Brasil Debate

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Camila Tribess

É cientista social e mestre em ciência política pela Universidade Federal do Paraná. Foi bolsista Capes em programa de cooperação internacional em Timor-Leste. Atualmente é consultora do PNUD para a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.

 
Camila Tribess

A principal vitória é a mobilização nacional

Se há algum vencedor no domingo é o grupo que sabe bem pelo que está lutando e não precisa de mitos e salvadores da pátria para se sentir esperançoso. É esse grupo que vai resistir, seja às negociatas do governo PT, seja ao retrocesso de um suposto governo PMDB

Não importa o resultado desse domingo, todxs já perdemos, de antemão, muitos dos avanços dos nossos sôfregos 30 anos de democracia e estamos prestes a perder muito mais. Não há cenário bom para domingo e, especialmente, pra segunda-feira, dia 18 de abril de 2016. Qualquer pessoa, não importa de que lado esteja, sabe que ambas as saídas colocadas por este sistema apodrecido são ruins e inviáveis a partir de agora.

Se Dilma ficar, no dia seguinte aparecerão outros pedidos de impedimento, outras acusações burocráticas que justifiquem a cruzada política em curso contra ela desde outubro de 2014. Governará um país dividido e cheio de ódio, como sempre foi, mas que agora não se envergonha nem tenta tornar a senzala um puxadinho da casa grande. Além disso, governar com uma Câmara em que quase 2/3 são abertamente contra o governo exigiria um esforço de articulação e alianças que talvez seja pior do que o golpe propriamente dito.

Talvez seja com isso que a oposição golpista e oportunista tenha contado desde o início, tirar a Dilma da presidência seria lucro, inviabilizar completamente os 4 anos de governo sempre foi o plano. Por outro lado, acredito que a essa altura do jogo ninguém mais tenha a ilusão de que isso é sobre corrupção. Nunca foi. Mas com Panama Papers, mais delações e o próprio negociar do processo – com os patéticos áudios vazados e tudo mais – não deixa mais esconder que nenhum dos líderes da oposição quer saber de corrupção ou de melhorar o país.

Querem aplicar o velho modelo, sempre apresentado como “do futuro”, de privatizações, terceirizações, cerceamento de direitos civis e ataque aos direitos sociais e econômicos. Basta ler o plano de Temer para seu suposto governo, fruto do  “maquiavelismo provinciano”, como bem denominou Celso Amorim, para ver as velhas falas sempre maquiadas para serem vendidas como novas. Mas o pior talvez seja Dilma não ser impedida, mas também não conseguir impedir, ou até negociar essas mesmas pautas, com estes mesmos congressistas, nesse mesmo nível surrealista de debate político que nos espera nos próximos 2 anos.

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Já tive que ouvir dizer que Cunha, apesar de corrupto, será o homem que vai salvar o Brasil. Dentro desse raciocínio absurdo estão os “inocentes” (se é que alguém pode se denominar de inocente nessas circunstâncias), mas principalmente aqueles que sabem exatamente o que estão fazendo. Aqueles cuja pauta é o fim da CLT e de todos os direitos sociais. Aqueles que, parecendo profetas, rodam suas bandeiras e mobilizam em nome de uma fé cega os que ainda possuem alguma esperança frágil e comovida.

Mas há um outro lado, claro. O outro lado vai para carros de som dizer abertamente: somos oposição ao governo Dilma, mas não aceitamos retrocessos, não aceitaremos o golpe. Esse grupo esteve nas ruas desde sempre, foi, sim, desmobilizado por interesses daqueles do pato, do poder e da Lava-jato, mas sempre resistiu, se colocou. Ocupou ministérios, fazendas e prédios quando foi necessário, foi pra rua por 20 centavos, pelas escolas, pela qualidade do ensino, pela merenda. Esse grupo talvez seja o único ganhador de domingo. Apesar de ser também o primeiro a ser perseguido na caça às bruxas e o primeiro a sofrer os cortes de orçamento e o ataque aos direitos.

Esse grupo sabe bem pelo que está lutando e não precisa de mitos e salvadores da pátria para se sentir esperançoso. É esse grupo que vai resistir, seja às negociatas do governo PT, seja ao retrocesso de um suposto governo PMDB (seja Temer ou algum outro). Ninguém vai sair ganhando no domingo, mas quem sempre esteve na luta e sabe pra onde caminha seguirá lutando, resistindo e caminhando… talvez para esses grupos a vitória já tenha vindo – a vitória do reencontro e da mobilização.

Crédito da foto da página inicial: CUT

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1 resposta to “A principal vitória é a mobilização nacional”

  1. Eduardo disse:

    Ola,
    so imaginando…
    200 mil pessoas em Copacabana e nenhumazinha na frente das casa de Cunha ou Bolsonaro.
    tá esquisito esse nosso nao vai ter golpe, vai ter luta.
    Claro culpar o PT é sempre mais fácil…

Comentários