Brasil Debate

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Marcelo Zero

É sociólogo, especialista em Relações Internacionais e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI). É colunista do Brasil Debate

 
Marcelo Zero

Algo no ar

Neste Brasil às vésperas das eleições, os conservadores, na falta de outros argumentos, vociferam contra a corrupção.

Com uma indignação cuidadosamente seletiva, baseada em depoimentos de bandidos premiados, sustenta-se uma narrativa grotesca e falaciosa, que busca atingir justamente quem procurou desbaratar a quadrilha recompensada pela delação e ungida pelos decibéis da velha mídia.

Essa indignação, surgida estrepitosamente do segredo de justiça, não consegue ocultar seus evidentes objetivos eleitoreiros e ostenta, sem discrição e acanhamento, a hipocrisia típica daqueles que, imersos no vício, prestam desavergonhado tributo à virtude.

A ostentosa e seletiva indignação não consegue ocultar também, ao olhar mais atento à realidade que à pantomima midiática, alguns processos de corrupção, em sentido lato, que corroem há muito o país.

Há, por exemplo, a insidiosa corrupção de um passado de oportuna impunidade, que ocultou, na mídia e na justiça, casos grotescos de desvios e desmandos, como os relativos às impolutas privatizações e à compra de ilibados votos na emenda constitucional da reeleição, a qual permitiu a continuidade do alegre regime do engavetador-geral, que sepultava, em suas virtuosas gavetas, vícios inconvenientes ao bem maior da venda da nação.

Não se pode esquecer também dos prejuízos causados à nação pela sonegação, muito maiores que os da corrupção estrito senso, mas que permanecem convenientemente longe dos holofotes partidarizados de uma mídia que, além de sonegar informações, sonega igualmente, e no mesmo volume, impostos e contribuições previdenciárias. E é bom não olvidar dos danos ocasionados pelas taxas de juros excessivas e pelos spreads bancários abusivos, que cevam o vício preguiçoso de uma casta parasitária, em detrimento da suada virtude da produção e do trabalho.

Mais solerte ainda é o dano causada à democracia por um sistema de representação aprisionado pela generosidade altruísta do poder econômico, que se esparrama num ubíquo caixa dois, só punível, no entanto, quando praticado por partidos muito específicos. A única solução racional e efetiva para esse mal da democracia, a Reforma Política, caiu no doce olvido dos “homens de bem”, tal como o mensalão e o trensalão do PSDB e outros pecadilhos facilmente relevados pela moral de ocasião.

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Mas o grande mal, a grande corrupção, tange à pobreza e à desigualdade. Com efeito, há algo mais moralmente abjeto que condenar milhões de pessoas à pior forma de violência, como dizia o virtuoso Gandhi? Existe algo mais eticamente condenável que deixar corromper e apodrecer vidas e sonhos por falta de oportunidades?

Entretanto, não causava pejo aos nossos virtuosos de ocasião, à moral neoudenista eleitoreira, a miséria que condenava milhões de brasileiros à iniquidade da fome e das privações humilhantes. Tão elevados eram, que não os comovia o sofrimento daqueles que tinham de rastejar por migalhas para sobreviver.
Se comovidos ficavam, não o demonstravam em suas políticas, talhadas para afirmar unicamente a racionalidade aética da economia conduzida pelo e para o mercado, essa pulcra reificação que oculta, em suas entranhas conceituais, a feiura moral do culto à desigualdade e à indiferença.

Paradoxalmente, foram justamente os acusados pela moral seletiva e eleitoreira que implantaram um projeto político ético, profundamente ético, que tirou 36 milhões de brasileiros da miséria e o Brasil do Mapa da Fome. Virtude maior que essa não há.

Virtude que, evidentemente, incomoda quem estava acostumado à lassidão moral das nossas históricas e aberrantes desigualdades. É o que denuncia a anunciada intenção de candidato, que respirou os doces ares dos privilégios e surfou nas águas cálidas do nepotismo, comprovado por informações oficiais, de retomar as velhas políticas promotoras de desigualdades, desemprego e reduções salariais. Intenção regressiva hipocritamente camuflada pela propaganda aética da “mudança”.

Dessa luta moral e política entre o modelo substancialmente ético da solidariedade e da igualdade e o modelo aético de um paleoliberalismo fracassado e requentado, resulta difícil saber quem sairá vencedor.

Sabe-se, porém, que há algo no ar, além dos aviões que decolam de aeroportos públicos.

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