Segundo o autor, apesar de alguns bons resultados de sua política externa, como a intensificação da cooperação Sul-Sul e com os BRICS, Dilma sofre com críticas nesse campo até de setores progressistas.
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Brasil Debate

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Daniel Rei Coronato

É professor de Relações Internacionais do Centro Universitário SENAC-SP e doutorando em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas

 
Daniel Rei Coronato

A política externa de Dilma e suas narrativas

Dilma e seu corpo de colaboradores diretos, vitoriosos nas urnas, parecem estar diante de grande dificuldade para criar uma narrativa positiva que reconheça os avanços do seu governo em assuntos internacionais

04/12/2014

A narrativa é um dos elementos fundamentais da política, especialmente da política externa de um país. A forma como fatos são contados, interpretados e manipulados, geralmente separa sucesso e fracasso, ainda que a realidade objetiva não dê elementos suficientes para uma análise unidimensional.

Mesmo que a tradição orwelliana nos diga que a história é escrita pelos vencedores, Dilma Rousseff e seu corpo de colaboradores diretos, vitoriosos nas urnas, parecem estar diante de grande dificuldade para criar uma narrativa positiva que reconheça os avanços do seu governo em assuntos internacionais.

Suas conquistas e triunfos foram apequenados frente à imensidão de entendimentos sobre a atuação do Brasil no cenário global, trazendo à tona todo o tipo de dedução e especulação.

A comunidade acadêmica, que em política externa tem historicamente ficado à mercê do conhecimento produzido por pesquisadores com fortes ligações com o poder, têm mantido constante má vontade de dialogar ou contrapor com argumentos científicos os debates postos pela grande mídia e nas ruas.

Essa pequena fidalguia de detentores das narrativas científicas dá mostras que pretendem proporcionar um papel negativo nos manuais que regularmente são produzidos pelos mesmos.

As esquerdas, mesmo que parcialmente (e provavelmente por pouco tempo), se reuniram em oposição a um adversário comum no segundo turno das eleições de 2014, igualmente mantiveram a tônica de crítica ao posicionamento brasileiro.

Além disso, apesar de ainda estarmos presenciando o apagar das luzes do seu primeiro mandato, fica claro a pouca disposição de parte significativa intelectualidade em legar à Dilma um papel favorável.

Já a costumeira e esperada crítica de setores conservadores e de direita, surpreendentemente, parece aqui fazer eco também em setores progressistas.

Ainda que por vias diferentes, todas essas esferas mantêm um clima de desconfiança generalizado, variando com maior ou menor intensidade na difusão desta insatisfação latente.

Este quadro interpretativo de prevenção, e até certa cisma, é difuso e nem sempre amparado na racionalidade objetiva e concreta. Independentemente, então, da comprovação empírica dos fatos, os argumentos que pesam contra o primeiro mandato parecem seguir duas grandes linhas interpretativas.

A primeira delas versa sobre a incapacidade brasileira de defender o interesse nacional. Por meio de uma análise subjetiva e pouco explicativa, afirmam que o País deixou de executar uma política de Estado e passou a ser, como afirmava o programa de governo da então candidata Marina Silva, “refém de facções ou agrupamentos políticos”.

Frequentemente usando do lugar-comum sobre o que dizem ser uma ‘partidarização’ ou ‘politização’ da política externa, Dilma teria permitido que o Partido dos Trabalhadores (PT) assumisse a condução da diplomacia e inserção internacional do País.

A consequência desta ação seria desastrosa: por meio de ideologias partidárias, o Brasil se aproximou de países questionáveis, especialmente ‘bolivarianos’, deixando de lado a tradição de boa relação com o ‘norte’, além de dificultar a integração da economia brasileira às grandes cadeias globais.

Por outro lado, há toda uma crítica desenvolvida na ideia de inaptidão da figura da presidenta em fazer política. Por vezes somadas ao discurso anterior, a capacidade de Dilma é ordinariamente criticada e alvo de elucubrações das mais diversas.

Sua fama de dura e altiva tem percorrido todo o imaginário que cerca a figura histórica. Até mesmo o seu suposto medo de avião tem sido usado, em uma lógica digna de conversa de botequim, como um argumento cabal da sua inabilidade de ser chefe de Estado de um país como o Brasil.

Somado a isso, a comparação com seu antecessor completa o quadro: sempre com desvantagem de Dilma frente ao ex-presidente Lula, adorado pelas massas e respeitado por parte substantiva da intelectualidade.

Neste embate, a presidenta perderia não só em carisma como na capacidade de agregar interesses em um projeto maior de país. No imaginário coletivo de política externa, Lula seria o grande articulador e Dilma uma burocrata, que, apesar de bem intencionada, não tem os predicados necessários para dar prosseguimento ao legado do antecessor.

Assim, mesmo com avanços apoiados em fatos objetivos, como a intensificação da cooperação Sul-Sul e com os BRICS, a defesa dos direitos humanos em diversos fóruns internacionais, a manutenção e por vezes aumento da construção de infraestrutura regional, defesa dos países em desenvolvimento, compromisso explícito com a paz, democracia e reforma dos organismos internacionais, reposicionamento das forças armadas com a compra dos caças suecos, aprimoramento de mecanismo de participação social na política externa, além da resposta ao grave caso de espionagem envolvendo o governo norte-americano, o seu governo não foi capaz de metabolizar e defender suas conquistas e amansar as dúvidas.

A receita para sair dessa posição não é nada fácil…

 

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