O apoio crescente das elites a líderes autocratas na era do capital financeirizado.
" />

Brasil Debate

Brasil Debate

Marco Aurélio Cabral Pinto

É professor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense, mestre em administração de empresas pelo COPPEAD/UFRJ, doutor em economia pelo IE/UFRJ. Engenheiro no BNDES e Conselheiro na central sindical CNTU. É colunista do Brasil Debate

 
Marco Aurélio Cabral Pinto

A euforia dos ricos em 2 mundos apartados: o do cassino financeiro e o das vítimas da concentração de riqueza

Há uma crise civilizatória de elevada profundidade e inércia. O descolamento da realidade conduzirá a elite financeira ao ‘autismo social’, enquanto multidões alheias ao desempenho das bolsas de valores sairão às ruas

17/06/2020

O devir da realidade socialmente construída está entre os mais complexos fenômenos para o entendimento humano. Nas ciências sociais, este ramo de especialização e estudo é conhecido como análise de economia política da conjuntura.

Como ensina o professor J. L. Fiori, apoiado em Braudel, para se trilhar este caminho, o cientista social deve procurar a história como fonte para elaboração de premissas (ex-ante) e campo para verificação de hipóteses (ex-post). Felizmente, este desafio não se confunde com achismo, ao contrário, pois que, mediante décadas de estudo e pesquisa orientada, se percebe individual e frequentemente o esforço como processo de iniciação.

No entanto, na medida em que os observadores da história ganham entendimento sobre a relação entre os acontecimentos, passam usualmente a se agravar as dores na alma. A contemporaneidade se insere em inevitável crise civilizatória de elevada profundidade e inércia. Uma antítese com o Renascimento, a sofrida, porque destrutiva, preparação para a pós-modernidade.

Enquanto isso, os sobrenomes mais prósperos, aqueles que ocupam o topo das hierarquias em cada uma das suas sociedades territoriais, aceleram a acumulação de meios materiais. Ao ponto de se estabelecer entre segmentos majoritários das elites mundiais consenso tácito de que aqueles que são excluídos dos “mercados”, aqueles que vivem para a subsistência, não são mais necessários.

Diante da perspectiva do inevitável ocaso da civilização judaico-cristã no século 21, as elites passaram a apoiar líderes autocratas. Como estratégia para defesa de integridade da riqueza financeira acumulada em tempos de guerra. É desta maneira que se pode compreender o avanço do totalitarismo e da financeirização do capital na conjuntura. Capital móvel e manu militari em momento de pré-guerra.

O objetivo do presente artigo é aplicar esta hipótese mais geral à conjuntura das bolsas de valores nos EUA nas semanas que se seguiram ao momento mais agudo da pandemia, em 23 de março de 2020. E mostrar que o descolamento entre as expectativas de recuperação econômica ocidental pós-23 de março e a realidade histórica abriu um abismo em cuja borda equilibra-se cuidadosamente o ordenamento dos “mercados”. Até Quando?

1.A pandemia mundial e as eleições dos EUA em 2020

Em uma discussão como esta, a síntese é fundamental. E, para isso, o método consiste em reter os acontecimentos segundo regra de tipografia utilizada no jornalismo corporativo (mais longevo e uniforme) contemporâneo ao acontecimento. Em outras palavras, interessam apenas as manchetes garrafais.

Nestes termos, o século 21 foi inaugurado com ataque militar em território norte-americano (11 de setembro), o qual desencadeou reação expansionista com ocupação militar dos EUA no sudoeste asiático ao menos até 2008.

Para reter a dimensão, em 2004, imediato à ocupação do Iraque, os EUA mantinham cerca de 117 mil efetivos na Europa e 100 mil na Ásia (Le Monde Diplomatique), boa parte mercenários-milicianos recrutados nas Américas.

Em setembro de 2008, mesmo ano em que seria eleito B. Obama, se desencadeou a partir dos EUA crise financeira de proporções ainda não conhecidas. Após oito anos de governo, o complexo industrial-militar-tecnológico cumpriu acordo e retirou-se do comando da maior potência militar do planeta em favor do “democrata” complexo financeiro-midiático-jurídico.

Diante da crise financeira, respostas “pós-keynesianas” em escala ampliada foram adotadas pelos EUA, Europa e Japão. Desta maneira, ao contrário do previsto no receituário fiscalista recorrente aos “Democratas”, a crise na prática impediu qualquer tentativa de se restabelecer controle de liquidez e gastos nos muitos anos vindouros.

O resultado da ocupação militar no sudoeste da Ásia pelos EUA, apesar de diminuída em contingente após 2008, manteve-se íntegra para efeitos de geopolítica. Na Figura 1 percebe-se claramente o objetivo estratégico para 2021, primeiro ano do segundo ainda potencial mandato de D. Trump. Enquanto os dispêndios militares mais que dobraram entre 2001 e 2008 (de US$ 300 para 700 bilhões a.a.), entre 2009 e 2016 retraíram-se a apenas U$ 100 bilhões a.a (Banco Mundial).

D. Trump não se comporta como mero representante sazonal do complexo industrial-militar-tecnológico em transição de poder nos EUA. Apresenta-se como chefe de Estado imbuído pelas elites do deep state com a responsabilidade de conduzir os EUA ao inevitável enfrentamento militar das Américas contra a Ásia (China-Rússia-Irã).

Conforme discutido recentemente em outro artigo (http://brasildebate.com.br/os-eua-em-pre-guerra-ascensao-da-china-e-petroleo/), a inevitabilidade e a urgência da Guerra resultam do fracasso, percebido pelo deep state, das estratégias norte-americanas para conter o expansionismo chinês pela via dos “mercados”. Ao menos desde 2003, a China parecia abrir-se para o escoamento industrial ocidental. Tornando-se igualmente sujeita a guerra híbrida que já vinha sendo gestada nos gabinetes do complexo financeiro-midiático-jurídico.

Em 2020, ano de eleição nos EUA, a eclosão da pandemia permitiu a observação do estágio de maturidade dos diferentes protocolos de biodefesa nacionais. A China, país que sofreu o primeiro “ataque”, repeliu a ameaça com casualidades próximas a zero quando comparado com o número de vítimas potenciais (~1% da população, 14 milhões de pessoas). Ainda que o novo coronavírus fosse um vírus de alta letalidade, seria igualmente contido. O que mostrou a eficácia das defesas militares chinesas e, mais tarde, de outros poucos países. Ou seja, mesmo diante de ameaça de rápido contágio, como a Covid-19, a China conseguiu defender-se de maneira exemplar.

Já os EUA situam-se no campo oposto, não por coincidência o mesmo escolhido pelo Brasil-Indecência. Nestes dois países, aparentemente não havia nenhum protocolo de biodefesa. É como se nos EUA a burocracia militar houvesse desconsiderado a ameaça de novo ataque biológico. (o primeiro ocorreu com Antrax em 2001).

Em artigo publicado em janeiro de 2020 (http://brasildebate.com.br/os-eua-em-pre-guerra-ascensao-da-china-e-petroleo/), procurou-se mostrar quanto os EUA encontram-se engajados em pesquisas de armas biológicas, com rede de laboratórios privados fundeados no estrangeiro. Ou seja, a premissa de que os EUA foram surpreendidos pela pandemia, sem quaisquer protocolos pré-estabelecidos de defesa nacional, não corresponde à realidade.

Ao contrário, a precariedade das respostas públicas norte-americanas comprovou que os protocolos de defesa foram previstos para proteger apenas ao subconjunto mais próspero da população, estritamente aos mais ricos.

Tratando-se de ano de renovação do executivo e do legislativo, contudo, não seria difícil antecipar que o impacto negativo sobre os mais pobres favoreceria politicamente os democratas do complexo financeiro-midiático-jurídico. O que conduz a novas perguntas, sendo a principal: por que D. Trump colocaria seu mandato em risco?

2.Os mercados de capitais e as eleições de 2020

A dinâmica das bolsas de valores ocidentais no ano de 2020 passou, além do convencional juros/dívida/inflação, a responder a dois fenômenos com elevada incerteza, pois que se encontram intimamente relacionados – a pandemia e as eleições nos EUA.

O mais coerente é se assumir que, para o deep state norte-americano, ambos os eventos são arena de disputa de narrativas em defesa dos interesses das elites em qualquer cenário.

Como o Estado Nacional é território político a ser configurado (Gestalt) a partir do resultado das eleições, alinha-se e polariza-se, nos EUA e em todo o sistema internacional, debate cada vez mais contaminado tecnologicamente. De um lado, o complexo industrial-militar-tecnológico. De outro, seu dual, o complexo financeiro-midiático-jurídico. Sabendo-se que, entre ambos, há regras de convivência estabelecidas como aliados desde a guerra civil (1860-64). Uma entre estas, a transição de poder.

Desde os anos noventa do século 20 verificam-se nos EUA ciclos de oito anos. Pois bem, são estes ciclos político-econômicos, emanados dos EUA, que se sobrepõem historicamente aos acontecimentos “garrafais”, potencializando-se ou inibindo-se as agendas programáticas “vencedoras” das eleições.

Neste contexto, a destruição de riqueza bursátil verificada em março de 2020 abriu espaço para gestão de expectativas positivas entre as milhões de famílias de classe média-alta, entre os muitos (lá) detentores da riqueza financeira. Esta gestão de expectativas pós 23 de março tem sido realizada com doses progressivas e crescentes de notícias de “recuperação e crescimento” ao longo de 2020. Tudo se passa como se a pandemia promovesse a reinicialização do sistema econômico internacional, tendo-se no petróleo a chave da manutenção da hegemonia norte-americana no século 21.

Neste quesito, um dos “mercados” se eleva acima dos demais no cassino – o preço em US$ do barril norte-americano WTI e o Barril Brent, negociado em Londres. Considerando-se que os preços do petróleo são formados em mercados de capitais, tomando-se a oferta como mais ou menos dada, aparentemente a sua recuperação “faz parte” do nivelamento da recuperação de tudo o demais (múltiplos de mercado).

Antes de seguir, é bom que se tenha em mente que o alto comando do seleto “Clube dos Banqueiros” judaico-cristãos ocupa a função dupla de gestor e guardião de boa parte da riqueza mundial, inclusive aquela em mãos de grupos “industriais” nos diferentes territórios nacionais.

Por esta razão, no presente trabalho trata-se como equivocada a premissa de que “os movimentos naturais dos mercados” obedecem estritamente ao confronto impessoal entre oferta e demanda objetivas. Equivocada em vários níveis, mas o principal é indiscutivelmente quanto ao tratamento da dinâmica de expectativas, em torno do qual se trava acalorado debate acadêmico em ciências sociais. Ou seja, no presente trabalho inverte-se a lógica de determinação em favor da hierarquia dos sistemas, tomando-se movimentos de recuperação nos preços do petróleo como condição para a gestão da expectativa de desempenho nos outros setores.

Elevado à condição de setor-chave para a compreensão da realidade econômica, o preço da mercadoria petróleo passa a ser alvo prioritário de disputa entre ‘interesses conflitantes complexos” cada vez mais polarizados.

A disseminação do vírus que causa a Covid-19 só gerou impacto negativo sobre mercados bursáteis internacionais, incluindo-se petróleo, no momento em que os governos da Europa, ao contrário do esperado nas Américas, reagiram na defesa do humanismo subjacente ao sonho de Bem-Estar Social. Tivessem os líderes europeus se alinhado com as elites norte-americanas no projeto de descarte dos pobres, a queda de preços teria sido significativamente menor.

A eficácia do protocolo de biossegurança chinês parece igualmente ter surpreendido os planejadores norte-americanos. Ou seja, aparentemente os EUA passaram a enfrentar risco de verem ampliar, ao invés de diminuir, a velocidade do catch-up chinês pós-pandemia.

Ambos os percalços, promovidos por Europa e China, mostram apenas o tamanho do distanciamento do velho continente do núcleo de decisões norte-americano no segundo ainda potencial mandato de D. Trump.

Conclusivamente, a intensidade das medidas monetárias expansionistas observadas nos EUA a partir de março de 2020 foram, em grande parte, dimensionadas para sustentar os preços em mercados de capitais, incluindo-se petróleo, diante da urgente necessidade de retomada da capacidade industrial norte-americana.

Com isso, mostra-se tolerância com inflação de ativos, a qual usualmente vem acompanhada de euforia quanto à volta à normalidade da vida cotidiana. Uma normalidade que apenas aos ricos reserva fruição e leveza. Alimentada pela “euforia dos mercados”, que nada mais fez que repor o que destruiu, antecipa-se uma “belle époque” para as elites mundiais. Uma percepção do mundo como se os “mercados” fossem realmente triunfar diante do avanço do caos sistêmico.

O descolamento da realidade socialmente construída, conforme percebida pela imensa maioria das almas encarnadas, irá conduzir essa elite financeira ao autismo social. Enquanto isso, segmentos da sociedade mais afetados pela concentração de riqueza sairão às ruas, inflamados pela mídia corporativa, que defende a narrativa financeira ao mesmo tempo em que faz oposição ao Governo D. Trump.

Com isso, conforme esperado, a elite financeira autista, para Marx alienada, apoiará festivamente a concentração de poder policial-coercitivo, travestido de neofascismo, única força capaz de garantir a continuidade de suas fantasias. Uma fantasia na qual a beleza é branca, se reúne em torno da bíblia e se exime de todo o pecado do mundo.

Crédito da foto da página inicial: Agência Brasil

Clique para contribuir!

1 resposta to “A euforia dos ricos em 2 mundos apartados: o do cassino financeiro e o das vítimas da concentração de riqueza”

  1. […] Fonte: A euforia dos ricos em 2 mundos apartados: o do cassino financeiro e o das vítimas da concentraçã… […]

Comentários