Brasil Debate

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Roberto Alexandre Zanchetta Borghi

É economista. Doutor pela Universidade de Cambridge, Reino Unido, e autor da tese “Growth trajectories in the globalisation era: a macrosectoral analysis of China and Brazil”

 
Roberto Alexandre Zanchetta Borghi

Abertura econômica e crescimento: lições da experiência chinesa

Mais do que liderado pelas exportações, o desempenho chinês é um caso de crescimento sem restrição externa, baseado no investimento para a diversificação e o crescente encadeamento da produção industrial doméstica

Muito se debate sobre a inserção brasileira em cadeias globais de valor e o grau de abertura da economia para os fluxos internacionais de comércio e de capitais. Toma-se, quase que por pressuposto, que o maior grau de abertura necessariamente resulta em maior crescimento econômico.

O caso chinês é recorrentemente utilizado para ilustrar tal conclusão, atribuindo a consolidação da China como superpotência mundial em menos de trinta anos à abertura do país. No entanto, uma análise mais profunda sobre o processo de abertura de sua economia e o sucesso chinês oferece reflexões alternativas a respeito de uma possível inserção externa virtuosa.

Em primeiro lugar, a abertura econômica chinesa ocorre em meio a um processo mais amplo de transição de uma economia totalmente planificada para uma economia socialista de mercado, com participação crescente, porém paulatina, do mecanismo de preços nas transações econômicas. Ambos os processos são regidos por forte controle estatal.

O processo de abertura econômica que se inicia em 1978 possui um caráter extremamente gradual, experimental e, sob a coordenação estatal, responsivo aos interesses nacionais e às necessidades identificadas ao longo do tempo. Reconhece-se a importância de recursos externos, sobretudo tecnologia e capital, para complementar recursos domésticos na promoção do desenvolvimento industrial.

Até a década de 1990, quando uma nova fase de reformas de transição econômica se estabelece, os movimentos de abertura comercial e investimento externo permanecem limitados. O passo institucional central nessa direção ocorre com a adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, após mais de uma década de negociação.

Como resultado, por exemplo, tarifas de importação são reduzidas e investimentos externos no setor de serviços são permitidos, com um impulso à corrente de comércio do país.

Cabe ressaltar, entretanto, que tais investimentos se concentram até aquele momento nos setores industriais, buscando desenvolver capacitações domésticas por meio de transferências de tecnologia e assegurar a competitividade internacional da indústria, fortemente favorecida pela moeda nacional desvalorizada e estável que perdura até 2005. A abertura financeira da economia chinesa é ainda mais lenta, posterior e permanece restrita.

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Em segundo lugar, atribuir o dinamismo econômico chinês em sua maior parte aos mercados externos nesse período é desconhecer a complexidade da economia chinesa. Apesar da extrema importância dos fluxos comerciais, sobretudo na década de 2000, que coloca a China como grande exportador e importador mundial, o crescimento econômico do país está fortemente atrelado à dinâmica da demanda doméstica, em especial do investimento.

Ao invés de liderado pelas exportações – afirmação generalizada para toda a economia quando válida particularmente para os setores têxtil e eletrônico –, o crescimento chinês constitui muito mais um caso de crescimento sem restrição externa, baseado no investimento para a diversificação e o crescente encadeamento da produção industrial doméstica.

Em terceiro lugar, a inserção em cadeias globais de valor depende não apenas das políticas governamentais domésticas, mas também das estratégias corporativas de grandes empresas transnacionais. Quando se recomenda uma inserção brasileira mais ativa nessas cadeias, é necessário entender que há uma rede de produção regional articulada e consolidada entre China e outros países do sudeste asiático, o que por um lado coloca barreiras competitivas a novos entrantes em termos globais, mas, por outro, estimula a pensar também sobre alternativas de integração produtiva regional.

Portanto, a experiência chinesa, brevemente relatada aqui, enfatiza o ritmo e a condução do processo de reformas liberalizantes condicionado ao desenvolvimento de um setor industrial doméstico competitivo, o qual é visto como chave do crescimento econômico sustentado.

Também destaca a possível autonomia de política econômica dos países na promoção de um processo de inserção externa compatível às suas necessidades ao longo do tempo. Pondera, ainda, sobre as dimensões e a complexidade de grandes economias cujo dinamismo depende, em larga medida, de sua estrutura interna.

Tais constatações renegam a hipótese reducionista de que o sucesso econômico chinês resulta de sua abertura econômica e de que um amplo e indiscriminado processo de abertura necessariamente conduz o país a uma trajetória sustentada de crescimento, permitindo repensar estratégias de inserção externa para outras economias emergentes.

Crédito da foto da página inicial: Télam/EBC

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3 respostas to “Abertura econômica e crescimento: lições da experiência chinesa”

  1. Máriode Oliveira Pinheiro disse:

    Esse texto a´deve ser um resumo(mal resumo).Está ruinzinho.

  2. Luiz Parussolo disse:

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    Publicado em 13/04/2013 às 13:40 – Atualizado em 13/04/2013 às 13:40
    Dívida corporativa na China sinaliza crise eminente
    Por Gao Zitan em China
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    Especialistas e instituições econômicas descobriram que a dívida das empresas da China em relação ao PIB é a mais alta do mundo. Este valor é considerado excepcionalmente alto e estudos sugerem que sinais da crise financeira já aparecem (STR/AFP/Getty Images)

    A dívida corporativa chinesa em relação a seu PIB é a maior do mundo e especialistas concluem que sinais indicadores de crise financeira já aparecem.

    A China tem a maior bolha de crédito no mundo, sob a forma de títulos de obrigações corporativas e empréstimos de curto prazo, dizem analistas. A revista Caijing de Pequim relata que a relação entre a dívida corporativa e o PIB na China alcançou 151%, citando uma pesquisa feita por analistas da Zero Hedge.

    Este valor é questionado por alguns, mas outros analistas apresentam uma conclusão similar. A dívida corporativa total da China totalizava 108% do PIB em 2011, subindo para 122% do PIB em 2012, uma alta de 15 anos, diz a GK Dragonomics numa análise econômica de novembro de 2012 publicada na Bloomberg Business Week, intitulada “O buraco negro da dívida corporativa chinesa”. Mesmo a pesquisa de especialistas chineses chega a conclusões semelhantes. Estudos realizados por Liu Yuhui, especialista financeiro da Academia Chinesa de Ciências Sociais, indicam que os setores não-financeiros na economia chinesa, que incluem os setores empresarial, governamental e residencial, respondem por 114,8 trilhões de yuanes (US$ 18,54 trilhões) em dívida. Isto equivale a 221% do PIB de 2012 de 51 trilhões de yuanes (US% 8,38 trilhões), segundo um artigo de 8 de abril do Primeiro Diário Financeiro.

    Alguns especialistas acreditam que a “relação da dívida do setor não-financeiro” é o melhor indicador da dívida excessiva na China. Após subtrair 18 trilhões de yuanes (US$ 2,91 trilhões) da dívida do setor residencial (34,7% do PIB) e cerca de 68 trilhões de yuanes (US$ 5,33 trilhões) da dívida do setor público (59,4–65,12% do PIB), os restantes 68 trilhões de yuanes (US$ 10,98 trilhões) em dívida no fim de 2012 podem ser atribuídos às empresas, setores não-financeiros. Isso representa 125% do PIB, o que corresponde aos números indicados pela Zero Hedge e pelos estudos da GK Dragonomics.

    Independente de a relação real ser 151 ou 122%, os economistas concordam que uma percentagem tão alta é insustentável. A dívida corporativa na China como percentagem do PIB ultrapassou em muito a margem aceitável em qualquer sistema econômico avançado, que de é cerca de 50 a 70%. Do ponto de vista econômico, esta relação elevada tem resultado em graves problemas econômicos.

    Embora preocupantes, esses dados não contam toda a história. De acordo com um artigo de 9 de abril do China Times, o especialista financeiro Liu Yuhui disse que a rentabilidade dos empreendimentos industriais chineses (lucro líquido na receita total) é de apenas 5 a 6%, metade da média global, enquanto a dívida corporativa média na China é cerca de 3 a 4 vezes do padrão global.

    “As empresas têm visto seus negócios abrandarem e as receitas não foram o que eles esperavam. Eles preencheram a lacuna assumindo mais dívidas”, diz Andrew Batson, o diretor de pesquisa da GK Dragonomics, segundo a Bloomberg.

    Três sinais de crise

    Uma alta relação de alavancagem é um dos claros sinais de crise econômica. Zhang Zhiwei, economista-chefe da Nomura Holdings, listou três indicadores de crise econômica – alta alavancagem, aumento rápido dos ativos e potencial de crescimento econômico decrescente – em seu artigo “China: Riscos crescentes de crise econômica”. Infelizmente, a China está experimentando todos os três.

    A fim de ocultar esses sinais, o regime chinês tem expandido o mercado de crédito para estimular a economia.

    Como resultado, o montante de dinheiro em circulação (dinheiro M2) aumentou de 16 trilhões de yuanes (US$ 2,58 trilhões) em 2002 para 100 trilhões de yuanes (US$ 16,15 trilhões) em 2013. Em pouco mais de uma década, a oferta de moeda na China aumentou cinco vezes. A impressão excessiva de moeda é considerada a principal causa da inflação.

    Além disso, dependendo da exportação e de investimentos não regulamentados (como desenvolvimento imobiliário) para impulsionar o crescimento econômico têm resultado numa estrutura econômica distorcida. O ex-premiê chinês Wen Jiabao disse a famosa frase que o crescimento da China é “desequilibrado, descoordenado e insustentável”.

    Dívida do governo local

    O ex-ministro das finanças Xiang Huaicheng disse em conversações da alta liderança econômica no Fórum Boao 2013 que a dívida dos governos locais tinha atingido 20 trilhões de yuanes (US$ 3,23 trilhões), segundo um artigo de 7 de abril da China News.

    Mesmo que ele não tenha admitido, outro economista chinês, Hu Zuliu, destacou no Fórum Boao que a China será o local onde a crise da dívida global começará, informou o 21st Century Business Herald no mesmo dia.

    O economista Larry Lang acredita que as crises financeira e bancária já começaram na China. Em agosto de 2012, Lang listou oito graves situações de crise que ameaçam explodir. Elas incluem o uso excessivo de recursos, capacidade produtiva excessiva, crise da dívida, inflação e crise bancária.

  3. Carlos Tramontina disse:

    Excelente artigo.

    Mas talvez o mais importante seja que a China,ao contrário do Brasil, manteve uma baixa abertura financeira.

    De fato, acho que a ausência de cambio flutuante e a intensa e propositiva intervenção sobre valor do yuan/renmimbi tem um poder extraordinário na defesa das exportações e na inserção chinesa em cadeias globais de valor.

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