Brasil Debate

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João Feres Júnior

É cientista político, vice-diretor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ e coordenador do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP) e do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA)

 
João Feres Júnior

A crise política e o enigma da Globo

Publicado na Carta Capital em 20-5-2017

Não sei o que é mais ridículo nessa crise turbinada na qual o País embarcou com as delações da JBS, o tom de indignação dos âncoras e comentaristas da grande mídia perante o deslindamento dos esquemas de corrupção envolvendo Michel Temer, Aécio Neves et caterva (nunca essa expressão latina foi tão bem empregada), ou a reação de incredulidade e desilusão de boa parte da classe média perante o noticiário. No caso dos lacaios da grande mídia, o ridículo reside na farsa descarada de seu comportamento. Já a classe média passa pelo ridículo daqueles que dão sinais da estupidez em público sem se darem conta disso.

Ora, quem não sabia que Temer, Aécio e seus aliados estavam envolvidos em todo tipo de maracutaia? Resposta: somente os pobres de espírito, entendendo esta palavra no seu sentido filosófico de desenvolvimento da mente. Corta para o detalhe cômico de o delator Saud dizer que Temer e Kassab se distinguiam por abertamente reservarem propina para gastos pessoais, enquanto todos os outros recipientes pelo menos tinham o pudor de tomar o dinheiro para fins de campanha, prima facie, é claro.

Não há nada de muito novo nessas delações além da verdade escancarada dos fatos, no atacado, e de provas materiais contra alguns delatados. Apesar de isso não ser pouca coisa, os fatos em si não deveriam surpreender a ninguém. O que é na verdade surpreendente, ou seja, a grande questão que se coloca para a análise política nesse momento é o racha que começa a se desenhar entre os órgãos da grande imprensa.

Enquanto a Folha de S. Paulo e o Estadão adotam posição de bombeiro da crise, lançando em suas capas e editoriais dúvidas sobre as acusações contra Temer, a rede Globo, por meio de todos os seus meios, move campanha ferrenha contra Temer e de lambuja contra Aécio, até há pouco um verdadeiro darling das empresas dos Marinho, com direito a amizade sincera e pública com figuras como Luciano Huck e Ronaldo Fenômeno.

Os jornalões paulistas fazem o que era esperado deles, apoiaram Temer desde o início, a Folha de modo bem mais recalcitrante, isso é verdade, e agora se aferram a sua opção política original, cerrando fileira com a defesa do presidente, ainda que já permitam colunistas bem mais críticos pedindo a cabeça de Temer em suas edições.

Quem se comporta de maneira muito atípica é o Grupo Globo. Temer é massacrado pela cobertura do jornal, da rede aberta e do canal noticioso de cabo. Dedicam a ela uma cobertura somente comparável àquela recebido por Lula, personagem ao qual o grupo dedica publicamente ódio mortal, descartando todos os rituais de pretensa neutralidade e equilíbrio jornalístico em favor de um tratamento abertamente persecutório.

O editorial do jornal O Globo do dia 20, publicado antecipadamente no site na tarde de hoje (19 de maio), pede a renúncia de Temer, ainda que reafirme o apoio a sua agenda reformista neoliberal. Está aí mais um elemento de surpresa.

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A grande empresa de mídia quer descartar o arauto de sua agenda política. O que leva a Globo a agir dessa forma? Quais seriam os planos por trás desse comportamento que a distancia dos demais membros da grande imprensa, até há pouco muito alinhados em suas posturas e ações políticas?

É muito difícil responder essa pergunta. Podemos, porém, tentar encaixar algumas peças do quebra-cabeça com a esperança de adivinhar os contornos da figura. O primeiro argumento a descartar é aquele contido no editorial, de que estariam fazendo isso porque o presidente não pode cometer atos eticamente tão reprováveis. O cinismo aqui é evidente e nem vale a pena perder linhas de texto em provar que tal argumento é pura balela.

Outro argumento improvável, que anda circulando pelas redes, é que a Globo (e uso essa expressão para me referir ao Grupo Globo) já tem sucessor para Temer e por isso não vê a hora de se livrar do presidente apodrecido. Ora, qualquer operação de substituição do presidente nesse clima de instabilidade é altamente arriscada e mesmo uma empresa do porte da Globo não tem como controlar todos os resultados.

A versão mais crível desse argumento fala de uma reunião entre a presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, e empresários, incluindo Carlos Schroeder, diretor geral da TV Globo, no último dia 8 para tratar de um desenlace para a crise que fosse operado por via judicial. Mesmo que os participantes tivessem informações privilegiadas sobre as delações dos irmãos da JBS, nada garante que a ministra tenha poder para controlar o processo de substituição de Temer.

Só sobra a informação, não confirmada, de que o Grupo Globo depende muito das verbas publicitárias da JBS, particularmente por passar atualmente por aperto financeiro, e isso estaria por trás de sua posição anti-Temer. Não é que a Globo seja contra Temer. Pelo contrário, já declarou inúmeras vezes em editoriais sua simpatia pela agenda tucana do pemedebista, assim como a cobertura de seus jornais lhe tem mostrado imenso favor, como podemos confirmar nas análises do Manchetômetro.

Agora, os destinos de Joesley Batista e de seu irmão Wesley se chocaram, porém, com o do presidente ilegítimo. Se a delação combinada com eles se mostrar inócua, provavelmente não escaparão da cadeia. Então, agora é Joesley e Wesley ou Temer. A empresa da família Marinho parece ter feito sua escolha.

Ah, já ia me esquecendo de Aécio. Esse parece ter ficado pelo caminho. Com a prisão da irmã, perdeu sua capacidade de operação. Só a ele esperar que Luciano Huck e Ronaldão venham lhe prestar solidariedade nessa hora difícil. Afinal de contas, amigos são para essas coisas.

Crédito da foto da página inicial: Reprodução Globo Play

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