O ambiente político na internet está controlado por duas estratégias distintas: a das guerras híbridas (por trás da Lava Jato) e a das milícias virtuais (que alimentam o bolsonarismo).
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Brasil Debate

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Luís Fernando Vitagliano

É cientista político e professor universitário. É colunista do Brasil Debate

 
Luís Fernando Vitagliano

A democracia das redes em tempos de lavajatistas e milicianos

Houve tempo em que se supunha que a internet seria bastião da liberdade e das democracias, mas não é o que se vê hoje. O ambiente virtual está dominado pelas guerras híbridas e milícias virtuais, estratégias que, no Brasil, estão por trás do lavajatismo e do bolsonarismo

14/05/2020

Ao ser demitido, o ex-ministro, ex-juiz e integrante do governo Sérgio Moro foi convertido em inimigo de Estado e, ao ser colocado na posição de antagonista, passou também para o ataque. Dessa feita, o embate entre Moro e Bolsonaro revela estratégias diferentes de atuação política e, mais interessante, usos diferentes da rede social: enquanto Moro desenvolve o método de guerra híbrida, Bolsonaro faz das suas milícias digitais uma atuação de rede com base no engajamento de guerrilhas.

Ao que tudo indica, esses métodos caminharam juntos até esta ruptura, principalmente a partir do segundo turno das eleições de 2018. Isso talvez tenha confundido os analistas ou mascarado as diferentes formas de atuação política na rede. Podem ter atuado em sintonia no Brasil a partir de objetivos em comum: primeiro, em 2015 e 2016 para tirar o PT do governo.

Depois, em 2016, para viabilidade político/eleitoral e finalmente como base de sustentação do governo Bolsonaro e do neoliberalismo de Guedes e Moro. Agora essas estratégias se afastaram. Talvez não completamente, porque no governo permanece o neoliberalismo defendido por Guedes e que mobiliza parte das tropas da guerra híbrida, mas certamente a movimentação lavajatista se distancia, antagoniza e vai para o embate.

A separação das estratégias de rede na construção da opinião popular não significa que há discordância em termos de objetivos políticos. Pode ser apenas uma disputa entre membros de um grande bloco de poder. Lavajatistas são mais próximos dos democratas nos EUA, é sabido que Bolsonaro é admirador do republicanismo fanfarrão de Trump. Mas, no final, assim como republicanos e democratas nos EUA se parecem cada vez mais, o neoliberalismo representado por Guedes e Moro não é equidistante do ultraconservadorismo reacionário de Bolsonaro.

As características dos eventos recentes, particularmente a partir de 2015, tornaram eficientes as novas estratégias políticas. Bolsonaro ganhou uma eleição mesmo não tendo uma pauta econômica. Não foi assim antes: as quatro eleições vencidas pelo PT (duas por Lula e outras duas por Dilma) e mesmo as eleições vencidas pelo PSDB com Fernando Henrique Cardoso tinham como questão central a economia. Bolsonaro colocou a economia como subsidiária da pauta de valores, enfatizando a corrupção e segurança pública como questões emergências e apresentando uma série de discussões sobre costumes.

E a substituição do PSDB como polo de disputa a partir da direita mostrou que a pauta de valores é a pauta do engajamento virtual, enquanto a pauta econômica tornou-se secundária. Ao fazer essa mudança de perspectiva junto à opinião popular, Bolsonaro torna-se a referência à direita pelo conservadorismo e vence as eleições ao tornar a pauta de costumes prioritária em relação à própria pauta econômica.

Então é quase que automático supor que, hoje, a pauta mais consistente é a de valores, em que o método de guerra híbrida, justamente, tem menor eficiência que o método do engajamento. Bolsonaro com isso mantém-se como o mais influente das redes. É o ator de maior mobilização. (É verdade que sofre, mesmo na pauta conservadora, algum impacto com a saída de Moro, porque havia na figura do ex-juiz alguma associação com valores de combate à corrupção). De qualquer modo, a eficiência das milícias já trabalha na estratégia de desacreditar Moro.

É importante perceber que, quando aceitamos distinguir as estratégias de ambos os campos, encontramos as origens diferentes dos métodos.

As guerras híbridas têm origem em estratégias de campanha no próprio Facebook e o principal laboratório foi a Primavera Árabe no Oriente Médio, onde se combateu o governo com pautas de manifestações organizadas virtualmente e fazer críticas ao governo que se formam a partir de uma base centralizada e “anônima”, a partir da NSA e CIA, com movimentos orquestrados como Estudantes pela Liberdade, Institutos Liberais etc. e em fortalecimento a isso crises econômicas a partir do Crash de 2008 podem agravar a percepção dos problemas.

Foi assim que, em 2013, o Departamento de Estado dos EUA trabalha no Brasil, influenciando protestos e, em 2014, começa a operação Lava Jato com parceria com o Departamento de Justiça dos EUA. É ilustrativo que aparelhos como o Instituto Albert Einstein, de Gene Sharp, sejam pioneiros na técnica.

Já as guerrilhas virtuais têm modo de funcionamento diferente. Steve Bannon, que atuou na Campanha de Donald Trump, é mais conhecido pelo feito. Ao contrário da atuação pela não violência de Sharp, as milícias digitais se inspiram em movimentos dos anos 1990 como Anonymos e Occupy Wall Streat – movimentos antiglobalistas que atuam em rede desde o final do século passado sem uma atuação mais direta nas instituições de governo.

O gabinete do ódio de Bolsonaro bebe dessa fonte, que é um movimento de engajamento que sai do virtual para a atuação de ruas. Nesse método, os bolsonaristas sofisticaram a atuação e desenvolveram estratégias que fogem do próprio Facebook ou Twitter e vão para o Whatsapp, que é uma ferramenta de conexão comunitária e precisa de maior engajamento para crescer e ter consistência, mas uma vez desenvolvida, é mais poderosa.

Ao contrário do movimento de guerra híbrida, o engajamento de rede é descentralizado. Ambos podem aparentar espontaneidade ou serem horizontais e sem lideranças claras, mas, na verdade, os dois têm coordenação central. Se os engajados aparentam ter coordenação mais clara (como a liderança política se apresentando e insuflando as massas), é um método com uma pulverização maior e atuação mais militante e caótica nas redes. Enquanto o método da guerra híbrida aparece sem liderança, mas atuam de modo mais centralizado e organizado a partir das propagandas de agências, eventos publicitários e do financiamento dos robôs.

Não sejamos ingênuos: ambos têm muitos robôs. Sem robôs para atuar nas redes demora mais para as coisas acontecerem. Mas, o engajamento precisa ser mais alimentado. Essas milícias precisam de fakenews para detonar suas ações. Haters são recrutados. Humoristas são financiados. Canais sensacionalistas são necessários.

Houve um tempo em que se supunha que a internet seria um bastião da liberdade e das democracias por ser um espaço que permite que qualquer pessoa possa usufruir de liberdade de expressão. Não é isso que se vê hoje. O domínio da internet já está bastante mapeado, concentrado e controlado. E embora os métodos de guerras híbridas e o das milícias virtuais tenham estratégias distintas, atuam de forma bastante eficiente na disputa cotidiana por concentração da opinião popular.

Essas estratégias de ação na rede conseguem manipular a informação e propor o engajamento que transcende o mundo virtual, tem impacto na vida concreta e afeta até mesmo as liberdades democráticas. Se quisermos reduzir a manipulação política das redes e ampliar a democracia, esse é um debate necessário.

Crédito da foto da página inicial: Jornal USP/Outras Palavras

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1 resposta to “A democracia das redes em tempos de lavajatistas e milicianos”

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