Brasil Debate

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Reginaldo Moraes

É professor da Unicamp, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu) e colaborador da Fundação Perseu Abramo. É colunista do Brasil Debate

 
Reginaldo Moraes

A conversão para a direita não é fatal, mas é forte e generalizada

O historiador Thomas Frank ensina que não se deve folclorizar a nova direita, ela não é piada. É uma percepção do mundo, muito difundida e perigosa. Não devemos nos fixar nesse ‘lunatismo’, mas nas fontes de suas ideias

Este artigo é um convite ao leitor para especular sobre algumas desgraças contemporâneas. Para isso, utilizo provocações de um livro de Thomas Frank – Pity the Billionaire: The Hard-Times Swindle and the Unlikely Comeback of the Right., Metropolitan Books, New York, 2012.

Frank ressalta a grande quantidade de pequenos empresários entre os ativistas e manifestantes do Tea Party. Donos de lojas, de restaurantes e assim por diante. Para eles, “regulação” é a visita do inspetor sanitário ou do fiscal, “achando” o que multar. É a pequena burguesia como bucha de canhão dos grandes piratas. Algo assim como os trouxinhas da nossa Avenida Paulista, berrando contra a corrupção e liderados por grandes sonegadores e corruptos.

É possível, até mesmo provável, que este pequeno empreendedor venha a ser a ponta de lança de uma nova direita, de suas demandas mais radicais. Para ajudar a propaganda anti-estado e anti-coletivista, a pequena empresa sente mais de perto a presença do regulador, até porque a grande empresa tem mais recursos para engraxar o regulador. Em geral, no mundo inteiro, quem mais paga imposto é assalariado, classe média e pequena empresa. Grande empresa e grande fortuna escapam sempre. São Mateus explica: de quem nada tem, ainda mais lhes será tirado, para aqueles que tudo têm, ainda mais lhes será dado.

Frank retoma uma passagem preciosa do Wright Mills – que está no livro A Nova Classe Média, no capítulo sobre os pequenos negócios. Nela, Mills mostra como o fetiche do americano empreendedor não nasce de dentro desse universo (dos pequenos empreendedores) nem decorre de seus ‘sucessos’, mas do interesse dessa imagem para o grande negócio. É a bucha de canhão.. É o pequeno proprietário e seu sofrimento, seu heroísmo, que parece justificar e sustentar a luta contra o imposto sobre herança, para a desregulação (trabalhista, fitossanitária etc.). Assim como a mítica Family farm é manejada como símbolo para justificar subsídios agrícolas que beneficiam o agronegócio e proprietários que residem em Manhatan e veem pastos e colheitas apenas nos filmes.

Outra coisa importante lembrada pelo livro de Frank: não se deve folclorizar a nova direita, ela não é piada. E é uma percepção do mundo, muito difundida e muito perigosa. Parece exótica e paranoica, sempre anunciando uma invasão de marcianos (comunistas), embora estes sequer existam. Mas o que está por detrás disso é uma operação mental de desligamento da realidade, do factual. Por isso parece tão exótica. Não devemos nos fixar nesse ‘lunatismo’ da nova direita, mas nas fontes de suas ideias. O que está atormentando e assombrando nossos tempos não é a volta de algum grupo de fascistas folclóricos e antiquados, mas a desintegração econômica e a ação de direitistas muito atuais e nada antiquados.

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Mas o livro do Frank não nos alerta apenas sobre a nova direita e sobre suas fontes de poder e energia. Ele nos alerta para as conversões que o novo ambiente produz. Daí vale reproduzir a passagem luminosa sobre a conversão de Obama (e não só dele…). A passagem é extraída do livro The Audacity of Hope, que Obama publicou em 2006, antes, portanto de sua chegada à Casa Branca:

“Cada vez mais, encontrei-me a passar tempo com as pessoas “de bens” — grandes escritórios de advocacia e bancos de investimento, gestores de fundos de hedge e capitalistas de risco. Em geral, eles eram gente inteligente e interessante, bem informados sobre políticas públicas, liberais na sua política, esperando nada mais de que ouvisse suas opiniões em troca de seus cheques. Mas eles refletiam, quase uniformemente, as perspectivas de sua classe: o 1% do topo da escala de renda que pode assinar um cheque de $2.000 para um candidato a político. Eles acreditavam no mercado livre e uma meritocracia educacional; acham difícil imaginar que haja qualquer mal social que não possa ser curado por uma alta pontuação no SAT [exame geral de fim de ensino médio]. Eles não tinham paciência com protecionismo, acham que sindicatos são problemáticos e não são particularmente simpáticos para aqueles cujas vidas foram derrubadas pelos movimentos do capital global. Eu sei que me tornei mais parecido com os doadores ricos que conheci, em consequência da minha arrecadação de fundos”

Não sei bem se é de Obama que estamos a falar. Pensando bem, estamos diante de um grande problema, não é?

Crédito da foto da página inicial: Luiza Sigulem/Brasileiros

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1 resposta to “A conversão para a direita não é fatal, mas é forte e generalizada”

  1. Berenice da Silva Franco disse:

    Boa-tarde a todos! Aqui em Porto Alegre não é uma boa-tarde, nem climática nem em nada que lembre uma cidade alegre. Achei que o artigo aborda o assunto de forma muito clara, consegue fazer de um assunto complexo por sua atualidade e suas novas formas de ação, uma narrativa precisa e que me deixou ainda mais preocupada com os fatos não apenas brasileiros mas também com os deste louco sec.XXI. É bastante cômodo sermos presas fáceis do “isto não me atinge”, “eu sempre fui de esquerda”, “estes coxinhas vão sumir” Mas,de fato estamos diante de um grande problema. Será que ainda somos incapazes de superarmos nosso estágio infantil de pensamento, egocêntricos, sem condições de entendimento do real?Será que este é um problema relacionado com o humano e suas contradições? Para Piaget, três quartos da humanidade ainda estava em um período pré-lógico formal. E então me lembrei de um trecho de Souçã(1994) que diz:….se projetasse um filme de vinte e quatro horas descrevendo realisticamente a vida orgânica dos vertebrados, somente os últimos sete minutos tratariam dos homnídeos capazes de usarem ferramentas. Se estes últimos fossem, por sua vez, transformados num novo filme de vinte e quatro horas, só os últimos seis minutos descreveriam a domesticação de plantas e animais pelo homem- e só no último quarto do último segundo falaria da Modernidade.
    Um abraço e espero que esta revista continue para além do último segundo.

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