Uma crônica sobre os efeitos, daqui a alguns anos, da reforma trabalhista e da escola sem partido sobre o pensamento crítico, os sonhos dos alunos e a qualidade de vida dos professores.
" />

Brasil Debate

Brasil Debate

Luís Fernando Vitagliano

É cientista político e professor universitário. É colunista do Brasil Debate

 
Luis Fernando Vitagliano

A vida como ela será: educação e reforma trabalhista

A reforma trabalhista de 2017 foi mais prejudicial à educação que qualquer mudança curricular. Acabaram com o pensamento crítico e com a carreira ao mesmo tempo, e ainda com qualquer esperança de emancipação pela educação

O ranger das dobradiças quando João Curralo abriu a porta denunciava que há tempos não havia óleo na manutenção dos móveis daquele apartamento castigado.

Boa noite amor!… e dirigiu-se para cumprimentar a esposa com a mesma disposição de um jovem amante – mesmo depois de duas década completadas de relacionamento. E ela, com a mesma reciprocidade adolescente logo depois do carinho correspondeu: Nossa, por que chegou tão tarde?

Tive que esperar um pouco na baldeação, quase peguei o último ônibus porque cheguei tarde no metrô.

Outra vez ficou falando com os alunos!? Amor, não podemos mais gastar com taxi. Esse último ônibus já é bem tarde, tenta não perder.

É difícil, eles gostam de fazer perguntas depois da aula; não pelo AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem). Sabe como é, tá cada vez mais raro o contato com os jovens estudantes, gosto de aproveitar esses momentos.

Mas, já não podemos nos dar ao luxo… taxi nem pra emergência. O orçamento não comporta. Além disso, o que resolve? Se ao menos em 2016 soubéssemos de como essas mudanças teriam efeito, ainda dava tempo, conversar agora é perda de tempo… tudo vazio, tudo digital, tudo técnico, tudo supérfluo… você ainda é aquele mesmo sonhador de vinte anos atrás. Não cabe mais, estamos na pós-modernidade.

É por isso que você ainda me atura, Jussara. A educação mudou, o trabalho mudou, o mundo mudou, mas eu ainda não mudei… E deu um leve toque na cintura da esposa que a fez cócegas, enquanto se dirigiam à cozinha… Se ao menos tivéssemos a noção à época que escola sem partido era uma luta desnecessária e que, na verdade, o EaD de sociologia, antropologia, filosofia, pensamento social, fariam a vez de desmontar a formação crítica… ao menos teríamos resistido de outro modo.

A reforma trabalhista de 2017 foi mais prejudicial à educação que qualquer mudança curricular. Acabaram com o pensamento crítico e acabaram com a carreira ao mesmo tempo, e com qualquer esperança de emancipação pela educação. É difícil os alunos de hoje perceberem o tamanho do estrago e a falta que o pensamento crítico faz. Não conheceram a escola como instituição… os alunos, esses pobres coitados, não têm culpa, se só querem o certificado pra tentar ter um pouco de valorização é porque acham que o mundo é essa insegurança de hoje.

Eu sei João, não pense que no secundário aconteceu coisa muito diferente… ainda preservo minhas aulas, mas toda criticidade também se foi. EaD é pras humanas, pras inutilidades, o que se preservou foram as matérias técnicas, sem nenhum debate, números e fórmulas. Não é culpa de ninguém, os alunos não têm como saber que antigamente a preparação gerava mais noção de realidade, tinha mais capacidade intelectual e de análise… A construção de liderança, o papel transformador da educação, tudo isso é passado ou para poucos. Agora já foram gerações afetadas pela mudança. O ensino na média não tem mais nada a ver com formação, é pura preparação pra servir ao cliente…

Depois de tanto tempo a gente ainda é considerado sonhador, saudosista. Mas agora nem temos tempo pra dizer isso. Os trabalhos são vários, inseguros e sem condições de atender um mínimo de estrutura na nossa própria vida. Todo mundo se acostumou a várias atividades em vários momentos e tudo corrido, mal feito… O que é isso aqui?

São as trufas que estou fazendo para vender na sala dos professores. Tive até encomenda essa semana.

Nossa! Que bom, eu não botava fé nisso. Afinal, a vida anda bem complicada pra todo mundo. Outros professores também já devem estar pensando em como vão ganhar a vida no recesso.

É verdade, mas tem também os funcionários do colégio e os terceirizados. No final tem até um universo grande de clientes. Afinal, tudo mundo tenta compensar um pouco no doce.

Enfim, pelo menos as férias de verão nesse ano começam mais cedo. Dá pra descer pra Praia Grande mais cedo. Podemos aproveitar mais o tempo.

É, mas você já sabe que o Paçoca vai pegar pesado esse ano… e o aluguel no litoral ficou mais caro. Vamos ter que trabalhar mais na barraca dele pra poder pagar os dois aluguéis. Esquece fugidinha pra uma onda no final do dia porque ele disse que vai descontar até os minutos…

Poxa! Mas até nosso trabalho de verão afetado pela crise? No meio do ano a gente não consegue nada. Daqui a pouco temos que nos render ao serviço temporário em Shopping. Bom, pelo menos os alunos não nos reconhecem mais no litoral, já quase não há estudantes descendo ao litoral em janeiro e fevereiro…  E, pra falar a verdade, é mais fácil encontrar com alunos pelo AVA, quase não há mais interação humana.

Amor, encontrar aluno é o de menos. O importante é que com o recesso de final de ano ainda podemos ter trabalho de verão, quando até isso acabar, como vamos pagar o aluguel no final do ano? Com apenas os salários do período letivo, o trabalho intermitente não nos dá outra opção. Já não recebemos o salário de julho, agora se perdermos os trabalhos de verão, não vai dar…

Estou pensando em largar as aulas amor. Nossos filhos já estudaram, não precisamos mais da bolsa de estudos do colégio. Agora posso procurar um emprego ano inteiro sem oscilações…

Não sei, tá valendo mais a pena né!? Talvez você tenha razão…

Crédito da foto da página inicial: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Clique para contribuir!

Comentários