Poucos líderes de Estado mostraram tamanha capacidade política para semear o caos no comércio internacional como Donald Trump.
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Brasil Debate

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Marília Bassetti Marcato

É pesquisadora do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (NEIT/Unicamp) e doutoranda em Economia (IE/Unicamp)

 
Marilia Bassetti Marcato

A política comercial de Trump: a escalada da ignorância

O presidente norte-americano parece estar dando os primeiros passos para uma guerra comercial de amplitude global. Ao tentar recuperar a hegemonia na esfera produtiva, acaba por criar um vazio político que certamente será ocupado

15/03/2018

– Homem doido, estás incorrendo em erro. Afirmo que não há escuridão, mas sim ignorância, na qual tu estás mais perdido que os egípcios em sua bíblica neblina.

(Noite de Reis (Cena II, Quarto Ato), William Shakespeare)

 

Poucos líderes de Estado mostraram tamanha capacidade política para semear o caos no comércio internacional como o Sr. Donald Trump. Durante sua campanha, Trump afirmou que abandonaria os acordos comerciais que não fossem “justos” e que, segundo ele, geram desemprego e baixa produção industrial aos Estados Unidos. Sua lógica é clara: é preciso retomar a produção industrial em território estadunidense para recuperar os empregos perdidos. Da visão (pouco) multilateral de Obama para a explícita política comercial americana guiada pela filosofia “America First”, o governo Trump tem alterado o protagonismo dos Estados Unidos no mundo.

No polêmico vídeo lançado em 21 de novembro de 2016, o recém-eleito presidente diz que pretende retirar os Estados Unidos do Tratado Transpacífico (Trans-Pacific Partnership – TPP) logo no seu primeiro dia no salão oval. A retirada efetiva do país ocorreu por decreto em 23 de janeiro de 2017 sob o anúncio de que acabara de fazer “uma grande coisa para os trabalhadores americanos”.

Após quase oito anos de negociação, Obama estava certo de que se colocava uma alternativa à ordem econômica regional chinesa. Já o Sr. Trump diz defender “os interesses nacionais”, enquanto a confiança global na liderança dos Estados Unidos alcança o menor patamar[1].

Mais recentemente, os decretos anunciados no dia 1 de março de 2018 e assinados uma semana depois, criando tarifas de 25% para importação de aço e de 10% para importação de alumínio, surpreenderam, inclusive, grande parte do seu próprio Partido Republicano. O governo Trump quer estimular que as empresas em território nacional comprem aço e alumínio de produtores dos Estados Unidos. Com tal medida, o presidente alegou que pretende salvar empregos e proteger a segurança nacional.

O Sr. Trump diz estar agindo de acordo com parte de uma investigação de segurança nacional iniciada no ano passado. Recentemente, o Departamento de Comércio americano lançou dois longos relatórios alegando que os Estados Unidos precisam de maiores indústrias de aço e alumínio para produzirem os aviões de combate F-18 e F-35 e veículos militares blindados[2].

Para fazer valer sua vontade, o Sr. Trump invoca uma lacuna raramente utilizada nas regras de comércio internacional que permite aos países impor restrições comerciais em tempos de guerra[3]. Como as negociações na OMC poderiam demorar mais do que seu fôlego eleitoreiro, Trump alegou a seção 232 do “Trade Expansion Act” de 1962, que permite que os Estados Unidos estabeleçam restrições comerciais em nome da segurança nacional.

Trump faz política comercial como quem julga ser necessário para tanto apenas ter vontade política. Sem dúvidas, o Sr. Trump está correto. É preciso ter vontade política. Mas é fundamental olhar para o comércio internacional despindo-se das lentes do passado.

O Sr. Trump utiliza conceitos e propaga ideias de uma época distante para analisar os fatos do jornal de tinta fresca (ou melhor, do Twitter trending topics).

Como quem engasga com a sua própria saliva, Trump fala de livre-comércio furtando alienar-se do protagonismo estadunidense de outrora, inclusive, na criação das instituições internacionais que buscam promovê-lo. Aliena-se ainda que tais instituições promoveram o livre-comércio e o próprio protagonismo estadunidense no comércio internacional. Há um campo fértil de pesquisa a respeito do papel dessas instituições, e.g. OMC e seu predecessor GATT, no estabelecimento de regras globais para o comércio entre as nações, na condução de negociações que resultem em abertura comercial ou mesmo em manutenção de barreiras comerciais. Mas as contradições não acabam aqui.

O Sr. Trump parece viver em um mundo em que o rótulo “Made in” ainda possui algum significado econômico. Sua própria propaganda política tinha no slogan “Make America Great Again” a mensagem fundamental de que era necessário reestabelecer a produção nos Estados Unidos para recuperar os empregos perdidos e então restabelecer a pujança econômica. Se a adaptação do slogan utilizado em 1980 (“Let’s Make America Great Again”) lhe rendeu bons frutos, provavelmente o mesmo não ocorrerá se sua visão de comércio internacional estiver ancorada em quase quatro décadas atrás.

Uma das características mais marcantes da onda recente de globalização é o aumento da fragmentação da produção mundial em diversos estágios internacionalmente dispersos. Nessa economia global cada vez mais interconectada, a produção da maioria dos bens depende de etapas do processo produtivo localizadas em diferentes (poucos) países e os insumos intermediários atravessam as fronteiras domésticas múltiplas vezes.

Nesse contexto, culpar as importações pela perda de empregos e menores ganhos econômicos e sociais associados à produção industrial no século 21 mostra-se demasiadamente simplista. No caso específico das indústrias de aço e alumínio, alguns economistas apontam para o papel das inovações na reconfiguração da dinâmica industrial de tais mercados. Outro fator importante é a suntuosa queda do consumo americano de aço nos últimos anos.

Diante da complexidade da produção industrial com suas facetas de manufatura avançada e sua organização em cadeias globais e regionais de valor, as soluções protecionistas podem acabar em resultados completamente distintos do que é esperado. Se a criação de empregos nas indústrias de aço e alumínio não é uma certeza, não restam dúvidas quanto à transmissão dos efeitos de tais tarifas de importação para as demais indústrias que utilizam tais metais.

O custo, é claro, será pago tanto por aqueles que perderão empregos e poder de compra quanto pelas empresas que assistirão ao enfraquecimento da sua capacidade de competir internacionalmente.

O escopo e a justificativa legal dada por Trump tornam esse caso inédito. O Sr. Trump parece estar dando os primeiros passos para uma guerra comercial de amplitude global. Na tentativa de recuperar a hegemonia na esfera produtiva, Trump acaba por criar um vazio político que certamente será ocupado. De longe, pode-se ouvir o presidente chinês, Xi Jinping, entoando um apaixonado brinde “Ganbei!” pela vida do Sr. Trump e pelo enorme espaço político deixado para si. As retaliações estão sendo desenhadas mundo afora e podem não se restringir a ações tarifárias. Infelizmente, não é a escalada do protecionismo o que mais assusta. Mas a escalada global da ignorância.

Notas

[1] Lançada em janeiro de 2018, a pesquisa de opinião realizada pela Gallup mostrou queda recorde na aprovação do papel dos Estados Unidos no mundo, alcançando, inclusive, nível inferior ao da China em avaliações de aprovação mundial. Ver: http://news.gallup.com/reports/225587/rating-world-leaders-2018.aspx.

[2] https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2018/03/01/3-ways-trumps-steel-and-aluminum-tariffs-could-backfire/?utm_term=.83c6a5a0e1f4

[3] https://www.ft.com/content/7b354ff8-1d73-11e8-aaca-4574d7dabfb6.

Crédito da foto da página inicial: Mandel Ngan/AFP/EBC

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1 resposta to “A política comercial de Trump: a escalada da ignorância”

  1. Rogério Mattos disse:

    Marília, achei curiosa as suas colocações. Parecem um lamento por se mexer na estrutura de livre-comércio que o próprio EUA ajudaram a criar quando jogaram fora o acordo original de Bretton Woods, aquele forjado por Roosevelt e que tinha como objetivos promover o comércio justo entre os países. O suposto anacronismo cometido por Trump (acreditar no “made in”) é por ser uma medida por demais tradicional. A base dos acordos de Bretton Woods foi a justiça comercial através de um regime de trocas baseado em padrões de câmbio pré-fixados. Se é difícil imaginar os EUA desvalorizar sua moeda para proteger a economia, é ainda mais difícil acreditar que, com qualquer governo, se crie o consenso suficiente para implodir a hegemonia do dólar, correlato da liquidez infinita ao sistema financeiro, que foi forjada com Nixon na esteira da chamada “crise do petróleo” (crise de desintegração econômica dirigida). Em relação ao espaço que assim Trump deixa aberto para outras potência, em especial a China, deve-se ter em conta que a proposta Um Cinturão, Uma Rota, defendida mundo afora por Xi Jinping, é considerada um plano econômico ao estilo do Plano Marshall, porém mais de cem vezes maior. Além da reinstauração da lei Glass-Stegall, o que os EUA deveriam fazer é utilizar os imensos recursos chineses na compra de títulos de sua dívida, e redirecioná-los, em parceria, para a reestruturação de sua economia. Agora não é só o metrô que para e passarelas que caem: toda a infraestrutura do país está a ponto de entrar em colapso devido às décadas de primazia dada aos petrodólares e ao capital colante transnacional. Essa é a verdadeira “PPP” que Trump deveria defender, ou seja, a parceria de seu governo com o governo chinês e das empresas de ambos os países visando o objetivo de reestruturar a economia física do país. Não é possível alguém se lamentar que um acordo de livre-comércio como o Tratado Transpacífico tenha virado pó. Do sistema euro ao Nafta e a Alca, todos esses mecanismos de livre-comércio e de hegemonização de uma moeda única devem ir para a lata do lixo da história em um mundo verdadeiramente multipolar.

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