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Brasil Debate

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Marcelo Zero

É sociólogo, especialista em Relações Internacionais e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI). É colunista do Brasil Debate

 
Marcelo Zero

A classe média e sua nêmese eleitoral

Enquanto os EUA e outros países vêm destruindo as suas classes médias, o Brasil, contrariando seu longo histórico de concentração da renda, as expande. Enquanto eles aumentam as suas desigualdades, nós a diminuímos

Nos EUA, vem se discutindo muito sobre o encolhimento e o empobrecimento da outrora pujante classe média norte-americana. Há também um intenso debate sobre os efeitos dessa débâcle da classe média na economia.

Com efeito, embora a economia norte-americana venha experimentando algum crescimento pós-crise, com a melhoria de seus indicadores macroeconômicos, a maior parte da população continua a sofrer com o desemprego, o trabalho precário e o decréscimo da renda. Em outras palavras, a economia vai até relativamente bem, mas a população vai muito mal.

Vai mal, e não é de hoje. O desmanche progressivo da classe média norte-americana vem de longe. O gráfico abaixo, feito pela economista Pavlina Tcherneva, com base nos dados de Piketty, mostra a história toda.

grafico distrib rendimentos medios

A partir do final da Segunda Guerra Mundial e até a década de 1970, a renda média dos 10% mais ricos dos EUA (em vermelho) crescia a taxas menores que a do restante da população (em azul). Os 90% se apropriavam da maior parte do crescimento da renda, embora essa diferença tenha decrescido, ao longo das décadas. Assim, até a década de 1970, os EUA cresciam com distribuição de renda.

Entretanto, a partir da década de 1980, há uma drástica e clara reversão dessa tendência. Com o neoliberalismo e a reaganomics, os 10% mais ricos passaram a se apropriar, de forma crescente, da maior parte do crescimento dos rendimentos.

Desde aquela época, os EUA crescem aumentando a desigualdade. Alguém lá atrás conseguiu convencer a maioria da população que isso era bom para todo o mundo. Boa parte da classe média votou em sua Nêmese.

De fato, uma consequência óbvia desse processo é o empobrecimento relativo e mesmo absoluto das classes médias norte-americanas. Desde 1999, os 90% mais pobres não aumentam seus rendimentos. É isso mesmo. As classes médias e os trabalhadores dos EUA não recebem aumento real há 15 anos. Na realidade, com o decréscimo recente dos rendimentos, as estatísticas mostram que o rendimento médio dos lares norte-americanos é hoje inferior ao de 1989.

Esse empobrecimento se reflete também no mercado de trabalho. Em 1979, o salário mínimo norte-americano era de $9,67 a hora (em valores de 2013). Hoje, ele está em apenas $7,25, apesar do enorme crescimento da produtividade. Alguém lá atrás deve ter achado que o salário mínimo estava muito alto, e ele acabou sendo reduzido em 25%.

A classe trabalhadora organizada não teve forças para impedir esse desastre, pois ela teve a sua espinha dorsal quebrada. Na década de 1970, 25% da força de trabalho no setor privado da economia era sindicalizada. Hoje, esse número caiu para míseros 7%. Em 1970, apenas 10% da força de trabalho dos EUA tinham trabalhos a tempo parcial.

Hoje, esse índice duplicou. Os empregos gerados são, em sua maioria, de má qualidade, precários e mal pagos. Alguém lá atrás deve ter achado que era uma boa ideia terceirizar funções e flexibilizar o mercado de trabalho.

Esse processo de encolhimento dos rendimentos das classes médias e da classe trabalhadora está na origem da presente crise. Incapaz de manter o crescimento do consumo com salários decentes e bons empregos, as classes médias recorreram aos empréstimos lastreados em hipotecas de imóveis. O resto já faz parte da triste história econômica.

Agora, Obama tenta sair da crise com as mesmas políticas que a provocaram. Em vão. O pequeno crescimento obtido beneficia somente os 10% mais ricos, e mais especificamente, o 1% mais afluente. Os 90% mais pobres estão, na realidade, como mostra o gráfico, empobrecendo de forma absoluta.

Segundo Robert Reich, ex-secretário de trabalho de Clinton, a única maneira de fazer a economia beneficiar de novo os 90% seria “mudando a sua estrutura”. Isso implicaria, pelo menos, ter um salário mínimo maior e uma classe trabalhadora mais organizada, que exigisse empregos de melhor qualidade. Também requeria melhores escolas para os 90%, mais acesso à educação superior e um sistema progressivo de tributos.

Reich adverte que os verdadeiros criadores de empregos não são os CEOs, as grandes corporações e os investidores milionários. O dinheiro da lenta recuperação dos EUA está indo todo para essa gente, mas eles apenas especulam, obtendo grandes dividendos nos mercados bursátil e financeiro. O real criador de empregos, de bons empregos e de bem-estar, é o consumo da classe média e da classe trabalhadora, que expande os negócios e os investimentos.

Lembra alguma coisa, não? Exato. Lembra o Brasil dos últimos anos, que tirou 36 milhões da miséria e acrescentou à classe média 42 milhões de cidadãos. O Brasil que aumentou o salário mínimo em 72% e gerou mais de 20 milhões de bons empregos. O Brasil que, mesmo em meio a pior crise internacional desde 1929, tem a menor taxa de desemprego da história e a maior renda média de sua população. O Brasil que vem facilitando o acesso à educação, especialmente à educação superior, para os mais pobres.

Enquanto os EUA e outros países vêm destruindo as suas classes médias, o Brasil, contrariando seu longo histórico de concentração da renda, as expande. Enquanto eles aumentam as suas desigualdades, nós a diminuímos e, com isso, fortalecemos a economia real, aquela que gera empregos, renda e qualidade de vida. Não adianta ter fundamentos “macroeconômicos sólidos” e a população fragilizada. Não adianta a “economia ir bem”, com a população indo mal, como já ocorreu em nosso passado.

Mas tem gente que não gosta. As candidaturas Marina e Aécio estão repletas de economistas conservadores que querem que o Brasil pratique as mesmas políticas paleoliberais que conduziram o mundo à crise, que quebraram o Brasil 3 vezes no regime tucano, e que impõem obstáculos praticamente intransponíveis à recuperação da economia real e ao aumento da qualidade de vida para o grosso da população.

Com a benção do “Banco Central independente” e com o velho auxílio do desmonte do Estado e do encolhimento do crédito público, vão inevitavelmente provocar, caso tenham êxito, a progressiva fragilização das classes médias e da classe trabalhadora.

Resta ver se as nossas classes médias, seduzidas pelo falacioso discurso modernizante e pseudomoralizador de um neoudenismo tardio, vão, nessas eleições, votar a favor de sua própria Nêmese, como fez a hoje perplexa e empobrecida classe média dos EUA.

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7 respostas to “A classe média e sua nêmese eleitoral”

  1. Ednaldo Torres disse:

    Prezado comentarista:

    Conforme disse o Professor FHC, os nordestinos são ignorantes e mal informados, devo ser um deles já que, vi um país devassado na década de 90, uma verdadeira irresponsabilidade ao igualar o real ao dólar e no início de 1998 aumentar o dólar em 75%, o que fez os bancos americanos e os investidores levar todo o dinheiro prá fora do país gerando o mesmo percentual de prejuizo à nação. Vi salários congelados e FHC e o seu (primeiro ministro) Pedro Malan botar na cabeça dos incautos que não havia inflação enquanto ela crescia chegando a 100,04% (INPC) oitavo ano do governo, repito, sou nordestino ignorante e analfabeto. Mal informado e burro.
    EDNALDO TORRES
    RECIFE PE

  2. MTS disse:

    Marcelo, respeito sua opinião e seu ponto de vista do assunto. Não concordo em generalizar que os CEO’s vivem de especulação, é a mesma coisa que dizer que os pobres são vagabundos por usarem programas sociais.

    Muitos CEO’s se deram ao sacrifício de trabalhar 15 / 18 / 20 horas por dia para criar suas empresas e outras pessoas simplesmente não querem pagar este preço. Tudo bem, cada um sabe o que é melhor para si, assim como há a população sem futuro que deve ser tocada pela oportunidade através do estado, via impostos que são riquezas oriundas dos CEO’s (empresas) e pessoas comuns pagam.

    O estado deveria gerir bem a riqueza gerada através dos impostos, mas é incompetente e inverte o papel, querendo ele gerar a riqueza que acaba indo para o bolso dos políticos.

    Outro ponto, hoje em dia o mundo é extremamente globalizado e você sabe que qualquer política na china tem um impacto muito grande no mundo inteiro. Os países tem de ficar competitivos assim como cada indivíduo deve ser responsabilizado pelos seus próprios erros e acertos com o que faz com a sua vida. No entanto não é o que o estado faz / entende.

    Quanto mais o estado interferir na economia, na vida de quem realmente gera a riqueza no país, no livre arbítrio das decisões das pessoas em comprar o produto X ou Y vamos em passos firmes em direção a países como Venezula, Argentina, Bolívia, Cuba entre outros.

    • Marcelo Zero Marcelo Zero disse:

      Caro MTS,

      Obrigado pelo comentário. Na realidade, o que Robert Reich quis dizer é que os super salários dos CEOs não contribuem para gerar empregos. É necessário que a maioria da população tenha bons salários para que bons empregos sejam gerados.

      Com respeito à sua posição sobre o papel do Estado na economia, eu respeitosamente discordo.Considero que o mercado, sem um significativo controle público, acaba produzindo desigualdade, como demostra o último livro do Picketty.

      Um abraço,

      Marcelo Zero

  3. João Luiz D.M.Padilha disse:

    Texto excelente, bem escrito,informado e explicativo, precisaria ser melhor e mais divulgado, apresenta a síntese do modelo econômico adotado, no plano federal, pelos governos do Partido dos Trabalhadores. Parabéns ao autor.

  4. Glória Maria Ribeiro Sousa disse:

    O melhor texto que li nos últimos tempos, didático. A melhor análise. Obrigada

Comentários