivindicados.

Crédito da foto da página inicial: EBC

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