Brasil Debate

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Cristina Fróes de Borja Reis

Professora da UFABC, doutora em Economia pela UFRJ

 
Cristina Fróes de Borja Reis

A perda de sofisticação da especialização comercial do Brasil

Embora o Brasil ainda seja uma economia industrial de grande porte, sua matriz produtiva está se enfraquecendo, pois suas cadeias internas estão sendo corroídas, perdendo elos mais sofisticados – o que reforça a tendência de menor complexidade das exportações

As cadeias globais de valor (CGV) lideradas por grandes empresas transnacionais consolidaram uma divisão centro/ periferia que já não se baseia na separação em centro produtor de manufaturas e em periferia produtora de recursos naturais.

Ambos os produtos são produzidos e exportados por países ricos e pobres, que na verdade atuam em atividades das cadeias com diferentes graus de sofisticação, dificilmente captados pelos dados de contabilidade nacional existentes.

A sofisticação seria a mudança estrutural para atividades que melhoram a qualidade dos produtos, mais intensivas em conhecimento e tecnologia, inovadoras e que geram diferenciação – geralmente relacionadas a tarefas de desenvolvimento, como P&D ou design, ou de logística e comercialização, notadamente o marketing.

Trata-se, também, de aumentar a participação dos bens intensivos em tecnologia de alto preço na pauta exportadora e na matriz produtiva da economia. De outro modo, a especialização em atividades que adicionam pouco valor às CGV e são pouco sofisticadas enfraquece a posição comercial e produtiva do país.

No longo prazo, esmorece a trajetória de desenvolvimento econômico, considerando seus impactos negativos em termos de patamar de salários e geração de renda, dependência tecnológica, vulnerabilidade externa, consequências ambientais e sociais (condições de trabalho, seguridade, poluição, devastação, esgotamento de recursos etc.).

Para entender as dinâmicas de sofisticação comercial é preciso fazer comparações trabalhosas entre as pautas exportadoras do mundo todo e também compreender a contribuição efetiva das empresas domésticas na cadeia produtiva dos bens e serviços exportados.

Nesse contexto, diversas iniciativas recentes buscam construir indicadores para medir a participação dos países nas cadeias de valor e a complexidade dos bens e serviços ofertados por eles, superando algumas dificuldades das medidas tradicionais. No primeiro caso, sobre atuação nas CGV, um exemplo é a bases de dados de comércio em termos de valor adicionado da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e OMC (Organização Mundial do Comércio) – que mostra o percentual de valor adicionado importado por setor nas exportações dos diversos países.

Embora este indicador não leve a nenhuma regra geral sobre as vantagens de estar mais ou menos engajado às CGV, ajuda a entender a especialização.

No caso brasileiro, após ter caído entre 2005 e 2009 de 11,7% para 10% a participação do valor adicionado estrangeiro nas exportações brutas totais aumentou para 10,8% em 2011, de acordo com a OCDE/ OMC. Os percentuais de valor importado nas exportações brasileiras não estão concentrados em um parceiro comercial específico, mas as parcelas deles são relativamente parecidas entre os diversos setores industriais, sendo que a principal origem era os EUA (19% do total de valor adicionado importado).

No setor de “equipamentos elétricos e óticos”, a importância dos EUA era mais reduzida e praticamente idêntica à da China (ambos de cerca de 15%), enquanto em “têxteis, produtos têxteis, couro e calçados” a da China era superior (18%) à dos EUA (15%).

Desse modo, a inserção brasileira nas CGV é de exportações com alto conteúdo local, o que reflete a diversidade e a resiliência da matriz industrial doméstica, só que também seu papel mais fundamental de fornecedor de matérias-primas e alimentos e de mercado consumidor de bens e serviços, especialmente para EUA e China.

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Apesar de não ser exatamente uma forma de avaliar a sofisticação, o índice de complexidade tecnológica do Atlas da Complexidade é uma tentativa de quantificá-la (iniciativa de Ricardo Hausmman e César Hidalgo, respectivamente da Universidade de Harvard e do Instituto Tecnológico de Massachusetts, ambos nos Estados Unidos).

O índice de complexidade dá um passo além na análise de diversificação (medida pela quantidade de produtos exportados por um país), porque a combina com a questão da ubiquidade (avaliada pela quantidade de países que exporta cada produto). A complexidade econômica é maior quanto menos ubíquos e mais diversificados os produtos exportados.

De acordo com os dados do Atlas, em 2013 o Brasil era a 51º economia exportadora mais complexa, tendo sido a 40ª em 2005. A queda drástica reforçou um perfil pouco sofisticado que não condiz com o porte da economia brasileira e seu potencial produtivo, caso houvesse iniciativas profundas de modernização para o desenvolvimento econômico.

A pauta de exportação brasileira se concentra em produtos minerais (minérios de ferro, petróleo cru), alimentos (açúcar bruto e farelo de soja) e produtos agrários (soja, milho e café), sendo que dentro os gêneros industriais destacam-se máquinas, equipamentos de transporte e químicos. Por outro lado, importa petróleo refinado e cru, itens mais complexos de transporte para alimentar a produção interna do setor e químicos.

Este regresso denota um perfil desanimador, considerando a forte correlação positiva entre a estrutura produtiva dos países e a renda, em termos de patamar e distribuição: quanto mais complexa, maior a renda e menor a desigualdade.

Embora o Brasil ainda seja uma economia industrial de grande porte, sua matriz produtiva está se enfraquecendo, pois suas cadeias internas estão sendo corroídas, perdendo elos mais sofisticados – o que reforça a tendência de menor complexidade das exportações.

Para retomar o desenvolvimento, a complexidade industrial é essencial – tanto melhor quanto mais se sofisticar, para uma integração estratégica nas cadeias globais de valor. Os caminhos para esta integração são estruturais e institucionais, econômicos e políticos, que merecem ampla discussão.

No plano teórico, há de se enfrentar o discurso conservador predominante baseado em vantagens comparativas estáticas, que afinal coadunam com interesses internos e externos de se manter uma inserção nas CGV dependente e, logo, mantenedora de relações de classe que levam a uma distribuição brutalmente concentrada de poder e riqueza – tanto no plano das relações capital trabalho, capital/capital e inter-estatal.

Crédito da foto da página inicial: EBC

Esse texto é uma versão reduzida do artigo “Sofisticação tecnológica e desenvolvimento econômico: a divisão centro-periferia no contexto das cadeias globais de valor” da mesma autora publicado no Boletim Informações da FIPE n. 418, julho de 2015.

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