Brasil Debate

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Euan Gibb

Tem experiência sindical de 20 anos, a maioria no Canadá; fez mestrado no Global Labour University, na Alemanha

 
Euan Gibb

A crise política no Brasil segundo um sindicalista canadense

A crise econômica está sendo usada neste momento específico com as eleições nacionais de 2018 em mente. A preocupação maior da direita é que o Lula volte, o que é inteiramente válido. Lula tem uma base de apoio incrível, particularmente nas regiões mais pobres

Comentaristas progressistas escrevendo em inglês estão acertando um monte de coisas, mas algumas estão consistentemente em falta nos escritos deles.

A atuação política no Brasil está sendo dividida entre petistas e coxinhas de uma forma incrivelmente rígida: tão rígida que nem representa a realidade mais. A mídia nacional brasileira é terrível e alimenta a divisão, abertamente faz campanha para a direita sem nenhuma vergonha. Na verdade, é menos campanha para a direita e mais campanhas anti-PT diariamente em jornais, revistas e na televisão.

A versão curta é que a direita perdeu as eleições mais uma vez em 2014. Perderam por pouco. Mas nossa presidente está inteiramente dependente de alianças com partidos de direita que são a maioria tanto no Congresso quanto no Senado. Até hoje, a direita não aceitou que perdeu a eleição. Começaram uma campanha de impeachment no dia após a eleição – antes de resolver que tipo de provas conseguiriam.

Desde a eleição, o preço do petróleo baixou, o valor do dólar dos EUA subiu e o valor do real baixou, o que produziu efeitos imediatos na economia. Mas todos os problemas estão sendo atribuídos à Dilma pela mídia. Todo dia essa mensagem é repetida. Exportamos muito petróleo no Canadá também. Assim, o câmbio é ligado ao preço de petróleo. Mudanças no preço internacional de petróleo têm efeito imediato no câmbio e na economia. Imagina a mídia culpando o Primeiro Ministro por isto 24 horas por dia.

A direita está fazendo o seu melhor para desestabilizar o governo atual e, simultaneamente, a mídia afirma que Dilma é pessoalmente fraca e que ela continua a ser pessoalmente responsável pela redução do crescimento econômico (aqui tudo o que é político é pessoal, nada é institucional ou estrutural). Na verdade, como podem apresentar uma mulher que lutou contra a ditadura, foi presa, foi torturada, sobreviveu e conseguiu subir até o cargo de presidente neste sistema tão machista como ‘fraca’ é realmente impossível de entender.

Quem está nas ruas?

Fora o núcleo duro dedicado em ambos os lados, milhões de pessoas foram às ruas vestindo as cores da bandeira – o que, na verdade, é uma sobra duradoura da ditadura. Brasil “ame-o ou deixe-o” é o tipo de política. A esquerda usa vermelho e assim a direita define-os como “não brasileiros”.

Claro que há vários motivos que levam a população às ruas. Com bandeiras diferentes. Algumas bem chocantes – tipo ‘por que não matamos todos em 64’ (uma referência clara à época em que os militares tomaram o poder e mataram sindicalistas, entre muitos outros), ‘pelo fim da democracia, intervenção militar já’, e, ultimamente, instâncias de jovens com placas falando ‘não islamização do Brasil’, que realmente não tem nada ver com a situação atual, sugerindo envolvimento de grupos internacionais verdadeiramente fascistas.

Para os milhões participando nas passeatas de ‘direita’, as estatísticas são claras: mais de 70% são brancos – em um país em que as estatísticas nacionais indicam que mais de 50% da população é negra. Mais de 70% recebem mais do que 5 salários mínimos (no top dos 5% dos assalariados neste país). Claramente, eles têm uma posição de classe que vão defender. Analistas brasileiros críticos e inteligentes têm identificado que estas pessoas têm privilégios e estão empenhados em lutar para defendê-los. O assunto aqui é defender desigualdade.

Todo mundo conhece alguém que participou nestas manifestações. Ando sempre perguntando duas coisas que a meu ver são importantes para expor a lógica subjacente destes manifestantes.

1.Pergunto se eles sabem que existe esta campanha pelo impeachment. Após a confirmação, pergunto se é importante permitir que o processo legal corra até o fim ou se deveríamos forçar Dilma a sair e ter eleições amanhã de qualquer jeito. ‘Dane-se o processo legal’ é a resposta mais comum. Eles não dão a mínima para a lei.

2.Quem está organizando as passeatas? Novamente, a maioria responde: ‘Não sei e não me importo com quem está por trás!’ Mas existem quatro grupos principais e todos eles têm financiamento de gente seriamente rica. Os irmãos Koch dos EUA incluído. Um dos grupos está fazendo campanha aberta para o retorno da ditadura militar. Outro fala claramente que aprendeu muito com o Movimento Passe Livre (que, diga-se de passagem, é realmente de esquerda, continua fazendo um trabalho ótimo nas comunidades, discutindo, debatendo, organizando, num jeito profundamente democrático e que não tem nada a ver com nenhum destes grupos organizadores destas passeatas). Usaram a tática de não ter líderes claros com poder para esconder os líderes poderosos deles, pois os líderes deles têm muito pouco apoio na base da população brasileira.

Por que agora?

A crise econômica está sendo usada neste momento específico com as eleições nacionais de 2018 em mente. A preocupação maior da direita é que o Lula volte. É uma preocupação inteiramente válida. Lula tem uma base de apoio incrível, particularmente nas regiões mais pobres.

Apesar de os manifestantes serem brancos, educados (e ignorantes – tem muita gente formada formalmente que não quer saber de ‘fatos’) e ricos defendendo sua posição de classe (falando “Fora PT porque assim o real sobe e podemos voltar a Miami para fazer as compras” nos grupos deles no Facebook), muitas outras que participam nessas enormes demonstrações não apoiam a volta de ditadura militar nem a defesa clara da elite.

Estão bem frustradas porque muitos deles mesmo apoiavam o projeto social do PT. O PT era de fora deste sistema que tantos acham podre. O PT ganhou prometendo acabar com a corrupção sistêmica. Não acabou. Claro que a grande parte da corrupção não era enriquecimento pessoal (apesar de que existe também), mas a compra de votos para continuar no poder.

Isto não faz diferença nenhuma para a maioria dos eleitores. Os sentimentos nas ruas estão parecidos com aquele nível de decepção na África do Sul quando as políticas duras do neoliberalismo chegaram. Que decepção quando as esperanças são vendidas e as coisas pioram em vez de melhorem depois de lutar tanto.

Por enquanto, ficamos nesta situação instável, em que políticos claramente corruptos mantêm o poder de julgar o impeachment de uma presidente democraticamente eleita para eles mesmos tomarem o poder. Pelo menos um terço dos integrantes já definidos da comissão especial que vai analisar o processo de impeachment da presidente eleita está sendo investigada por acusações criminais no Supremo Tribunal Federal, incluindo corrupção, lavagem de dinheiro e crimes eleitorais.

Enquanto uma boa parte da população permanece convencida de que não gostar de um governo promove uma desculpa legítima para impeachment…

*Confira abaixo a versão em inglês (idioma em que o texto foi originalmente escrito, como uma tentativa de explicar um pouco da nossa situação política atual para alguns dirigentes sindicais e acadêmicos no Canadá):

The political crisis in Brazil according to a Canadian trade unionist

The economic crisis is being used at this particular moment with the 2018 national elections in mind. The biggest concern – which is entirely valid – is that Lula returns. Lula has an incredible base of support, particularly in the poorest regions of the country.

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Progressive commentators writing in English are covering a lot of the important aspects of the current crisis, but a couple of key points are consistently missing.

Politics in Brazil is being divided between supporters of the workers party and ‘coxinhas’ (a breaded chicken snack) who are conservatives in an incredibly rigid way: so rigid in fact that it no longer reflects reality. The Brazilian national media is terrible and feeds the division openly and shamelessly campaigning for the right. In fact, it is less campaign for the right and more anti PT campaigns in daily newspapers, magazines and television.

The short version is that right lost the elections again in 2014. They lost narrowly. But following those elections, president Dilma ended up entirely dependent on alliances with right-wing parties who are the majority both in Congress and in the Senate. To date, the right did not accept that they lost the election. They began actively campaigning for impeachment the day after the election – before even deciding what kind of evidence they would try to arrange.

Since the election, the price of oil has fallen, the US dollar’s value rose and the value of the Real – the Brazilian currency has fallen, all of which produced immediate economic effects. All of the associated economic problems are being attributed personally to Dilma by the media. Every single day this message is repeated. We export a lot of oil in Canada as well. Thus, the exchange rate is linked to the price of oil. Changes in international oil prices have an immediate effect on the exchange rate and on the Canadian economy. Imagine the media blaming the Prime Minister (personally!) for this 24 hours a day.

The right is doing its best to destabilize the current government while simultaneously, the media repeats the message that Dilma is weak and unprepared and that she continues to be personally responsible for the reduction of economic growth (in Brazilian politics everything is personal, nothing is institutional or structural). How a woman that fought against dictatorship, was arrested and tortured, and then managed to climb to the position of president in this extremely macho, patriarchal system a as ‘weak’ is really impossible to understand.

Who´s in the streets?

Outside of the dedicated hard core on both sides, millions of people took to the streets wearing the colors of the flag – which, in fact, is an enduring leftover of dictatorship. Brazil “love it or leave it” type of politics. The left uses red and so right defines them as “non-Brazilian.”

Of course there are always diverse motives that take people into the streets. And naturally, a diversity of banners that people make to share their messages. Some are genuinely shocking – like ‘why didn’t we kill them all in 64’ (an explicit reference to the time when the military seized power and killed trade unionists among many others), ‘End Democracy, Military Intervention Now!’, most recently, most recently ‘End Islamisization of Brazil’, banners have appeared in two different Brazilian cities.

This message really has absolutely nothing to do with the current situation, but does strongly suggest the involvement of international fascist groups.

For the millions participating in the demonstrations of the ‘right’, the statistics are clear: more than 70% are white – in a country where national statistics indicate that more than 50% of the population is black. More than 70% receive more than five times the minimum wage (in the top 5% of earners in this country). Clearly, they have a class position that they will defend. Critical and intelligent Brazilian analysts have identified that these people have privileges and are committed to fight to defend them. This has nothing to do with rights. Rights are for everyone. The issue here is defend privileges and thus, inequality.

Everyone knows someone who participated in these demonstrations. I consistently ask two things that I think are important in order to explore and understand the underlying logic of these protesters.

1.Do they know that there is a legal campaign for impeachment? After confirmation, I ask if it is important to allow the legal process to run until its conclusion or if we should force Rousseff out regardless of that process and have elections tomorrow. ‘Forget the legal process’ is the most common answer. They do not care about the legal process or the rule of law.

2.Who is organizing the demonstrations? Again, the replies are consistent: ‘I don’t know and don’t care who’s doing the organizing!’ There are four main groups, all of which have seriously wealthy people funding them. The famous Koch brothers from the US included. One of the groups openly campaigns for the return of military dictatorship. Another says clearly that they learned a lot from the ‘MovimentoPasseLivre’ a decentralized group of engaged young people that organized the 2013 demonstrations here in Brazil; a group which, by the way, is genuinely left and continues to do a great job in the community, discussing, debating, organizing in a deeply democratic way – all of which has absolutely nothing to do with any of the organizers of current demonstrations). They used the tactic of ‘PasseLivre’ of not having clear leaders with decision making power or party affiliation in order to hide the powerful leaders behind them, because their leaders have very little support at the base of the population.

Why now?

The economic crisis is being used at this particular time with the 2018 national elections in mind. The biggest worry is Lula´s return. It is an entirely valid concern. Lula has an amazing base of support, particularly in the poorest regions of the country.

Although the protesters were white, educated (but ignorant – high levels of formal education, but do not want to hear about ‘facts’) and the rich defending their class position (saying things like “Out with the PT so the currency goes up and we can go back to Miami to go shopping “in their Facebook groups), many others taking part in the huge demonstrations do not support the return of military dictatorship or this clear defense of the elite and their specific interests.

Many of these demonstrators are very frustrated because they supported the political and social project of the PT. The PT was coming in from the outside of this political system that so many feel is so rotten. The PT won power nationally promising to end systemic corruption. It hasn’t ended. Of course, much of the corruption was not personal enrichment (although this also exists), but buying votes to stay in power.

This does not make any difference at all for most voters. Feelings on the streets are similar to that pervasive, deep level of disappointment in South Africa when the harsh policies of neoliberalism arrived. What a disappointment when hopes are sold and things get worse rather than improve after so much struggle.

For now, we remain in this unstable situation, which clearly corrupt politicians retain the power to decide the impeachment of a democratically elected president and then take power themselves. At least one third of the members of the special commission that will examine impeachment are currently under investigation for criminal charges in the Supreme Court, including corruption, money laundering and electoral crimes.

While a good part of the population remains convinced that simply not liking a government provides a legitimate justification for impeachment…

 

Crédito da foto da página inicial: Agência Brasil

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1 resposta to “A crise política no Brasil segundo um sindicalista canadense”

  1. Cassia BUFELLI disse:

    Nesse momento reflexões como essa ajudar até para intensificar nossa luta. Depende de nós o Brasil que queremos. Lutar pela Democracia e nossos direitos são necessários, porém manter e ampliar as conquistas sociais são indispensáveis para diminuir as desigualdades em nosso País…

Comentários