A mudança da embaixada de Israel de Tel Aviv para Jerusalém coloca o Brasil como parte do conflito secular entre árabes e judeus. É a “catástrofe positiva” de que Bolsonaro precisa (na foto, o presidente com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu).
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Luís Fernando Vitagliano

É cientista político e professor universitário. É colunista do Brasil Debate

 
Luís Fernando Vitagliano

A nação rumo ao terror

A opção por mudar a embaixada brasileira para Jerusalém tem vantagens para o governo Bolsonaro. Justificaria o forte esquema de segurança e o novo papel das forças armadas na sociedade. É como criar um vírus para vender a vacina

24/01/2019

A proposta de mudança da embaixada de Israel de Tel Aviv para Jerusalém coloca o Brasil desnecessariamente como parte do conflito secular entre árabes e judeus – tema sobre o qual o Brasil tradicionalmente se posiciona defendendo a isenção e uma solução mediada e pacífica. Com a suposta decisão do novo governo, o Brasil entraria na rota de países sujeitos a atentados internacionais de grupos fundamentalistas. Isso deve ser considerado uma catástrofe. Mas, relação com Israel é a catástrofe positiva que Bolsonaro precisa para sua sustentação política interna e externa.

Chamo de “catástrofe positiva” um tipo de catástrofe “desejada” ou até mesmo provocada, para fazer uso político de uma calamidade pública, poder tirar proveito da situação, ganhar popularidade e fazer acontecer o que se quer através de uma rápida reação que se aproveita da vulnerabilidade da opinião pública – algo ainda mais radical do que a escritora canadense Naomi Klein chamou de “doutrina do Choque”.

Esse talvez seja o ponto nevrálgico da proposta política por trás do que defende na política externa o novo presidente. Assim, muitas das vontades do atual governo poderiam se realizar com ameaças de que o Brasil se torne alvo de terrorismo. Justificaria, por exemplo, o forte esquema de segurança e o novo papel das forças armadas na sociedade brasileira. É como criar um vírus para vender a vacina. Assim funciona a nova direita: cria problemas dos quais apenas suas propostas podem dar conta de trabalhar. Isso confunde o eleitor e faz valer a vontade dos grupos que dominam o governo com base na ilusão e no medo.

Se essa provocação faz sentido, estamos (por indução equivocada do próprio sujeito) comparando Bolsonaro ao presidente dos EUA errado. Bolsonaro deve ser comparado a George W. Bush e não a Donald Trump. Bush era fruto do lobby do petróleo, Bolsonaro já está loteando o pré-sal. Bush é apoiado e faz um governo em que as questões ambientais são negligenciadas (aliás, vence Al Gore, um entusiasta da causa). A política de segurança pública de Bolsonaro é parecida com a de Bush, libere as armas à população. E, finalmente, Bush tem nos atentados de 11 de setembro todos os motivos que precisou para fazer sua cruzada contra o Iraque de Sadam Hussein, consegue controlar o Congresso e por mais medíocre que tenha sido sua administração (permitindo, por exemplo, que o neoliberalismo desgrace com as finanças do país), consegue a reeleição com relativa facilidade.

Para defender essa tese (bastante radical, admito) proponho explorarmos a lógica que vai além do sentido e do significado futuro da proposta de mudança de embaixada de Israel, de Tel Aviv para Jerusalém.

Alguns intérpretes têm defendido que tal decisão representa a submissão da política externa brasileira aos interesses dos EUA, um suposto alinhamento estratégico radical e desnecessário. Outros pensam na religiosidade do ato, afinal, parte do apoio político de Bolsonaro vem dos evangélicos que querem aproximar-se da comunidade judaica e Jerusalém é para eles terra sagrada. Para outra parte dos analistas são os interesses econômicos ligados à política de segurança que levam a tal decisão – parcerias e trocas de tecnologia com Israel em termos de produção de armas, treinamento de tropas e tecnologia de segurança estão sendo discutidas. Isso trouxe pela primeira vez na história um primeiro ministro israelense para visita o Brasil e justamente na posse de Bolsonaro.

Provavelmente todas essas análises estejam certas. Entretanto, é possível que estejam parcialmente certas porque se complementam: fazem parte de um combo de motivos que estimulem essa decisão política que para a maior parte dos analistas de política externa trazem mais riscos ou prejuízos que benefícios.

De fato, se analisarmos os prejuízos, questões delicadas se apresentam. É uma sinalização perigosa em relação à política bilateral com os EUA (porque se associa demais a Trump e não necessariamente aos EUA – porque o assunto é polêmico também aos EUA e à própria comunidade judaica internacional). Traria prejuízos na discussão sobre direitos humanos internacionais – mas o que são os Direitos Humanos para esse governo? Para a política de Bolsonaro pode ser desprezível, mas para a União Europeia, os países desenvolvidos como Japão, Suécia, Dinamarca, para a Rússia, para a própria China essa atitude é vista com receio, desconfiança e desequilíbrio.

Contornados a possibilidade de prejuízos no comércio (que a mudança da sede da embaixada seja um motivo pequeno para afetar desde já a política comercial), todos os prejuízos em áreas de direitos humanos, direito internacional, identidades culturais, autodeterminação dos povos etc. são temas desinteressantes ao atual governo e benefícios. Já as vantagens em termos de parcerias estratégicas e consentimento da sua base política interna são vantajosos.

É preciso avaliar o governo Bolsonaro a partir da sua própria lógica e, nesse sentido, a relação com a opinião pública não segue o padrão democrático, de convivência com a oposição no sentido de minimizar o efeito das críticas e conquistar eleitores e apoio dos cidadãos. A lógica bolsonariana é de alimentar seus apoiadores enquanto eles próprios sufocam agressivamente a resistência e a oposição, quer com atitudes truculentas, quer com a institucionalidade que couber, sem respeito ao jogo democrático.

Mas, todos esses argumentos racionais, em termos de vantagens e desvantagens, se desfazem em situações de normalidade política. Se adicionarmos ao cálculo o elemento “risco”, de o Brasil entrar desnecessariamente na rota internacional, qualquer governo recuaria na proposta. Mas, ao considerarmos que esse governo saberia tirar proveito da catástrofe não estaria receoso com uma consequência como a do terrorismo.

Só um governo que deseja que isso aconteça pode não recuar. Esse é o ponto.

Para reforçar meus argumentos listo alguns fatos relacionados que colaboram com minha desconfiança. A começar pelo óbvio trivial: a fatídica facada em Bolsonaro. O próprio filho tuitou e depois apagou que a facada tinha elegido o pai em primeiro turno. Raciocínio óbvio de quem trabalha com a ideia de catástrofe positiva. Além do fato de que Bolsonaro já vinha provocando o petismo à agressividade, de quem se antagonizava, como quando levantou aquele tripé que fez de metralhadora para matar petistas. Ou seja, quis por várias vezes provocar a catástrofe e já calculava que suas consequências seriam positivas no sentido de alcançar os objetivos almejados de forma desonesta e populista.

Militares como Bolsonaro e seus antigos superiores (e atuais subordinados) já se comportaram no sentido de trabalhar ações de terrorismo para manipular a opinião pública. Historicamente, as ações espetaculares fazem parte da trajetória política do próprio Bolsonaro. Ele é afastado do Exército por planejar um atentado para provocar o aumento de soldo. Seu plano original não dá certo, mas as consequências do seu ato são manipuladas no sentido de se tornarem positivas, pois com isso se elege deputado.

Mesmo parte do Exército já tentou usar método assim. Foi assim com o planejamento do atentado do Riocentro – um carro a bomba plantado por oficiais do Exército que queriam incriminar a esquerda para interromper o processo de redemocratização.

Parte dos que estão no poder hoje pensam com a cabeça e o método da Guerra Fria. O problema é que ela acabou, mas suas ferramentas obsoletas continuam presentes e, agora ociosas, buscam então motivos para existir. Samuel Huntington é que deu a ideia com seu famoso artigo sobre o “choque de civilizações”. Com o fim da Guerra Fria os conflitos internacionais não seriam mais regidos pelas questões econômicas, mas civilizacionais ou religiosas e o epicentro dos conflitos mundiais que iam dividir o mundo estão no Oriente Médio. Por que o Brasil tomaria partido nisso? Porque tornar a comunidade árabe internacional como inimiga ou provocar parte dos movimentos internacionais que ninguém controla, se colocando como alvo? Há algum sentido para essa provocação e esse risco além do próprio egoísmo?

Só a um grupo político interessa que alguma coisa (por menor que seja), ligado ao terrorismo internacional ocorra no Brasil: ao presidente Bolsonaro e sua tara por segurança. Vai justificar uma série de problemas que nunca existiram para além das suas alucinações e se podem se tornar parte concreta do orçamento público brasileiro. Daí para criminalizar o PT, perseguir as esquerdas e eliminar o inimigo interno é menos que um passe de mágica.

Crédito da imagem da página inicial: Fernando Frazão/Agência Brasil

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1 resposta to “A nação rumo ao terror”

  1. Roberto disse:

    Concordo plenamente professor. Este (des)governo “viaja na maionese”, está tentando criar fatos políticos novos para manter ocupadas as mentes pouco sofisticadas que o elegeram. Esta tolice de se aproximar do Governo israelense, mais sujo que pau-de-galinheiro”, é uma forma de levar na boa o relacionamento com certos grupos religiosos mais fanáticos, que creem nos mitos: “Davi e Golias”, “Bolsonaro e PT(pra eles satã), “Povo Escolhido”, etc. É fácil…. as consequências ruíns podem sim ser úteis ao discurso e práticas mais duras, de restrição das liberdade políticas, de confronto com movimentos sociais que o capitão julgar “perigosos” à estabilidade de seu governo medíocre.

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